“Desgaste” e “cansaço” provocam afastamento de Abílio de Sousa de nova candidatura a Pedrouços

PRIMEIRA MÃO – Está a cumprir o seu quarto e último mandato. Decidiu não apresentar uma nova candidatura à Junta de Freguesia de Pedrouços. Porquê?

ABÍLIO DE SOUSA – Primeiro, por razões de algum desgaste que se vai sentindo nestas coisas e, portanto, a idade não perdoa e nós temos de saber sair a tempo para não andarmos a estorvar. De modo que achei que era oportuno, quem de direito, começar a pensar na entrada de gente mais jovem. Depois, por algum cansaço do modo como as coisas acontecem em termos financeiros e em termos de pessoal, há também alguma saturação. As coisas não correm como nós queremos. Às vezes pretendemos dar satisfação a solicitações de moradores, mas não temos pessoal. Desde o início deste mandato, temos vivido com quatro trabalhadores com baixa, e portanto, isto acarreta despesas, porque são as juntas de freguesia que suportam o encargo com os salários. É preciso alguma ginástica financeira, algum rigor no uso dos meios financeiros para que as coisas vão funcionando. Todas estas coisas, e algumas de ordem pessoal, acabam por cansar, e leva-nos a que haja esta decisão que às vezes não agrada, mas que tem de ser. Temos de saber sair no momento certo.

A falta de pessoal e as constantes baixas médicas foram, desde sempre, algumas das suas principais razões de queixa. São situações que impedem a junta de fazer algo mais pela freguesia?

Claro, porque se passar pela freguesia, verificará, como em todas, buracos nas ruas. Era suposto fazermos essas reparações com o nosso pessoal, como não temos somos obrigados a recorrer à câmara. A câmara tem empresas contratadas para fazer isso, mas nem sempre estão disponíveis. Portanto, criam-se aqui algumas situações de aborrecimento para os utentes das vias de comunicação da freguesia.

Foi há quase 16 anos que assumiu pela primeira vez as funções de presidente da Junta de Freguesia de Pedrouços. Olhando para trás e para os dias de hoje, o que é que mudou na freguesia?

O desenvolvimento é visível. Bastaria começarmos pelo edifício sede da junta para vermos que há uma diferença enorme entre o que utilizávamos e o que estamos a utilizar.

As obras de alargamento das ruas, a Avenida de Nossa Senhora da Natividade, as obras em cursos nos acessos à escola EB 2, 3, o alargamento da Rua António Castro Meireles, o prolongamento da Travessa Nova da Giesta, enfim, uma série de coisas que se realizaram. Falando em imóveis, a Casa do Alto, o Complexo Municipal de Cutamas, a Unidade de Saúde Familiar. São obras que foram feitas pela câmara, mas que estão na freguesia. Nós, temos apenas a função de insistir mais ou menos com a câmara para que as obras se realizem. Entre o que era há 16 anos e o que é agora, há uma diferença abismal. Com certeza que devíamos ter mais. Tínhamos muito gosto em ter uma Pavilhão Multiusos, como chegou a ser anunciado, mas parece que finalmente vamos ter um pavilhão, embora com umas dimensões mais reduzidas.

Ao longo destes 16 anos, passou por momentos mais felizes, outros menos felizes. Nos mais felizes, qual foi para si o momento mais importante?

Eu penso que em cada coisa que se vai fazendo, por muito pequena que seja, há sempre uma felicidade. Uma tristeza que eu tenho, é não conseguir ter meios financeiros para poder levar as crianças até à praia durante os 15 dias que costumávamos fazer todos os anos. Não temos possibilidades. Vamos fazer apenas com o OTL, cerca de cinquenta e tal crianças, mas terão de pagar o transporte. É uma das maiores tristezas que eu tenho. Fazer ou não fazer o passeio dos idosos, penso que hoje, tem havido alguma atenção para com as pessoas da terceira idade, por parte da câmara e outras instituições, e por isso, penso que não é um problema muito grave. Mas tenho muita pena em não poder levar as crianças à praia, porque se não forem algumas instituições a levá-las, se calhar algumas crianças não vão ver o mar tão cedo. De resto, se colocarmos os pratos na balança e vermos aquilo que é tristeza e o que não é, penso que o saldo é positivo.

Penso que um dos momentos mais felizes para si foi a inauguração da junta de freguesia?

Sim. Não pela razão do edifício ser muito bonito, muito funcional e com características excepcionais, mas porque eu entendia que a freguesia não tinha também um edifício com alguma qualidade para junta de freguesia. Acho que o aproveitamento que se fez, era necessário para o bom funcionamento dos serviços da junta, porque como sabe, o anterior edifício que era da antiga escola e comissão de moradores, não tinha condições. E é claro que sinto alguma vaidade em mostrar às pessoas que aparecem na junta, mas mais pelo lado funcional, porque precisávamos de ter um edifício em condições. E pelo que se tem lá feito, até nos vai servindo para conseguir alguns meios financeiros para ajudar nas despesas. Temos duas salas arrendadas, o que nos dá muito jeito. Sempre é algum dinheiro que entra mensalmente.

Deixa a presidência da junta de freguesia com o sentido de dever cumprido?

Deixo com certeza. Certamente, teria vontade de fazer muito mais. Mas tenho a consciência que cumpri aquilo que me foi possível. Em termos de gestão e até de obra realizada. Como sabe, os meios de uma junta são sempre escassos. Se não for a câmara a ajudar, nós não temos nenhuma capacidade financeira para fazer obras significativas, obras emblemáticas. Portanto, temos de pagar 10 por cento de todas as obras. Se tivéssemos de pagar 100 por cento, com certeza que muitas das obras não se faziam. Há pouco esqueci-me de referir a capela mortuária que já tínhamos construído há alguns anos; fizemos sempre o acompanhamento das reparações das escolas do 1º ciclo do ensino básico. Portanto, temos obras que nos deixam tranquilos, e aquilo que fizemos foi sempre com o máximo empenho e o máximo de rigor. Muita gente diz que fizemos pouco, mas não podemos ligar a isso. A consciência é que tem de estar tranquila, e é o caso da minha.

O seu sucessor terá ainda de continuar a pagar a parte da junta no que diz respeito aos encargos com a construção do edifício da junta?

Não. Não levar as crianças à praia, não fazer assinaturas de jornais, nem fazer comemorações de aniversários ou outras iniciativas, o corte nos subsídios às colectividades, foi com o intuito de chegarmos ao fim do mandato sem dívidas. E felizmente, é isso que acontece.

Portanto, o seu sucessor terá um trabalho mais facilitado, porque não terá esse encargo, pelo menos?

Não direi que o terá. Porque tínhamos algum terreno para vender para construção de jazigos, mas dadas as actuais dificuldades das famílias é coisa que não se vende, porque não é objecto de primeira necessidade. E provavelmente não irá ter a receita que estamos a ter no arrendamento das salas, porque os programas das Novas Oportunidades são limitados no tempo. As despesas continuarão a ser as mesmas, nomeadamente com o pessoal, que não tem disponível para trabalhar. Não auguro um desafogo financeiro muito elevado, porque a situação não está para isso.

Deixa a junta de freguesia. E a política também?

Provavelmente sim. Mas não me importo de continuar como deputado da Assembleia Municipal. Já foi conversa que tive com Luciano Gomes. Se ele quiser que eu faça parte, não tenho problema nenhum. Até para ver os amigos que fizemos ao longo deste tempo, e também alguns inimigos.

Operação passeios e secção da PSP ficam por concretizar

Vamos agora falar deste mandato. Foi um mandato em que conseguiu uma vitória esmagadora pela coligação PSD/CDS-PP, tendo conseguido reforçar o número de mandatos na Assembleia de Freguesia. Pouco tempo depois de ter tomado posse, tinha como prioridade colmatar algumas das carências da freguesia. Conseguiu?

Consegui, de algum modo. Uma das coisas que não consegui resolver foi a operação passeios. Houve a operação asfalto, de que beneficiamos, mas a operação passeios ficou sem se fazer. Tenho falado ao senhor presidente da câmara, dando a indicação do que era mais urgente fazer, mas até agora não apareceu nada feito. A junta não faz, pede, porque não temos meios humanos e financeiros. Os acessos à EB 2,3 de Pedrouços eram uma das nossas preocupações, porque as pessoas lamentavam-se, porque o único acesso era um carreiro, a Travessa Nova da Giesta. Melhor ou pior foi aberta uma rua que já dá satisfação ao acesso à escola, e está em curso uma grande modificação nos acessos à EB 2, 3. A câmara não pode fazer muito mais, porque os terrenos estão caros e os seus proprietários não cedem. Dados os problemas financeiros das câmaras não é fácil. Uma obra também muito significativa foi o alargamento da Rua António Castro Meireles que era absolutamente necessário. Já está bem à vista o que vai ficar desde o viaduto da auto-estrada até à Milaneza. Gostava de ter uma esquadra da polícia, mas não podemos intervir na distribuição das forças policiais. Era preciso que a segurança fosse mais intensificada, precisávamos de mais vigilância.

Chegou a dizer que o ideal seria a criação de uma secção da PSP de Águas Santas em Pedrouços?

Eu achava que sim, porque a esquadra de Águas Santas não pode responder a mais do que a freguesia de Águas Santas, que já é mais do que suficiente para ter aquela força de segurança. Se fosse criada uma outra esquadra na freguesia de Pedrouços que desse também cobertura à freguesia de Milheirós, acho que não era mau. Mas não é fácil conseguir isso. Precisávamos também de ampliar o cemitério por razões de dificuldades em tirar os corpos, porque não tem havido decomposição. Existe a possibilidade de fazermos um pequenino alargamento, de acordo com a câmara municipal que já tem um projecto para isso, mas era necessário pensar-se num cemitério novo. Se calhar ligado ao já existente, era uma questão de negociar o terreno para Norte. E o parque de estacionamento servia para os dois. Mas isso é um problema que a câmara terá de resolver, ou então, o meu sucessor.

Vai ser também uma realidade o pavilhão que vai ser construído junto à escola EB 2, 3 de Pedrouços, embora sem as dimensões que desejava?

Sim. O pavilhão que estava inicialmente previsto era muito oneroso. Custava cerca de cinco milhões de euros. Portanto, não era altura de se fazer isso, nem eu vejo que a freguesia tenha necessidade de uma coisa tão grande. Acho que um pavilhão com as dimensões que este vai ter, cerca de 45 m por 25m dá para as necessidades da freguesia e para a utilização das colectividades. Acho que vamos ficar bem servidos. Vai ser coberto e equipado com sanitários. A construção ainda não começou, mas tenho insistido com o senhor presidente para que se comece a fazer o pavilhão, porque todos beneficiaremos com isso.

Na área social a freguesia tem muitas carências?

Está em marcha na nossa freguesia o projecto dos GIP- Gabinetes de Integração Profissional, que está a ser implementado pela Santa Casa da Misericórdia da Maia, e eu julgo que vai dar resposta a muitas das carências. Temos também a funcionar o GAIL na freguesia de Pedrouços. Acho que temos boas condições para dar resposta nesta área. Com o GIP acho que vamos ficar ainda mais bem servidos. Sabemos que a Maia tem um nível de desemprego razoável, e portanto, isso vem aumentar as carências sociais da população. A câmara, o projecto Novos Laços, o Gail, os Adventistas, vão dando alguma resposta no fornecimento de alimentos, medicamentos, na ajuda a pagamento de rendas. Vamos fazendo aquilo que podemos. Em termos financeiros, a junta não pode dar muita ajuda. Nem sequer os cabazes de Natal podemos fazer.

Na área da habitação social ainda há muito a fazer?

Há. Nós temos 350 casas sociais. Mas há agora um segundo problema. Quando a câmara começou a construir o PER, deu resposta a 335 famílias, dando a possibilidade de optarem pela renda ou de comprarem. Muitas optaram por comprar, e agora, estão com o problema de não puderem pagar. E acabam por ter de abandonarem a casa, e depois, para onde vão? Acabam por criar um segundo problema.

Mas eram precisas mais habitações sociais?

Nós fizemos um levantamento, e tendo em conta as necessidades existentes eram precisas mais 200, 250 habitações.

E já há algum projecto previsto?

Não, até porque as câmaras têm estes projectos parados, porque não há acesso as verbas da União Europeia.

Agora, para terminar que conselho deixaria ao seu sucessor?

Deixo-lhe o conselho de que é preciso trabalhar muito, saber gerir com muito rigor, e munir-se de pessoas que o ajudem a trabalhar. E se calhar, tentar verificar bem se é normal e legal que trabalhadores estejam sucessivamente com baixa. Não tenho nada contra os trabalhadores, só tenho algumas dificuldades em ter os trabalhadores disponíveis. E ele também vai ter. Que tenha muita sorte, que faça um trabalho muito melhor que o meu para que a população se sinta feliz e lhe dê mais mandatos, se ele merecer.

Fernanda Alves