Opinião Victor Dias: Golpes de misericórdia…

O erro não é recente, bem pelo contrário, já tem história e tradição e por muito que nos custe, ao que parece, não tem fim à vista.
Nas minhas férias tive oportunidade de viver e conviver com gentes do interior de Portugal e, de novo, pude confirmar a obstinação centralista dos nossos governantes, cada vez mais incapazes de perceber o que são desígnios estratégicos que podem assegurar a sobrevivência do país, a médio e longo prazo.
A desertificação, um processo em curso há muitas décadas, entrou agora numa fase de aceleração vertiginosa que parece difícil de travar.

Fecharam-se hospitais e maternidades, retiraram-se valências fundamentais dos serviços de saúde, arrancaram-se tribunais, encerraram-se sem explicação e sem critério alguns serviços regionais importantes, desactivaram-se quartéis, encerraram-se esquadras e finalmente, como se tudo isto não bastasse, está em curso um ambicioso programa de encerramento de escolas, para dar lugar à suprema lógica economicista da rentabilidade financeira que encara a educação como um negócio tão banal como outro qualquer, sujeito a rácios de viabilidade económica, ainda que a deslocação forçada de milhares de crianças em todo o país, não tenha sido objecto de qualquer estudo que assegure à partida uma maior rentabilidade pedagógica, nem mesmo financeira, a julgar pelas queixas de muitos autarcas que denunciaram o exagero dos custos com combustível, transporte e seguros, verbas suportadas com o dinheiro poupado em professores que vão para o desemprego.

Investe-se na ampliação de itinerários principais e complementares, para que passem a ser pagos pelos utilizadores, enquanto se deixam ao abandono em visível degradação as estradas nacionais que já há muito que não são alternativa.
Perante um cenário assim, em que o Estado não assegura um Portugal mais livre, democrático, solidário e socialmente mais justo para todos, como prometeu em Abril de 74, não garantindo educação de qualidade para todas as crianças e jovens, saúde, habitação, justiça, segurança, acesso aos serviços públicos e bem-estar em todo o território, para todos os cidadãos portugueses, o futuro do interior é inevitavelmente a desertificação.

A política, ao contrário do que seria expectável, tem sido a arte do impossível, talvez porque os políticos não têm conseguido fazer mais, ou seja, não têm tido, nem a coragem, nem a lucidez e muito menos a vontade, de olhar para o território nacional como um todo, com diferenças culturais e regionais que devem ser enfatizadas e transformadas em factores de desenvolvimento e criação de riqueza. Uma riqueza que só é possível criar se houver pessoas. São as pessoas o principal motor do desenvolvimento e sem elas, qualquer país, por mais riquezas e recursos naturais que tenha, está condenado.

Irresponsabilidades e determinações

Muitas autarquias do interior têm criado programas de incentivo à fixação dos casais jovens nos seus concelhos, mas o sucesso dessas medidas tem sido contrariado pelas políticas centralistas dos governos de Lisboa. Até mesmo o Porto e a sua região metropolitana têm sofrido com este atavismo governamental.
A nossa agricultura tem vindo a ser irresponsavelmente desmantelada, através da promoção do abandono das culturas mais apropriadas a cada solo, do subsídio ao arranque de tudo quanto é mais rentável e da aplicação de uma lógica errada de financiamento que em nada tem ajudado os verdadeiros agricultores, propiciando condições ideais para os oportunistas, finórios e chicos espertos que têm sabido tratar dos expedientes burocráticos, à custa dos quais têm enriquecido sem explicação e impunemente, nas barbas de um Estado incapaz de fiscalizar eficientemente.

Deus queira que a nossa dependência alimentar do exterior, nunca me venha a dar razão, como de algum modo já está acontecer com a Rússia a avisar a navegação que não tem cereais para exportar, provocando o pânico nos mercados internacionais e toda a sorte de manobras especulativas para fazer subir os preços em flecha.
Qual dos leitores se sujeitaria a deixar que os seus filhos tivessem de se levantar duas horas antes do início das aulas para fazer dezenas de quilómetros até chegar à escola, ou para ir a uma consulta médica? Quem aceitaria ter de vir ao Porto ou a Lisboa, para tratar de assuntos que já tratou anteriormente no seu concelho?

Quem viaja pelo Nordeste Transmontano, pelas beiras, pelo Alentejo e pelo interior, percebe porque razão os campos estão abandonados, as cidades e vilas, cada vez mais desertas e a população mais envelhecida.
Ainda esta semana ficamos a saber que o governo negociou, repito, negociou com a União europeia, a tal que se diz Europa das regiões, o desvio, para não dizer o saque, de milhões e milhões de euros que estavam destinados a regiões deprimidas do interior, para projectos e investimentos na área de Lisboa e Vale do Tejo, enfim, uma infâmia…
Com os sucessivos golpes de misericórdia que os governantes têm dado no Portugal profundo, ele só pode estar a esvair-se em terra abandonada…
Por tudo isto e por muito mais que poderia aqui aduzir a estas razões e factos concretos, entendo que a regionalização é um desígnio nacional que urge!…