Entrevista a Artur Pizarro: “Toda a criatividade tem a sua dimensão espiritual”

No passado sábado, o Fórum da Maia inscreveu na história da vida cultural da Maia uma autêntica página de ouro, com o concerto de Artur Pizarro e a Orquestra Gulbenkian.

Artur Pizarro interpretou ao piano e dirigiu a orquestra, nos quatro concertos de Bach, em Lá BWB 1055, em Ré BWB 1054, em Fá menor BWB 1055 e em Ré menor BWB 1052 e ainda um concerto de F. X. Dusek, em Dó e outro concerto de J. A. Benda, em Sol menor, com uma classe e uma autoridade artística magistral.

A precisão de um relógio suíço nos trilhos e noutros ornamentos, a claridade e cristalina transparência do seu fraseado demonstrou a sua poderosa sonoridade, enfim, um concerto sublime, por um pianista de outra galáxia artística.

O prazer de ver e ouvir músicos deste gabarito é indescritível, ficando muito difícil de encontrar vocabulário que exprima os nossos sentimentos, sem correr o risco de uma adjectivação hiperbólica.

O pianista tinha a acompanhá-lo uma verdadeira constelação de estrelas, ou seja, tinha ali ao seu lado, a nata dos melhores artistas da Orquestra Gulbenkian que, obviamente, estiveram ao seu melhor nível, proporcionando ao público momentos de enorme riqueza artística e musical.

Sequeira Costa, o espectador surpresa

Sequeira Costa, o grande Mestre de muitos dos mais famosos pianistas portugueses e estrangeiros e, igualmente professor de Artur Pizarro, encontrava-se entre o público, acompanhado da sua família, contribuindo também desse modo para tornar aquela noite num acontecimento muito especial.

Para além de Sequeira Costa, uma legenda viva do panorama pianístico mundial, também o Maestro Manuel Ivo Cruz se encontrava entre o público.

Entrevista

“Toda a criatividade tem a sua dimensão espiritual”

Registando para a posteridade, a passagem pela Maia de um pianista do mais alto gabarito internacional, Primeira Mão, entrevistou em exclusivo, Artur Pizarro.

Primeira Mão – Eurico Thomaz de Lima diz-lhe alguma coisa?

Artur Pizarro– Claro que sim!… Sou, felizmente, dedicatário de uma obra do Mestre. Uma obra para dois pianos que é a Dança do Pica-pau, uma das muitas obras que Eurico Thomaz de Lima escreveu para dois pianos e para quatro mãos, sobretudo para crianças e para jovens. A sua obra didáctica é bastante importante e muito grande.

A Dança do Pica-pau foi exactamente a primeira obra com que eu me apresentei em público, em 1971, a dois pianos, com o Professor Campos Coelho, no palco do Salão Nobre do Conservatório Nacional de Música de Lisboa.

Tanto quanto pude apurar, a sua avó, a Professora de piano Berta da Nóbrega, terá chamado o Prof. Campos Coelho, com quem ela tinha um duo a dois pianos, para ouvir o neto e este de tão encantado que ficou, apresentou-o a Thomaz de Lima, foi desta forma?

Sim, a grande amizade entre Campos Coelho e Thomaz de Lima, professores e compositores que se conheciam de longa data, até porque ambos tinham sido discípulos de Vianna da Motta. Essa época foi muito rica em Portugal, quer ao nível da composição, como do ponto de vista pianístico. Mas recordo com imenso prazer, a minha estreia, como pianista de 3 anos, com uma obra de Eurico Thomaz de Lima que, ao que sei, a Maia está a comemorar, por ocasião do centenário do seu nascimento.

Como se tem sentido na Maia?

A Maia é uma cidade jardim, tal como está referido em algumas partituras de Eurico Thomaz de Lima que eu tenho e noutras que fizeram a surpresa de colocar no meu quarto de hotel, num gesto muito simpático de cortesia e boas vindas.

Acho que o Mestre tinha razão em escrever nas suas obras, Maia cidade jardim, porque de facto tenho notado que há jardins espalhados por toda a Maia.

Averba no seu currículo interpretações de imensas obras, algumas delas monumentais, das maiores escolas e tradições pianísticas. Como é que um pianista do século XXI aborda as obras que vão ser interpretadas neste seu concerto de estreia na Maia, em especial Bach?

Com muito respeito!… E com muito amor, carinho e curiosidade e também com acesso a muita informação. Graças a Deus, houve muitas pessoas que deixaram livros, vídeos, gravações ou até tratados que plasmam um trabalho muito sério e uma pesquisa profunda. E o acesso a toda essa pesquisa é valiosíssimo. Para mim é como explorar um tesouro, constituído por informação que foi objecto de estudo de todas essas pessoas que ao longo de décadas e séculos até, desenvolveram um trabalho muito rico para que hoje tivéssemos um conhecimento mais profundo do compositor e da sua obra.

Bach, o que significa para si?

Não é o primeiro, mas talvez o mais importante ‘Big Bang’, daquilo que nós hoje designamos por Música Clássica ou Música Erudita. Assim podemos dizer que houve um antes, um durante e mais do que um depois, um tempo com Bach. A sua importância fez-se sentir em toda a Música que se criou a seguir, inclusive com repercussões especialmente activas no século XXI.

Percebo pelo seu discurso que o Artur Pizarro é um homem de Fé!?…

Sou crente em Deus.

Encontra na Música uma dimensão espiritual?

Completamente!… É uma forma de expressão, de mostrarmos quem somos, de tentarmos encontrar o nosso lugar no Universo, de comunicarmos com os nossos entes próximos ou longínquos, enfim de definirmos o nosso carácter.

Sim, absolutamente, toda a criatividade tem a sua dimensão espiritual.

O Artur Pizarro é um artista mais cerebral ou mais espiritual?

Se possível as duas coisas e em partes iguais. Diria que de um desses meus lados tenho um certo domínio e do outro o alimento. São indissociáveis, logo não consigo separar nenhuma dessas dimensões.

A docência continua a realizá-lo ou prefere a carreira concertística?

Em Londres fui professor durante quatro anos, mas não pude continuar porque tenho, de facto, uma carreira de concertista muito preenchida.

Mas continuo a dar Master Classes, um pouco por todo o Mundo, seja nos Estados Unidos, em Hong Kong, Japão, China e na Europa. É uma vertente da minha carreira que me alicia imenso e eu gosto de manter esse contacto com gente jovem, ainda a formar as suas ideias e a procurar o seu espaço no meio musical.

Mas de momento, aquilo que me preenche totalmente é dar concertos.

Entrevista de Victor Dias

Foto de: Ruben Mália

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