Opinião Victor Dias: Generalizações perigosas

Todos nós ouvimos, aqui ou ali, cidadãos cumpridores da Lei, que trabalham e se sacrificam, que pagam os seus impostos, que se comportam com civismo e educação, enfim, que procuram ser exemplares na sua conduta de cidadania, a queixar-se da injustiça da cultura da subsídio-dependência que se instalou no país.
Em muitos dos casos concretos que se conhecem, aplica-se justamente essa ideia de que o Estado contribui para promover o facilitismo, o oportunismo, a preguiça, o desleixo, enfim, a injustiça social perante os outros cidadãos que lutam por uma vida melhor, por dar uma boa educação aos filhos, pelo bem estar das suas famílias, pelo bem comum e por uma participação na vida das suas comunidades, proactiva e socialmente responsável.

No entanto, não é justo que se meta indiscriminadamente todos os casos no mesmo saco, correndo o risco de cometer o erro das generalizações cegas, que não permitem ter a lucidez de separar o trigo do joio.
Há pessoas e famílias inteiras que enfrentam situações extremamente difíceis, que caíram numa pobreza inenarrável e que são até incapazes de procurar, pelo seu próprio pé, a ajuda social a que têm direito efectivamente, tal é o estado de letargia psíquica em que se encontram.

Recentemente tomei contacto com uma situação dramática, em que uma mulher, mergulhada subitamente numa situação de miséria, sofreu um rude golpe com a perda do marido que desistiu de viver, precisamente por não ter sido capaz, pelos seus próprios meios, de se erguer de uma depressão em estado terminal.
Esta senhora que até há algum tempo atrás desfrutava de uma vida remediadamente estável, encontra-se agora a braços com uma espécie de beco sem saída e a padecer de um quadro de doença mental, em tudo semelhante à do seu marido, correndo um risco concreto de vida. Sim, digo correndo risco de vida, porque como todos sabemos, a depressão profunda é tão grave como outras doenças que se não forem detectadas e tratadas adequada e atempadamente, podem igualmente levar à morte.

Burocracia e dignidade

Acompanhei um Padre meu amigo e duas pessoas da Conferência de S. Vicente Paulo de Gueifães, a um certo serviço social, no sentido de procurar ajudar a desbloquear alguma assistência social para a senhora e esbarrei com uma abordagem funcionalista e burocratizada que até um certo ponto, aceito e procuro compreender, mas também verifiquei que está acontecer uma mudança de paradigma na assistência social aos mais carenciados, fazendo-os pagar injustamente uma crise que não criaram de todo.
Temos de ser cuidadosos e justos na avaliação e nos juízos que emitimos, tendo a obrigação de falar apenas daquilo que conhecemos em concreto, sob pena de nos tornarmos populistas e incendiários sociais, quando na verdade, a nossa obrigação ética e moral é que sejamos bombeiros voluntários, para estar de prevenção e sempre disponíveis a socorrer quem se encontra em apuros e em situação de emergência social.

Ainda a respeito dessa senhora e de outras pessoas que como ela, se encontram mergulhadas numa depressão tão paralisante, dei comigo a meditar durante vários dias e a questionar-me se é moralmente lícito exigir-lhe que cumpra um emaranhado de formalidades e preencha os formulários obrigatórios, preste as declarações necessárias e se apresente perante os respectivos serviços. Tudo isso tem certamente uma razão válida para existir e ser cumprido e quem sou eu para por em causa essa burocracia, mas na verdade não me sai da cabeça que o marido dessa senhora, morreu de depressão, escolhendo uma das formas mais trágicas de o fazer, facto que traumatizou ainda mais a pobre mulher.

A conversa mole, a burocracia da treta, as equipas multidisciplinares, constituídas por profissionais e especialistas de tudo e mais alguma coisa, as leis dos homens e as instituições, com o seu peso organizacional, cultura e missão muito bem delineadas e balizadas, não foram suficientemente eficazes, para em tempo útil conseguir salvar uma vida.
Alguma coisa falhou, disso todos temos plena certeza, mas como há tanta gente envolvida na hipotética solução do problema que atormentava aquela vida, que é praticamente impossível apurar responsabilidades, ou sequer, saber onde ocorreram as falhas, para que pelo menos se possa evitar cometer os mesmos erros e melhorar o funcionamento das instituições no futuro. Sendo que, pelos vistos, não pesa a consciência a ninguém, resta lançar um alerta a toda a sociedade e pôr-nos a pensar numa forma de ajuda mais eficiente, capaz de distinguir as situações de emergência, das urgentes e que podem contemporizar com a burocracia e a rigidez dos processos.

A dignidade da pessoa humana não me permite em consciência revelar mais pormenores desta história trágica e, infelizmente, verídica cuja conclusão só me deixa pensar como é ridícula a burocracia e altamente perigosas as generalizações. Na verdade cada caso é um caso, porque cada pessoa é um ser humano único, cuja vida concreta, uma vez perdida não se pode recuperar.
Resta a Esperança de não perder mais nenhuma, se formos capazes de agir com temperança, determinação e eficácia!…
É por tudo isto que evito e repudio as generalizações e procuro só me pronunciar sobre casos em concreto e, mesmo assim, apenas quando disponho de elementos fiáveis e conheço suficientemente os factos. Tenho pavor dos juízos apressados, insensatos e nunca esperei nada de bom da “vox” e da “jvstitia populi”, pese embora, a ineficiência daquela que compete ao Estado assegurar. …

Victor Dias