Os chavões da linguagem economicista

O dialecto “economês” entrou definitivamente no nosso quotidiano, pedindo meças ao Mirandês e a outros que vêm lá do fundo das nossas raízes históricas e culturais.
Basta ligarmos a televisão ou a rádio, e lá vem um chorrilho de chavões que a maioria das pessoas não entende muito bem.
Não sendo economista, sempre pensei que o crescimento económico fosse um indicador que integrasse no seu rácio lógico, um conjunto de variáveis que, no fim de todas as contas, tivesse como resultado, a subida do nível de vida das pessoas e a melhoria do desempenho da actividade económica, quaisquer que sejam os seus actores.

Ultimamente, tenho notado, como certamente os leitores também, que o conceito de crescimento tem andado de braço dado, com despedimento colectivo ou “downsizing”, que é um daqueles estrangeirismos que se pode traduzir por emagrecimento, ou seja, corte das supostas gorduras nos recursos humanos das empresas e organismos estatais.

Austeridade, agravamento dos impostos, aumento dos preços dos transportes e de outros serviços essenciais, cortes e mais cortes, estão a resultar, como seria óbvio, numa tremenda retracção do consumo e arrefecimento da actividade económica, afundando-nos numa recessão e crise social nunca antes vistas.
Até parece que entendo do assunto, mas não, apenas me inquieto com as notícias e, claro, não posso deixar de me interrogar, já que não tenho acesso aos governantes.

Então lá vai!…

Se o desemprego continuar a crescer, com milhares e milhares de pessoas a serem, literalmente, atiradas para uma situação de pobreza eminente e se os activos, continuarem a ver degradados os seus rendimentos do trabalho, ficando esganados por um orçamento familiar que quase não dá para pagar as despesas imprescindíveis, quem é que vai ter poder de compra, para aquecer a economia? Quem vai poder vender o quê, a quem?…Será que as exportações vão ser a nossa tábua de salvação?… Mas quantas pessoas emprega o sector exportador?…

Há aqui qualquer coisa que nos está a escapar. A nós, os leigos em ciências económicas, mas ao que parece, também aos “gurus” da gestão e da governança. Eles que, como diz o povo, é que têm os livros, bem como a esperada, sabedoria e experiência. Mas afinal, não estão a dar conta do recado. Estão é a dar conta disto tudo.

O maior drama de todos é que estamos a perder a confiança em quem nos governa e, a pouco e pouco, vamos perdendo também, a confiança uns nos outros, porque quando entramos em “survival mode”, como a própria expressão militar sugere, já não temos condições para pensar de outra maneira. É terrível, mas é a dura realidade. E esta, caros leitores, será porventura a prova mais irrefutável de que a economia, pese embora o facto de poder ser exercida com ética, tem aspectos que não casam muito bem com a nossa moral Judaico-Cristã, particularmente no que respeita a valores como a solidariedade, sensibilidade e responsabilidade social, justa remuneração do trabalho e capacidade para entender a empresa como uma comunidade de interesses convergentes e conciliáveis.

Tenho alguns amigos economistas que muito respeito e estimo, mas confesso que a economia tem uma linguagem que, a meu ver, começa a ter cada vez menos aderência à realidade, fazendo-me lembrar aqueles médicos que são muito bons a diagnosticar, mas nunca acertam no o tratamento da doença…

Victor Dias