Opinião Victor Dias: Festas do concelho sob a égide da moralidade…

Os tempos que estamos a atravessar são difíceis, porventura, mais para uns do que para outros. Na verdade há muitas famílias a viver no limiar da pobreza e muitas outras, digo muitas porque ainda que fossem só duas já eram muitas, a viver abaixo desse limiar, ou seja, sem o mínimo necessário a uma vida condigna.
Esta realidade que nos entra pela casa dentro, por diversas formas, de tão vulgar que se tornou, pode por vezes ser encarada por nós, como acto de ficção mediática que nos bombardeia o quotidiano, tornando-nos quase indiferentes.

No entanto, quando vemos com os nossos próprios olhos e conhecemos pessoalmente casos de pessoas e famílias inteiras que até há bem pouco tempo viviam remediadamente e, de um momento para o outro, perderam o emprego e deixam de ter condições para sustentar esse remedeio, por mais apoios e ajudas que tenham, os nossos olhos passam a enxergar a realidade e tomámos consciência que a coisa é mesmo séria e, como dizem as crianças, está feia.

É por tudo isto que compreendo e concordo plenamente com as directrizes da Câmara Municipal da Maia, no sentido de que as Festas do Concelho em Honra de Nossa Senhora do Bom Despacho se realizem com dignidade, mas dando um sinal muito claro à comunidade, de que os recursos públicos, actualmente muito escassos, têm que ser aplicados com parcimónia e geridos com muito rigor.
Felicito a comissão de Festas por ter compreendido e subscrito esta mensagem da autarquia, arcando com a complexa responsabilidade de realizar as festividades, religiosas e populares, com um profundo respeito por quem, nesta altura, experimenta graves carências materiais de toda a ordem, não raras vezes até alimentares.

Tendo as festas uma matriz de cunho profundamente religioso, em que a devoção a Nossa Senhora do Bom Despacho é a essência da tradição, abraçar o desafio de com pouco fazer muito, é a meu ver, sem sombra de dúvida, uma questão de moralidade que une neste mesmo propósito, a Comissão de Festas da Paróquia da Maia e a Câmara Municipal da Maia.
Sendo partidário de uma solidariedade institucional exercida com responsabilidade, continuo no entanto a defender o importantíssimo papel que a Romaria de Nossa Senhora do Bom Despacho desempenha na conformação da nossa identidade comunitária, quer na sua dimensão simbólica religiosa, como no que respeita às suas profundas marcas culturais, quiçá, as mais relevantes e que melhor alicerçaram a nossa identidade local e regional.

Não deixo também de acreditar que os momentos de pura fruição cultural e de entretenimento que as festas proporcionam à população, têm uma função social de enorme valor, seja ao nível da convivialidade pública, seja no que se refere à sua acção facilitadora de um ambiente mental positivo que nos ajude a esquecer, por uns instantes que seja, as agruras do quotidiano.
Quem trabalha, quem se empenha nos afazeres do dia a dia, merece ter momentos de evasão, divertimento e encontro social, diria até que isso é um direito.
Se tudo isto for feito, como tem sido até aqui, a pensar nas pessoas e no seu bem estar, a pensar igualmente na responsabilidade que todos nós, maiatos, temos de preservar uma tradição secular, todos sairemos confiantes e manteremos intacta a nossa esperança em dias melhores e o regresso a festas mais grandiosas, na certeza de que as dificuldades de hoje são passageiras.