“Além de agentes policiais, às vezes dizemos que somos assistentes sociais”

PSP da Maia está a desenvolver diversos programas de informação e sensibilização junto dos jovens, idosos e comércio; Subcomissário Manuel Eira diz, em entrevista, que níveis de criminalidade estão estáveis, apesar do aumento de casos no comércio

Primeira Mão – O que é, exactamente, esta missão que a PSP da Maia está a desenvolver?

Manuel Eira – É o Policiamento Integrado de Proximidade. É o cumprimento de directrizes da Direcção Nacional da PSP. Neste momento temos já em cumprimento o programa Escola Segura, que está implementado há algum tempo. Comigo aqui, já foram implementados os programas "Idoso Seguro" e "Comércio Seguro". Dentro da área de intervenção de cada um destes programas, visam o contacto entre as pessoas, aconselhamento e intervenção. Relativamente aos idosos, temos tido várias intervenções, com idosos que vivem sozinhos, que vêem na polícia um apoio.

No fundo, não são só agentes policiais e ultrapassam essa tarefa. Além de Agentes Policiais, às vezes dizemos que somos Assistentes Sociais. As pessoas, depois de estarem nas nossas mãos, sentem-se de alguma forma protegidas e sabem que, a partir daí, vão ser encaminhadas. Nós próprios já conduzimos pessoas ao hospital: já fizemos vários internamentos. Pessoas que já não têm o discernimento necessário para recorrerem a um apoio e serem internados. Nós levamos as pessoas ao hospital e sentimos que estamos a ser úteis.

É uma tarefa de apoio à população que está mais fragilizada.

Exactamente. Há pessoas que se recusam a receber assistência. Já tivemos que recorrer ao internamento compulsivo de algumas pessoas.

Porquê?

São pessoas que já não podem recorrer ao médico por si, e temos que as conduzir ao hospital nos nossos carros. Já levámos ao hospital idosos que andavam a deambular nas ruas. Chegados ao hospital, precisavam mesmo de assistência médica.

São pessoas que não têm retaguarda familiar?

A retaguarda por vezes existe. O que não existe é o apoio de que necessitavam. Há muitos casos desses.

Estamos a falar de três intervenções, viradas para os jovens, idosos e comércio local. O acompanhamento ao comércio é algo novo.

Em Novembro do ano passado começámos a intervir junto do comércio. É uma intervenção que consiste, essencialmente, em aconselhamento e prevenção. Os cuidados que devem ter com quem entra nas superfícies comerciais, os cuidados com o dinheiro em caixa, com os artigos em exposição, e encorajar a denúncia de actos suspeitos. Às vezes, há pequenas coisas que podem não trazer qualquer suspeita, mas vamos indicar quais são os comportamentos mais suspeitos, para que possam, desta maneira, denunciar algo que fuja ao normal. Um simples telefonema pode, por vezes, evitar um assalto a um estabelecimento.

Como funciona essa tarefa de aconselhamento?

O agente dirige-se ao estabelecimento comercial e fala com as pessoas. Tive a sorte de ter um agente que, antes de ser polícia, era comerciante. Esse agente já tem experiência como comerciante e é algo que lhe acaba por ser bastante útil. Ter sempre a pessoa que entra no estabelecimento "debaixo de olho" é o suficiente, na maior parte das vezes, para evitar um assalto. É usual entrarem em grupo num estabelecimento, montar uma rixa entre eles, com a intenção de desviar a atenção. Mas basta um deles sair do grupo para fazer o que quiser e já ninguém nota.

Monta-se uma pequena armadilha para o comerciante?

Exactamente, isso acontece. Uma funcionária que esteja na caixa, por vezes, deixa a própria carteira em cima do balcão. Basta uma pequena distracção para ficar sem a carteira. Damos pequenos conselhos que podem evitar situações de roubo. Porque "a ocasião faz o ladrão", e deixar tudo exposto acaba por propiciar o furto.

Há situações comuns, ultimamente, que passam por quebrar os vidros de uma montra, enquanto os assaltantes actuam noutro local. Nestes casos é mais complicado gerir os recursos?

É mais complicado, por vezes surgem esses casos. No caso da Maia, surgem chamadas que nos levam a Gueifães. E, à mesma hora, ocorre um assalto no centro da Maia. São desviados meios, com um simples telefonema, e não podemos estar em todas as freguesias. Relativamente às montras, é algo que acontece muito, principalmente durante a noite. Aconselho a colocação de grades, sistemas de alarme e, essencialmente, não deixar artigos valiosos expostos na montra. Isso é meio caminho andado para o assalto. As grades podem não impedir um assalto, mas dificultam a vida aos assaltantes.

Como tem sido a receptividade dos comerciantes?

Tem sido muito boa. Os comerciantes já ligam para a esquadra a perguntar pelo agente, porque têm dúvidas. Antes era a polícia a contactar com os comerciantes, agora são eles que procuram a polícia. Isso significa que a mensagem está a passar.

Essa mensagem é assimilada facilmente?

A mensagem é fácil de fazer passar, e as pessoas estão a receber muito bem os conselhos que temos transmitido.

A área de actuação da PSP Maia já foi toda percorrida ou ainda faltam algumas zonas?

Temos optado pelos centros mais movimentados. Começámos em Novembro, é pouco tempo, só um agente no serviço. Mesmo assim, fazemos cerca de 40 contactos com comerciantes por dia.

Cuidados aos idosos

No caso dos idosos, como está a ser feito o trabalho de proximidade?

A procura é diferente porque tivemos que fazer um primeiro contacto com as Juntas de Freguesia, que vão mantendo o registo de idosos que vivem sozinhos e que têm apoio das assistentes sociais. Fomos buscar esses registos e a partir daí fomos contactando as pessoas. Além disso, os vizinhos desses idosos vão denunciando. Só assim podemos actuar. Temos que ir buscar informação para conseguir chegar às pessoas. Mas temos feito chegar muita informação às assistentes sociais. Em Pedrouços, o contacto com os idosos estava a ser feito com base em trabalho feito por nós. As assistentes sociais socorrem-se dos contactos que fomos fazendo.

A transmissão dos conselhos, junto dos idosos, tem sido fácil? Ou há alguma dificuldade?

Depende das pessoas. Temos optado por contactar com os idosos enquanto estão nas instituições, durante o dia, e à noite já estão sozinhos em casa. Nos lares, fazemos projecção de slides, com imagens sugestivas, ilustrando pessoas que tentam fazer burlas e vendas de produtos. E, a seguir, damos a nossa opinião: como se deve prevenir as burlas.

Os casos de burla são muito frequentes junto da população mais sénior?

Na Maia não temos conhecimento de muitos casos. Este programa está implementado desde Julho de 2007, mas neste tipo de situações não temos tido ocorrências. A nossa actuação junto dos idosos é de vertente social. Pessoas que precisam de algo básico como a alimentação. O problema, às vezes, nem é não terem dinheiro para comer. O que não têm é o discernimento necessário para cuidar de si mesmas em condições.

Junto das crianças, as coisas são mais fáceis?

Sim, porque é uma população que basta ir ter com eles. Por um lado é mais fácil o contacto. Mas, por outro lado, é difícil lidar com crianças que vêm de um contexto social mais complicado e aí o contacto torna-se mais difícil. Refiro-me a crianças de risco, que têm comportamentos menos próprios nas aulas, àqueles que já se dedicam a furtos e à droga… torna-se um bocado complicado.

Os mais novos assimilam facilmente as informações que lhes são transmitidas?

Sim. Temos feito uma média de 4, 5 acções de sensibilização em escolas primárias, básicas e secundárias, com crianças até aos 13, 14 anos. Fazemos apresentações em PowerPoint com temas que vão desde a prevenção rodoviária até aos perigos da droga e à prevenção de furtos. A receptividade tem sido muito boa junto da comunidade escolar.

Os filhos funcionam como uma plataforma para chegar aos pais. É esse também o vosso objectivo?

Sim, principalmente ao nível da prevenção rodoviária. Muitas das situações que transmitimos são com o objectivo de ser a própria criança a sensibilizar os pais. O uso do cinto de segurança, atravessar na passadeira, sair do carro pelo lado direito… são conselhos para ser transmitidos de filhos para pais.

As acções nas escolas são com grupos de alunos?

Não muito grandes, um máximo de duas turmas. Não podemos demorar muito tempo. O máximo 45, 50 minutos. Mais começa a ser cansativo. Temos que captar a atenção das crianças, com a ajuda dos professores. As acções costumam ser em anfiteatros, onde podemos juntar mais gente.

Criminalidade estável

Recentemente, há mais notícias de assaltos a bombas de combustível, roubos de caixas multibanco, entre outros. Há, de facto, um aumento da criminalidade nos dias que correm ou é só um factor psicológico?

Desde que estou na esquadra da Maia, não tenho registo de qualquer assalto do género. Tivemos um assalto aos correios, roubaram nessa altura cerca de 200 euros. De resto, não tivemos mais situações de relevo. Não há registo de criminalidade violenta na Maia.

Em estabelecimentos comerciais a história já é diferente?

Assaltos a estabelecimentos comerciais, com arrombamento da montra, já temos tido algumas situações. Nesse caso, sim, houve aumento da criminalidade.

Há casos que estabelecimentos que são vítimas de roubo mais do que uma vez. O que podem fazer as pessoas, nesses casos?

Temos tido algumas situações de reincidência, em curtos períodos de tempo. Houve uma papelaria que foi "visitada" duas ou três vezes na mesma semana. Nestes casos, é difícil dar conselhos, mas colocar grades, sistemas de alarme e videovigilância e não deixar artigos de valor nas montras ajudava.

Além de polícias e assistentes sociais, como já foi dito, também são psicólogos. Há pessoas que têm histórias para vos contar?

Sim, muitas vezes as pessoas acabam por nos contar um pouco da vida delas. Precisam de alguém que as ouça, principalmente as vítimas de agressão. Pais que são vítimas de violência por parte dos filhos toxicodependentes também precisam de desabafar. E nós temos que ter capacidade suficiente para ouvir as pessoas. Só o simples facto de estarmos a ouvir é o suficiente para a pessoa sair satisfeita. Sabemos que não podemos resolver os problemas das pessoas, mas temos que saber ouvir.

Na área de actuação da PSP, Maia, Gueifães e Vermoim, há algum local que suscite a vossa especial atenção?

Tentamos dar a mesma atenção a toda a área. Mas tentamos vigiar com mais atenção as áreas onde há mais comércio. Por outro lado, há determinados locais que são propícios à concentração de jovens para consumo de estupefacientes ou a prática de furtos.

São zonas com mais população?

A zona dos Maninhos e o centro de Gueifães concentram muitos jovens, que costumam fazer barulho e vandalizar algumas papeleiras e caixotes do lixo, por exemplo. Relativamente a furtos, na maior parte a interior de veículos, não podemos indicar uma área específica, mas o impacto desse tipo de crime é superior em zonas com mais população.

Há bastantes casos de furtos ao interior de veículos?

Em termos criminais, esse tipo de furto é o que se verifica em maior número.

Mesmo com os cuidados que se aconselha às pessoas?

Mesmo assim. Há falta de cuidado das pessoas. Basta deixar um artigo de valor à mostra para ter um vidro partido no regresso ao veículo. Aconselho as pessoas a nunca deixar nada à vista dentro dos carros. Se quiser levar coisas de valor no interior do carro, o que não recomendo, que as coloque na mala à partida, longe de olhares. O melhor é mesmo prevenir.

Estas acções são para durar?

Isto é o caminho a seguir e é irreversível. Temos tido bons resultados. Aqui na Maia, é essa a minha intenção. Estes três programas que tenho implementados são para continuar. O ideal seria aumentar o número de efectivos a empregar nestes programas. Mas com o tempo veremos se isso será possível.

Como é que as pessoas podem procurar a vossa ajuda?

Temos o número da esquadra, o 229413853. O e-mail, maia.porto@psp.pt. Vejo o e-mail todos os dias, e estou receptivo a todas as mensagens que queiram enviar. E deixo um apelo às pessoas: sei que é difícil, mas sempre que forem vítimas de qualquer tipo de crime, participem. O objectivo não é o policiamento reactivo, mas sim a antecipação ao crime.