Opinião Victor Dias: A crise do vazio

Olhar à nossa volta e procurar ver o Mundo com olhos de ver é um exercício cada vez mais difícil de realizar.
Por vezes, o mais fácil é observar a realidade e interpretá-la com as chaves de análise dos comentadores e analistas do sistema, seja do sistema político, do regime ou da oposição, seja do sistema económico-financeiro. Esses especialistas emitem opiniões, supostamente, independentes e imparciais, não se sabe muito bem de quem nem do quê, vão alternando as suas sentenças, entre as alfinetadelas e os polimentos aparentemente desinteressados.

O melhor, caros leitores, é procurarmos informação de fontes distintas, analisá-las segundo os nossos princípios e valores, para tirarmos as nossas próprias conclusões.
Face à recente vaga de vandalismo em Inglaterra, fiz esse exercício, colhi informações de distintas fontes, portuguesas e internacionais, tendo verificado que foram muitos os órgãos de comunicação social que não se limitaram a informar os factos. Constatei com estupefacção que o tom, mais ou menos grave, com que as notícias eram veiculadas, dependia da nacionalidade dos órgãos de comunicação, do seu posicionamento político, social, religioso e dos seus interesses económicos.
Também constatei que muitas notícias carregavam um juízo de valor, suavizado a cor-de-rosa ou pintado de negro, consoante os olhos da subjectividade jornalística.

O que se passou em Inglaterra, do meu ponto de vista, nada teve a ver com os acontecimentos da Praça Sintagma, em Atenas, na Grécia. Foi em tudo diferente, desde as motivações à forma como decorreram. O único aspecto em comum foi o modo de mobilização e o canal de comunicação utilizado, a internet e as redes sociais.

Penso que o caso Grego encontra uma compreensão aceitável, atendendo à necessidade de tornar governável aquele país, implementando medidas de austeridade fortemente penalizadoras para a população que originaram, em certos sectores da sociedade grega, reacções de profunda indignação e revolta.
O que aconteceu em Inglaterra foi bastante diferente, assumindo contornos muito preocupantes, para toda a “civilização” ocidental, uma civilização que se ergue sobre os valores da Justiça, da ordem e segurança pública, do Direito, da Liberdade e da Democracia.
O que vimos acontecer em Inglaterra foi a revelação da crise do vazio. Vimos crianças, jovens e adultos que perante a passividade de uma polícia incapaz e ineficiente, subordinada a princípios cívicos de manutenção da ordem e da segurança pública, regulada por uma lógica de proximidade, que perdeu claramente o respeito por si própria.

Morreram pessoas inocentes, muitas ficaram feridas e os prejuízos materiais foram incalculáveis. Tudo isso em nome de que causas e de que lutas?
Quando deram tempo de antena aos vândalos, aos arruaceiros e delinquentes dos “gangs” que pululam nas grandes urbes inglesas, o que se viu e ouviu foi deplorável.
Já todos suspeitávamos que a internet e as redes sociais fossem um espaço de disseminação de ideias criminosas e subversivas que contaminam as pessoas mais vulneráveis e perturbam até os espíritos mais bem formados.

A crise que eclodiu como um vulcão em Inglaterra, mas que pode abrir, a qualquer momento, novas crateras noutras sociedades ocidentais, é efectivamente uma crise de valores que trouxe à superfície dos dias, um vazio espiritual, um vazio de consciência e de sentido da Justiça, ou em suma, uma total incapacidade de viver em sociedade, respeitando as regras e a Liberdade, assumindo em consciência todas as consequências que essa opção implica.
Todos se lembrarão de ver crianças de 11, 12, 13 e 14 anos a pronunciarem-se sobre as razões porque estavam a pilhar lojas. Não era por necessidade, nem para matar a fome, era para satisfazer caprichos de um materialismo escravizante.
A Europa, no seu todo, está a pagar uma factura, cujas primeiras tranches só estão agora a chegar. É a factura de uma união económica que só se preocupou com o Euro, com o derrube das barreiras alfandegárias, com a livre circulação de capitais, mas muito pouco ou mesmo nada, com as suas raízes culturais, Judaico-Cristãs, referências morais e éticas em que se funda toda a Cultura do Mundo Ocidental.

Este estado de negação em que os medíocres líderes europeus que nos governam estão mergulhados, apenas preocupados em varrer o espaço europeu, com um vendaval neoliberizador, a roçar o capitalismo selvagem, não augura nada de bom.
Precisamos de voltar rapidamente ao ideal europeu da cooperação e coexistência pacífica, alicerçada em valores estáveis, de Liberdade, Democracia, Justiça, Paz e Solidariedade.
Para que esse ideal seja recuperado na sua essência, é imprescindível que a Educação se torne um desígnio prioritário para cada nação e para toda a Europa.