As "novas" rotinas dos pequenos

Magalhães. Jogos de vídeo. Televisão. Muita televisão. Os novos hábitos dos mais pequenos estão a preocupar pais e professores. Um estudo, revelado pela DECO no mês passado, considera elevado o tempo que as crianças passam em frente à televisão. Segundo a coordenadora do estudo, Ana Brandão Matos, a preocupação é cada vez maior. A responsável da DECO avançou, à comunicação social, que "mais de metade vê televisão todos os dias e, no caso dos jardins de infância, a rotina é diária para 43 por cento". Ainda mais grave se torna o problema quando, de acordo com a responsável, existem "pais que desconhecem o tempo que os seus filhos passam em frente ao ecrã nestas instituições".

Perante este cenário de desconhecimento, a "culpa" recai nos educadores. Há actividades organizadas pelos responsáveis das creches, mas não são suficientes. Ana Brandão Matos entende que "quando o educador sai devem existir essas actividades mesmo que feitas por outras pessoas ou outro tipo de actividades, até brincadeira livre, não tem é de ser sempre televisão", alertando para o cenário pouco animador que se verifica nas creches e jardins-de-infância nacionais.

No estudo revelado pela DECO, chega-se à conclusão que quase um terço das crianças portuguesas passa mais de nove horas por dia nas creches. Uns alarmantes 90 por cento. É esta a percentagem de crianças entre os três e os cinco anos que ocupam grande parte do tempo com os olhos pregados na televisão. Ainda para mais com o advento dos canais por cabo, a oferta de canais infantis aumentou de maneira considerável. Há cerca de uma década, o Cartoon Network fazia as delícias dos mais pequenos. Mas não estava orientado às crianças do pré-escolar. Hoje, Baby TV, JimJam e até um canal de alta definição, o Bebé TV HD, têm programação orientada para os mais novos, com programação dirigida a crianças até aos 5 anos. Até podem ter uma vertente educativa, mas responsáveis pedagógicos continuam a considerar que esta não é a maneira mais correcta para os mais novos ocuparem o tempo. Mesmo assim, os canais continuam a surgir. Pelo menos mais dois canais infantis foram aprovados, no final do ano passado, pela Entidade Reguladora da Comunicação aprovou mais dois canais infantis. Biggs e Sic K são os nomes dos novos canais para os mais pequenos e vão partilhar a grelha das operadoras de cabo com os muitos já existentes. Oferta, pelos vistos, não falta aos mais novos que querem passar horas e horas em frente ao pequeno ecrã. Ou que não querem mas, como foi revelado no estudo da DECO, se verifica falta de alternativas para a ocupação dos tempos "mortos" das crianças.

O estudo revela ainda que 73 por cento das crianças com idade até aos três anos vêem televisão. Mais de metade pregam os olhos ao pequeno ecrã todos os dias. A DECO fez este estudo em paralelo com congéneres da Bélgica, Itália e Espanha. E foi Portugal que liderou o número de horas à frente da televisão nas creches. Alarmante é também o nível de satisfação com a rede de creches e jardins-de-infância. O Algarve é a zona do país com piores resultados, enquanto que a zona Centro aparece como aquela em que os utentes registam maior satisfação com os equipamentos. O inquérito foi feito a pais de crianças entre um e cinco anos. Mostra também que para a maioria dos progenitores o horário dos estabelecimentos é satisfatório, embora um em cada cinco expressem o desejo de ver as creches e jardins-de-infância com as portas abertas até mais tarde. E mesmo com 32 por cento das crianças a passarem mais de nove horas nas creches, há 27 por cento de pais com filhos em creches e 10 por cento em jardins-de-infância a confessar que gostariam que as instituições abrissem portas ao sábado.