Opinião Victor Dias: “O sigilo e o silêncio – virtude ou defeito?…”

Há certas profissões em que o sigilo é, sem sombra de dúvida, uma ferramenta de trabalho, com a qual as pessoas têm de conviver todos os dias. O exercício que essas pessoas têm de fazer, é guardar muito bem guardados, certos segredos que, de algum modo, são a “alma” do seu negócio. Um negócio ou actividade que vive de informação que não pode, ou não deve, ser revelada, a não ser que isso seja útil, do ponto de vista exclusivamente profissional ou de interesse para o bem comum.

É assim com o sigilo bancário, com o segredo de Justiça, com o dever de reserva dos médicos, enfim, com uma panóplia imensa de profissões e missões que requerem recato e reserva, muita reserva.
Não é um desiderato fácil de alcançar, sobretudo num tempo em que quase se torna impossível, brincar às escondidas com o Mundo. Um Mundo que reclama cada vez mais transparência, mais lisura de processos, mais clarificação e claridade, procurando fazer crer que já nem sequer há espaço para o exoterismo e secretismo, mesmo das sociedades que por definição, só fazem sentido se tiverem esse carácter.
Como sempre aconteceu e se constata, muito mais agora, tudo não passa de uma mera questão de linguagem, ou se preferirem, de discurso para consumo imediato no espaço público. Um discurso que nos embala e distrai do essencial, daquilo que nenhuma transparência, por mais cristalina que seja, consegue revelar à luz do dia.

Na minha profissão, ou quiçá mais no meu modo de vida e de ser, o silêncio é a minha linguagem de eleição. Nele abarco o sigilo, a lealdade profissional a que estou obrigado e a fidelidade às pessoas que amo, aos meus princípios e valores.

A divisa que tomei para mim, como uma das maiores heranças do meu saudoso pai, é ter sempre presente que se Deus me deu dois ouvidos para ouvir, dois olhos para ver e uma só boca para falar, é porque sabia o que fazia. Podemos ver e ouvir tudo o que quisermos ou que quiserem que saibamos, mas só o nosso pensamento decidirá, o que deve sair da nossa boca ou da nossa escrita.
Sigilo e silêncio são duas faces de uma mesma moeda, se bem que o silêncio seja para mim uma linguagem de expressão que só uma ou outra pessoa na minha vida, consegue descortinar. Há momentos em que, por vezes, me sinto a remar contra a maré, de um mar de gente, onde a regra é a do ruído ensurdecedor e dos “sound bites” que alimentam os espíritos, diria, menos exigentes consigo próprios.

Na sociedade em que vivemos, há demasiadas pessoas que não conhecem as virtudes do silêncio. Muitas delas, são as mesmas que se inquietam e até reagem, diante de quem o sabe guardar e faz dele a sua força interior, revestindo todo o seu conhecimento das coisas e dos outros, de um carácter insondável e imprevisível, facto que, não raras vezes, gera efeitos contraditórios, levando ao desespero de querer adivinhar o que vai na cabeça de quem ama o silêncio ou, por contraste, rebostecendo de uma forma surpreendente, a confiança em quem vive essa paixão.

Em tudo o que dizemos ou escrevemos, queiramos ou não, acabamos sempre por nos expor a juízos, nem sempre justos ou bem intencionados.
O pensamento silencioso é um bálsamo espiritual e intelectual que nos dá o conforto e a segurança do recato, da intimidade profunda, deixando ao nosso livre arbítrio e vontade, a decisão de dar o sentido, a intensidade e a carga simbólica que queremos dar às nossas palavras, cabendo-nos escolher o tempo e o modo como queremos fazê-lo.
Poucos, muito poucos, são dotados desta virtude, ou defeito, – quem sabe?…

Victor Dias