“Receber a medalha é uma sensação inexplicável”

Inês Rodrigues conseguiu um feito ainda inédito no karaté português. Alcançou no mesmo ano duas medalhas de bronze. A primeira foi em Paris, no Campeonato da Europa. A segunda foi no passado fim-de-semana, no Campeonato do Mundo, realizado na cidade marroquina de Rabat. Em entrevista, a karateca maiata e o seu treinador no Clube de Karaté da Maia, Nuno Moreira, também atleta internacional português, falaram das últimas conquistas e dos projectos para o futuro.

 

Primeira Mão – Sei que te iniciaste no karaté porque eras maria-rapaz. Porque te puxou para o karaté mais do que para outra modalidade?

Inês Rodrigues – Na altura havia o futebol e o karaté, que eram as modalidades típicas masculinas. Eu andava sempre em discussões com os meus primos e eles decidiram entrar para o karaté. Então eu pensei, se não entro também isto vai correr mal. Para não ficar atrás deles, e como gostava, decidi entrar e foi a melhor coisa que eu fiz.

Há quanto tempo praticas?

IR – Eu pratico desde os quatro anos, tenho 17, por isso já lá vão uns aninhos. Tive um ano parada por causa da natação, mas depois retomei e já foi em competição, já lá vão quatro anos.

És dupla medalhada, no europeu e no mundial. Qual é a sensação?

IR – Receber a medalha é uma sensação inexplicável. Ainda por cima receber uma em Paris no Europeu, e depois no meu primeiro Mundial voltar a receber a medalha de bronze, é um orgulho enorme e foi espectacular. É um mistura de trabalho, sorte e apoio. É mesmo preciso muita sorte porque o nível é muito alto e já não são só atletas europeus. E também uma forma de aprendizagem.

Nuno, qual é o sentimento de teres atletas treinadas por ti a ganhar medalhas?

Nuno Moreira – É uma enorme alegria. Já quando saiu a convocatória da selecção e vimos lá atletas do Clube de Karaté da Maia foi um enorme orgulho.

O karaté está-te no sangue?

NM – Desde os cinco anos, portanto há 19. Já é de família. O meu pai fazia karaté, a minha irmã começou a praticar e eu fui por arrasto. E faço competição desde os 15, por isso sei qual é o sentimento deles nestes momentos.

Que diferenças vês de quando começaste a praticar karaté de competição para hoje em dia?

NM – Antes não era fácil. As condições não eram as melhores. Penso até que os seniores padecem de uma falta de organização que havia no passado. Mas as coisas estão a reestruturar-se e isso é bom. Quando comecei cheguei a dormir em aeroportos. A organização não tinha nada a ver como que é hoje em dia.

Estas convocatórias e medalhas também são boas para o Clube de Karaté da Maia?

NM – São óptimas. Neste momento o CKM é o melhor clube português de karaté. Somos os únicos a ter quatro atletas em trabalhos de selecção a competir em eventos internacionais, temos quatro atletas de alta competição e inúmeros campeões nacionais. É algo brilhante e o clube orgulha-se deste trabalho.

Um trabalho personificado na Inês.

NM – Exactamente. É a primeira mulher medalhada num Campeonato da Europa, agora conquistar no mesmo ano uma medalha no Campeonato do Mundo. Conseguir uma medalha numa prova destas é difícil, duas no mesmo ano é extremamente difícil.

Como te sentiste sendo a única mulher no pódio?

IR – A melhor sensação é subir àquele pódio, ver a bandeira a subir e ter toda a gente a olhar para nós. Claro que não me preencheu completamente porque o objectivo é ser campeã do mundo, mas ganhar a medalha também é bom.

Qual é o próximo objectivo para a Inês no karaté?

IR – Continuar a treinar aqui no CKM, e nos trabalhos da selecção. Nos Campeonatos do Mundo e da Europa tirar o máximo possível. O sonho é ser campeã, meu e de todos os meus colegas de treino.

E para o Nuno?

NM – Ser Campeão da Europa e do Mundo é sempre o objectivo, mas a categoria sénior é sempre muito exigente porque os atletas no estrangeiro quando chegam a seniores passam a profissionais, enquanto em Portugal isso não acontece e as condições não são obviamente as mesmas. Mas eu estou motivado para ganhar medalhas, até por vê-los a eles. Agora não só sou eu que puxo por eles mas também eles que puxam por mim.

Ao contrário de muitos desportos de combate, o karaté não é modalidade olímpica. O que falta?

NM – Sinceramente, não sei. Na minha opinião, penso que é por não envolver tanto dinheiro como outros desportos. A justificação que nos deram foi que era uma modalidade que enchia um pavilhão, mas não um estádio. Eu continuo a não perceber o porquê de não sermos modalidade olímpica, mas esperemos que em 2020 isso já seja possível.

As pessoas fazem por vezes um pouco de confusão. Os campeões não precisam de ser cinturão preto?

NM – É verdade. A Inês é exemplo disso. Ela é cinturão castanho, depois enveredou mais pela competição, e teve que dar maior prioridade a essa componente desportiva. Um dia, quando a competição acabar para ela, porque não dura sempre, pode voltar à vertente mais tradicional e fazer os exames de graduações.

Que conselhos deixam a quem está a começar e quer chegar ao vosso nível?

IR – Eu queria primeiro desfazer a ideia que o karaté é uma modalidade masculina. Não há distinção entre homem e mulher. Depois, é preciso gostar-se muito, dedicar-se, treinar e apreender os valores que nos são transmitidos como o respeito ou o companheirismo. E, claro, ter exemplos como o meu treinador que nos apoia imenso.

NM – O karaté é uma modalidade muito nobre, em que se trabalha várias componentes do corpo. É também para todas as idades e aconselho vivamente a prática.

Quem são o Nuno e a Inês fora do karaté?

IR – Eu estou no 11º ano de Artes e gostava de seguir para a Faculdade de Belas Artes, mas sem deixar o karaté. Gosto muito de estar com família e amigos.

NM – Sou muito brincalhão. Gosto de estar como os amigos, família, os meus alunos, namorada, e brincar como o meu filho.

André Cordeiro

CAIXA

Perfil

Inês Rodrigues

17 Anos

Reside em Águas Santas

Estudante, 11º anos

3ª no Campeonato da Europa

3º no Campeonato do Mundo