Opinião Manuel Ferreira:O Político e Enriquecimento Ilícito

É líquido, para quem quiser ver desapaixonadamente para além dos partidos, que os portugueses, de uma forma muito maioritária, têm muita má impressão dos políticos, em geral.

Os portugueses acreditaram fervorosamente num novo Portugal, aderindo em massa à revolução do 25 Abril, cientes de que, quem os viesse a seguir governar, era capaz de lhes proporcionar melhores condições de vida e melhor justiça social.

Mas muito cedo perceberam que tinham levantado de mais a fasquia dos seus justos e legítimos anseios, e que os políticos, que tinham erigido tão alto a bandeira da justiça, do desenvolvimento, e  da qualidade de vida, afinal, em exercício de funções públicas, ficavam-se por actuações que eram um sombra daquilo que tinham prometido.

Os portugueses não queriam mais do que aquilo que eles lhes poderiam proporcionar, mas exigia-lhes dedicação, perseverança, e honestidade política. Neste capítulo, os políticos têm falhado redondamente.

Dirão: mas Portugal, em muitas áreas do desenvolvimento não é o mesmo que era antes da revolução de 25 Abril. É verdade!

Mas, agora digo eu: Portugal, com as avalanches de fundos que vieram da União Europeia, não poderia ter ido muito mais longe? Em minha opinião, acho que sim! E os portugueses, aferindo o desencanto que sentem pelos políticos, também acham que sim.

Os políticos não souberam aproveitar convenientemente os fundos vindos da União Europeia, ou porque puseram muitas vezes o interesse pessoal à frente do interesse público, ou porque por manifesta insuficiente e má gestão tiveram que devolver muitos desses fundos à União Europeia por inaplicabilidade dos mesmos.

Os exemplos de um e outro caso são correntes, e já há muito que são do conhecimento dos portugueses.

Apesar da justiça ter absolvido já algumas infracções ao interesse público, alegando muitas vezes falta de provas, ou prescrições dos prazos, o povo português que tem um elevado sentido de justiça, sabe que para além da absolvição, na grande maioria dos casos houve matéria de crime.

Paira, em Portugal, uma certa impunidade ao crime público praticado pelos políticos. Vejam-se os casos, bem noticiados pela nossa comunicação social, de certas câmaras municipais do país, distribuídas de norte a sul, em que o interesse público foi ensombrado pelo interesse pessoal.

Há presidentes de câmara que administram a câmara, como uma quinta deles se tratasse, esquecendo-se que a quinta não é deles, mas é do povo que os elegeram e confiaram neles.

Aqui, deveria voltar-se aos costumes de algumas civilizações antigas, para se poder recorrer ao “conselho de anciãos”  a fim de deliberar a expulsão imediata do presidente prevaricador. Neste aspecto, ficaríamos bem melhor servidos de justiça.

O enriquecimento ilícito dos políticos pelo que de muito significa na democracia, é um vírus tão violento que é capaz de abalar o próprio edifício estrutural da democracia.

É disso que temos vindo a falar.

No entanto, os políticos da assembleia da república e os partidos políticos, não entendem assim, não sendo capazes de chegar a um consenso com vista a aceitação de uma proposta que vise combater este tipo de crime que abala o próprio regime democrático.

Estes políticos com este tipo de atitude demonstram que ainda não estão preparados para defender a democracia. Já não falo em instituições, porque instituições são formadas por pessoas.

Vêm aí três eleições, e em todas elas se pede a corrida do povo às urnas de voto.

Questiono eu: não será mais importante dar motivos palpáveis ao povo para ir votar, do que, simplesmente, pedir-lhe para que o faça?

Não ficarei nada admirado se a abstenção nessas eleições for a maior que as registadas até então.

O político, em Portugal, começa a ser visto já não como um cidadão que foi eleito para exercer cabalmente funções públicas numa abrangência e interesse público, mas como uma pessoa que pretende ser eleita para sobrepor o interesse individual ao colectivo.

E a cegueira é tal que não vêm, que, com este procedimento estão a minar a própria democracia.

FRASE

“Apesar da justiça ter absolvido já algumas infracções ao interesse público, alegando muitas vezes falta de provas, ou prescrições dos prazos, o povo português que tem um elevado sentido de justiça, sabe que para além da absolvição, na grande maioria dos casos houve matéria de crime”