Mais de 3000 pessoas já passaram pelo Festival de Música da Maia

A edição 2009 do certame das músicas regista números muito animadores, tendo nos dois primeiros fins-de-semana, ultrapassado largamente a fasquia dos três mil espectadores.

A diversidade das propostas artísticas, a qualidade dos intérpretes e o planeamento das acções de comunicação e marketing cultural têm-se revelado bastante eficazes, na divulgação da programação do Festival de Música da Maia que averba já, alguns concertos com lotação esgotada, muitos deles, com uma antecedência invulgar.

Fórmula D de Deolinda

O fenómeno chamado Deolinda era difícil de entender, sobretudo, para quem nunca tinha assistido a um concerto ao vivo.

Mais do que um conceito artístico-musical, trata-se de uma fórmula que combina, com bastante sucesso, um sentido de humor refinado, uma voz poderosa, um conjunto de instrumentistas consistente e talentoso e, mormente, um cardápio de canções que nos contam histórias de vida, quase sempre divertidas, plenas de entrelinhas e gostosos segundos sentido que provocam o público e lançam uma boa disposição contagiante.

A fórmula D funciona em cheio e é uma solução muito oportuna, num momento da nossa vida colectiva, em que há motivos de sobra para que as preocupações e angústias roubem a muita gente, o sorriso, a boa disposição e, às vezes, até a alegria de viver.

Os Deolinda, de Ana Bacalhau, revelaram-se autenticamente um antídoto contra o ambiente neuro-depressivo da crise. É que tristezas não pagam dívidas e é sempre bom ouvir, como eu ouvi, uma senhora dizer no fim do espectáculo, da fórmula D, de Deolinda: -“…ficava aqui toda a noite a ouvir a cachopa…”.

Este comentário e a fantástica interacção do público com a cantora, trauteando as canções, alinhando nas brincadeiras e provocações impregnadas de uma saudável “malícia”, a que acresceu uma colecção de calorosas e demoradas ovações que obrigaram a vários “encores”, explicaram de uma forma inequívoca, a razão da meteórica ascensão ao topo da popularidade, por parte dos DEOLINDA, uma verdadeira lufada de ar fresco, no panorama da Música Portuguesa.

Cristina Branco, a voz e a virtude de interpretar…

O concerto de Cristina Branco foi, para muita gente, uma agradável surpresa, desde logo pelo refinado bom gosto da cantora, na criteriosa e muito cuidada selecção do seu repertório, quer no que se refere aos poemas e seus autores, como no que diz respeito às músicas e seus compositores, enfim, um luxo.

O concerto foi assim como um banho da melhor cultura lusa. Cristina Branco emprestou a voz a canções e fados belíssimos, cujo tapete instrumental ficou a cargo de músicos de excelência, entre os quais se contavam um exímio executante de guitarra portuguesa, um viola e um extraordinário pianista, cujas intervenções deram às canções, em particular aos fados, uma roupagem instrumental que realçou a riqueza melódica dos temas, sublinhou a densidade harmónica e, a meu ver, enriqueceu profundamente o resultado final, enfatizando até, as características únicas da voz da cantora.

Cristina Branco é senhora de um timbre vocal muito bonito, repleto de cor, cuja tonalidade pictórica, ela adapta aos conteúdos poéticos das canções e fados que, mais do que cantar, ela interpreta. Não estarei, por certo, a exagerar se afirmar que a artista, consegue com alma e sentimento, pôr na sua voz, qualquer coisa que nos remete imediatamente para os cantautores de algumas das canções que integram o programa dos seus concertos. Isto ouviu-se e sentiu-se nos temas de Zeca Afonso, Sérgio Godinho e até nos fados com que homenageou Amália.

Compreendo agora melhor a razão pela qual a revista francesa “Le Monde de la Musique”, uma publicação dedicada ao mundo da música clássica, lhe atribuiu o prémio “etiqueta CHOC”, a um dos seus primeiros discos, na secção designada “Musiques du Monde”, depois de ter passado no crivo de um júri internacional altamente credenciado.

Sem querer deixar o leitor com um sentimento de pena, por ter perdido este belo concerto, não resisto a deixar aqui, o sugestivo alinhamento do programa que incluiu títulos como: – “Tango, Trago um fado, Fria claridade, Uma outra noite, Longe do sul, O rapaz do trapézio, Destino, Ai Maria, Redondo vocabulário, Eterno retorno, Fado do mal passado, Margarida, Fado tango, Histórias do tempo, Bomba relógio, Formiga, Água e mel, Meu amor é marinheiro, Fado menor, Maria Lisboa”.

Coral Jovem de Gondim

O Festival de Música da Maia, cumprindo a sua tradição de incluir na sua programação, uma janela de oportunidade, para mostrar ao público, o que de melhor se produz no concelho, a este nível, apresentou no passado domingo à tarde, o Coral Jovem de Gondim, uma formação artística que tem dado provas da sua criatividade, imaginação e amor à música.

Digo amor, porque acredito que só com muito amor à Música se pode realizar um espectáculo como aquele que o CJG apresentou no Festival.

Catarina Ferreira, a Maestrina do grupo e, inquestionavelmente, a sua primeiríssima activista, consegue imprimir uma dinâmica de motivação e estímulo, às dezenas de jovens que integram o CJG, por forma a conseguir a proeza de montar sempre, espectáculos de uma qualidade artística, acima da média, considerando que se trata de produções de uma estrutura amadora, mas que consegue um equilíbrio muito interessante, entre o desempenho artístico e musical dos seus artistas e a capacidade de inovar, surpreende no o público, com formas de apresentar os seus espectáculos, construindo um discurso estético muito próprio e de agrado certo.

Entre os instrumentistas e os coralistas, contam-se muitos alunos do Conservatório de Música da Maia, facto que comprova a validade do trabalho que aquela instituição de ensino especializado na música, tem vindo a desenvolver no concelho da Maia, fornecendo a várias instituições artísticas maiatas, executantes que asseguram uma base consistente que permite, certamente, deitar mãos a obras e projectos de maior exigência e envergadura.

Seria óptimo que o exemplo do Coral Jovem de Gondim frutificasse e encontrasse seguidores noutras freguesias da Maia, para bem da nossa juventude e da vida cultural.

O presidente da Câmara Municipal da Maia, Bragança Fernandes, tem sido um espectador frequente e atento, tendo marcado presença em todos os concertos já realizados.

No passado domingo, esteve mesmo nos bastidores do grande auditório do Fórum da Maia, para cumprimentar Catarina Ferreira e deixar a todos os jovens do CJG, uma palavra de incentivo e motivação, expressando o seu apreço pelo trabalho realizado pelo coral.

Também Catarina Ferreira, teve palavras de grande simpatia, para com o edil, sublinhando o precioso apoio que a Câmara Municipal tem concedido ao CJG, através do Pelouro da Cultura.

Victor Dias

E neste fim-de-semana…

Hoje, 21h30, Dixie Boys. O sexteto é constituído por instrumentos característicos do género musical Dixie Land e promete proporcionar ao público, um espectáculo pleno de musicalidade, onde o ritmo, a melodia e o contraponto, nos remetem para uma linguagem musical, em que os timbres dos metais e das madeiras soam como vozes que trocam ideias, motivos e se divertem, num diálogo, sempre muito animado.

Amanhã, 21h30, André Sarbib e Amigos. André Sarbib vem ao Festival de Música da Maia, acompanhado por alguns instrumentistas especialmente convidados, destacando-se uma harpista, um trompetista, um saxofonista e, pouco habitual, um quarteto de cordas, para além do inevitável contrabaixista.

Domingo, 16h30, Doismileoito. A banda sensação do momento volta ao Festival de Música da sua cidade, numa altura em que estão a ganhar espaço nas principais estações de rádio e canais de televisão.

O Nicolau, o Pedro e o André, um antigo solista do Coral Infantil Municipal dos Pequenos Cantores da Maia, foram todos alunos da Escola Secundária da Maia e surgem agora a protagonizar um projecto musical pleno de energia criativa, excelentes arranjos e interpretações cuidadas de temas originais.