Opinião Victor Dias: “Educação – para onde vamos…”

Numa altura em que os partidos estão muito entretidos com a formulação de listas, para os vários processos eleitorais que se avizinham, há questões de fundo que preocupam os pais, educadores e professores, no que respeita ao rumo da Educação em Portugal.

O contributo da cidadania, independente do cromatismo partidário, é sistematicamente desvalorizado e, não raras vezes, até ignorado. Tontice e irresponsabilidade dos partidos que deviam encarar isso como uma riqueza das sociedades modernas e não como um empecilho ou obstáculo à sua acção política, tantas vezes estrangulada por lógicas aparelhísticas redutoras e distantes da realidade.

Em matéria de educação vamos de mal a pior e, lamentavelmente, parece que poucos políticos, excepção para o Presidente Cavaco Silva, têm plena consciência de que o futuro está sentado nos bancos da escola.

Tudo o que se passa em Portugal neste domínio é, no mínimo, estranho, começando logo pela forma como os professores são recrutados e colocados nas escolas. Às vezes temos a impressão que a principal estratégia é animar a economia do país e pôr os professores a dar o seu contributo, fazendo-os andar de terra em terra, alugando quartos ou casas, fazendo viagens regulares, para poderem passar o fim-de-semana com as suas famílias, correndo os inerentes riscos sociais.

A instabilidade destes profissionais, quer no plano concreto do exercício da sua missão de ensinar, como no plano da sua vida pessoal, não lhes pode permitir um desempenho muito satisfatório. Pelo menos agora os contratos de trabalho com os novos professores são de quatro anos, enfim, já é alguma coisa.

Os políticos têm vindo a terreiro, quando dá jeito, aflorar a possibilidade de estabelecer pactos de regime, para isto ou para aquilo, mas que eu me recorde, nunca apareceu uma proposta credível e suficientemente mobilizadora, para que fosse selado um pacto para a educação, afinal, o único sector da nossa sociedade que tem nas mãos a capacidade de mudar o nosso fado. Um fado que nos últimos anos tem sido triste, cinzento e falhento de esperança.

Carecemos com urgência de um pacto de regime que sossegue as escolas, reponha a ordem e resolva os velhos problemas de excesso de burocracia, de falta de autonomia pedagógica e de gestão das escolas, ponha fim aos atrasos crónicos, acabe definitivamente com a desumanização, uma desumanização que começa na concepção e construção das escolas, com plantas passadas a papel químico, iguais em todo lado, numa ignorância confrangedora das particularidades e vivências culturais que constituem adversidade da nossa riqueza regional, diferente nas suas características geográficas e até climatéricas. Escolas onde a população é, muito naturalmente, constituída por crianças e jovens, facto que, como é óbvio, torna inevitável a produção de níveis elevados de massas sonoras que, se não forem convenientemente acauteladas na construção dos edifícios, podem ser muito nocivas para a saúde auditiva dos alunos, com consequências negativas no seu desempenho escolar.

A construção dos edifícios escolares devia ser pensada, projectada e executada pelo poder local, numa parceria marcada por um espírito de sã cooperação, entre as autarquias e as comunidades educativas, onde a opinião dos professores e dos encarregados de educação fosse, efectivamente, escutada e considerada.

Os leitores certamente já pensaram, como eu, que desde o 25 de Abril de 1974, já foram tentadas tantas reformas e experiências que é legítimo concluir uma de duas coisas: ou andaram a fazer de todos nós cobaias para um qualquer ensaio sociológico; ou cada ministro que assumiu a pasta da educação quis deixar a sua marca pessoal de poder, na esperança de ficar para os anais da história.

Infelizmente qualquer que tenha sido a intenção, nenhum dos intentos se realizou, nem se conhece nenhum ensaio conclusivo sobre a errante governação da educação em Portugal, nem nenhum ministro ficou para a história como um grande ministro, talvez se possa abrir uma pequena excepção para Roberto Carneiro e David Justino.

O Estilo Socratino Chegou À Escola

Para tentar arrebanhar o apoio popular, o melhor estilo populista deste governo elegeu como bode expiatório a figura do professor, quiçá no intuito de desviar as atenções dos pais e encarregados de educação e da sociedade, procurando desfocá-la das reais responsabilidades do mau funcionamento da educação. Esta táctica não foi usada em exclusividade para os professores, também foi aplicada aos médicos, aos juízes, aos funcionários públicos e a outras classes profissionais, sobre quem se quis fazer recair culpas de um cartório que, afinal, tem outro notário, com todo o respeito pelos notários, José Sócrates.

Tanto quanto me informaram, o sistema de avaliação dos professores, com toda a sua enorme carga burocrática, com os seus diversos factores indutores de desconforto e desconfiança entre colegas, é muito mais uma forma de afirmar poder, do que avaliar efectivamente o desempenho, metodologia que também foi levada a outros sectores. Assim não vamos lá!…

Ainda gostaria que alguém, talvez os sindicatos, fizesse uma indagação sobre a filiação partidária dos actuais dirigentes das escolas e agrupamentos, em todo o país. Estou convencido que isso explicaria muita coisa.

A estatística comanda a vida – nas escolas….

A vida escolar é hoje totalmente dominada pela ciência estatística, por cento para lá, mais por cento para cá, enquanto os alunos vão passando, para espanto de todo o país e gargalhada geral no estrangeiro, com nove negativas, não são duas ou três, mas a todas e com a seráfica explicação de que o supremo interesse do aluno a isso obrigava. E à estatística não?

É certo que há governantes a quem falta legitimidade moral para questionar uma passagem de ano lectivo na secretaria, mas convinhámos que este é um péssimo sinal à navegação, apontando o caminho da irresponsabilidade, primeiro dos encarregados de educação, indicando a rota do facilitismo, da preguiça, do tédio, do desinteresse pelo trabalho escolar e de casa.

Retenho uma réstia de esperança que como proposta concreta para a próxima legislatura, apareça a celebração de um autêntico pacto de regime para a educação que lhe devolva a credibilidade, repondo a ordem e disciplina nas escolas, devolva a dignidade e respeito que os docentes merecem e têm direito e defina com toda a clareza, objectivos sérios, sem falhanços, sem obediência cega à ditadura da estatística a qualquer preço e sem novos oportunismos ou embustes que só comprometem o nosso futuro colectivo.

É minha firme convicção de que muitos dos meus concidadãos hão-de partilhar desta minha forma de pensar a educação.

Mais do que atender aos nomes dos candidatos e das listas, estejamos atentos aos programas e propostas concretas para o futuro dos nossos filhos e netos, é o mínimo que podemos esperar de uma classe política cuja imagem está tão depauperada.