“A Enigma, se sair deste sítio, morre”

Parece realmente um enigma o futuro da Associação de Solidariedade Social com o mesmo nome. Pelo menos para António Moreira da Silva, pai de uma criança de 13 anos que já frequentou a Enigma, instituição que funciona na antiga estação de caminhos-de-ferro da Maia, exactamente na Rua da Estação, e de que também é “sócio de longa data”. Recentemente, quando tentou voltar a inscrever o André, já para o ano lectivo 2010/2011, ficou preocupado. Ao ponto de enviar uma carta aberta ao presidente da Câmara Municipal da Maia, faz hoje uma semana. E ainda sem resposta.

Olhando às necessidades educativas especiais, aos “problemas de aprendizagem” e às alterações do espectro autista, o André já frequentou o ATL da Enigma, onde recebeu apoio pedagógico e ocupacional “que tem sido uma grande mais-valia no apuramento das suas capacidades académicas e do estímulo à sua autonomia e perspectiva de vida futura”, lê-se no documento também enviado a PRIMEIRA MÃO. Apesar de não estar a frequentar a instituição no corrente ano lectivo, “queremos inscreve-lo de novo, porque não encontramos soluções para ele”, adianta o pai, residente em Milheirós.

Tentou fazê-lo, mas sem sucesso. Ao rejeitarem a inscrição do André na Enigma, argumentaram que essas inscrições estavam “suspensas e que não sabiam se iam abrir”. Inconformado, António Moreira da Silva quis saber porque não. “Após muita insistência”, sublinha na carta aberta ao edil maiato, “consegui que me adiantassem que essa suspensão estava relacionada com a possibilidade de a Câmara Municipal da Maia lhes vir a retirar o apoio e os obrigassem a sair das instalações da estação, o que a vir a acontecer, seria o fim da instituição tal como ela hoje existe”. Contactado por PRIMEIRA MÃO, acrescentou que já no último ano lectivo a autarquia terá tentado “que eles saíssem da estação”.

Dos responsáveis pela associação, António Moreira da Silva ficou também a saber que a posição da Câmara da Maia está relacionada com o projecto que tem para o local. Passará, segundo o cidadão de Milheirós, pela criação de uma ciclovia na antiga linha e de um bar de apoio, exactamente no espaço onde tem funcionado a Enigma. Movido pela “indignação”, lê-se na carta aberta dirigida a Bragança Fernandes, o pai do André questiona “o que pode um bar, ainda que de apoio a uma ciclovia, trazer à comunidade que seja mais importante que uma das mais diligentes instituições de solidariedade social do nosso concelho?”. “Acho que muito mal andam as coisas quando se trocam actos de solidariedade social por bebidas…carinhos por copos…educação por borracheiras!”, acrescenta.

Face a esta hipótese, “nem eles sabem o futuro, nem nós sabemos onde havemos de pôr os filhos”, lamenta, porque “sempre olhamos para a Enigma como uma solução”. Até porque “não existe” no concelho qualquer outra instituição que possa garantir o mesmo tipo de apoio e de acompanhamento:

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Acreditando que a situação “ainda poderá ser revertida”, António Moreira da Silva pede na carta enviada a Bragança Fernandes que seja “reposta a justiça para com uma entidade que muito fez pelas crianças da Maia e que muito conforto dá a famílias em dificuldades”. O mesmo apelo faz o presidente da direcção da Enigma. Referindo-se ao trabalho de integração das crianças, “reconhecido por toda a gente”, Manuel Veloso sublinha que “deve ser das únicas associações de pais na Maia que fazem a integração das crianças autistas, mongolóides e todas as outras”. Por isso, “a Enigma, se sair deste sítio, morre”, avisa o presidente da direcção:

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O responsável pela associação de solidariedade social confirma que “não está a aceitar novas inscrições”, por estarem ainda a decorrer as negociações com a Câmara Municipal da Maia e com a Junta de Freguesia da Maia. Começaram em Agosto do ano passado, “quando fomos surpreendidos com uma reunião na Câmara da Maia, em que queriam construir a ciclovia na antiga linha”.

ATL “deturpado”

Acontece que as instalações onde funciona a Enigma são da junta de freguesia, que “as queria ceder à câmara municipal, no sentido de eles dinamizarem o espaço”, conta Manuel Veloso, recordando o acordo existente entre estas duas entidades e a associação de solidariedade social para a cedência das instalações, ainda que por tempo indeterminado.

Por falar em acordo, o presidente da Junta de Freguesia da Maia alega que foi a Enigma que não cumpriu o acordado. Carlos Teixeira refere-se ao compromisso assumido pela IPSS, quando ocupou o espaço da antiga estação, no sentido de servir com o ATL as crianças da freguesia da Maia. E “só se admitiria outro aluno qualquer se houvesse vagas que não fosse preenchidas pelos meninos da Maia”, acrescenta. O que se veio a verificar, conta o autarca da freguesia, é que foram admitidas crianças de qualquer freguesia mediante o pagamento de uma mensalidade, sem qualquer mais-valia para os residentes na Maia.

Confessando-se “muito triste com isso”, Carlos Teixeira conclui que o referido ATL “foi completamente adulterado”. Inclusive porque cresceu através da colocação de uns contentores – pela Câmara da Maia – que “não se enquadram na beleza do edifício da Refer”. E porque o espaço “não tinha condições para acolher tantos meninos”, adianta o presidente da junta da Maia que “a Enigma comprometeu-se a deixar vagas as instalações, até ao final do ano”.

Em relação ao edifício onde funciona actualmente a Enigma, a intenção do executivo da junta é entregar o edifício, por não concordar com o projecto para o local, que deverá abarcar uma parte do recreio e de um patamar que prolonga o edifício. Nesse sentido, e segundo Carlos Teixeira, a Refer estará já a analisar a entrega da responsabilidade pelo edifício à Câmara Municipal da Maia, que deverá “fazer daquele edifício um apoio de qualidade para a ciclovia”. Quanto às crianças que frequentam este ATL, o autarca admite que encontrarão resposta às suas necessidades no centro escolar que está em construção na zona. Tal como prevê o presidente da Câmara da Maia, Bragança Fernandes, mas garantindo “que ninguém vai tirar de lá a Enigma e que este ano vão continuar lá”, por não avançar de imediato o projecto da ciclovia.

De qualquer forma, Carlos Teixeira defende que a Enigma “não pode nem deve acabar”. O futuro, entende, deverá passar por procurar uma sede onde possa continuar a “proteger os mais desfavorecidos” e a dar apoio às crianças autistas. Bragança Fernandes diz-se também atento a este contributo da associação de solidariedade social e disponível para “ajudar” a direcção.

Marta Costa