Opinião Arminda Moura: “Ser Feliz”

As crianças adoram contos e estórias de encantar. Na inocência da idade acreditam nas promessas e fantasias que estas narrativas têm a contar e, no meio delas os adultos perdem-se em fantasias que os faz devanear. Os adultos também acreditam e sonham. Sonham com um mundo melhor, uma vida melhor, com um salário que cubra o mês inteiro e, que seus tesouros resplandeçam. Estes tesouros são anseios que desejam concretizar. Mas… invariavelmente nas estórias infantis existe sempre um vilão, uma sanguessuga, uma feiticeira ou salteador a atrapalhar o enlace do conto com final feliz. Felizmente nas estórias de encantar depois de muitas guerras, conquistas, lutas e percalços o bem derruba o mal mostrando à criança um conto com desfecho feliz. Na estória feliz a “gata borralheira” consegue vencer os obstáculos e tem a recompensa por sua retidão e bondade, concretiza o enlace feliz com um príncipe perfeito que não tem defeitos.

A passagem do tempo faz a vida evoluir e a criança cresce e, neste ato natural da vida falecem as ilusões do mundo de encantar. O fado é seu destino e no caminho se funde a saudade dos tempos de criança inocente em que a sua preocupação era ver uma estória fantasiada com final feliz pois a realidade não a estava a incomodar.

Hoje ser feliz não é crónica mais parece um folhetim com capítulos marcados de dor. Não é fácil a vida nos dias de hoje, basta sentirmos os grilhões reais dos que aprisionam os sonhos dos que tentam sonhar e têm a esperança de ainda existir um mundo honesto, correto e sincero. Infelizmente o mundo está envolto em poderes de submissão escravista coberto dos sorrisos hipócritas de que tudo está bem.

A liberdade de decisão só aos grandes assiste. O mundo corre bem para o que “quer, pode e manda”, consolado na prepotência da sua força. O elo mais fraco sente-se indefeso e desfalece em dores que lhe come a carne, o sossego e a alma. Desfazem-se uniões nas ingratidões amarradas a tiranias e no meio destes fatos outros continuam falsamente a agradecer porque precisam ou continuam a bajular até conseguirem seus interesses satisfeitos. O tirano quando consegue o objetivo joga fora a falsa chave de amizade. Uma triste ilusão que destrói o berço da esperança e felicidade dos inocentes despidos na alma com palavras falsas.

Quantas almas não existem trucidadas por dores que os outros não sentem pois relevam esses interesses? A prioridade de uns se esmifra nas prioridades de outros, o importante para uns é irrisório e nada vale para outros. Se sente que a expressão, “a minha prioridade não é a tua prioridade!”, vai marcar interesses e tombar muitos sonhos. Os “psedo-senhores” sentem-se soberanos de feudos criados em vassalagem escrava coberta de humilhação, são monarcas adversos às dores criadas por suas atitudes. Nestas encruzilhadas de vidas cruzadas se perde a dignidade dos que querem ser felizes. Este “mundo cão” não tem destinado o sucesso a todos, a autoridade assiste os “reis” na vassalagem de poder.

Por muito cego que seja o mais afortunado sempre vai observando mas nada faz para reparar erros cometidos pois, seus interesses se suplantam aos dos outros e com isso negam a felicidade aos pequenos servos escravos do poder. Esquecem-se dos que sofrem pois seu lugar é inatingível. Quem tem mordomias não as divide e nem tão pouco as quer perder! As pessoas se conhecem na dor e não quando tudo corre bem! Os gestos agridem mas a má palavra ou a ausência dela chacina ainda mais.

Ridículo mas igualmente verdade é vermos alguém à nossa frente que faz a pergunta da praxe: “Está tudo bem?”. A resposta é quase sempre esconder a verdade pois nada se faz para aliviar a dor de quem se sente mal ou se sente ridicularizado por sua sinceridade. Todos fazem a pergunta do costume mas fazer alguma coisa… Estamos todos tão bem no nosso cantinho e a dor dos outros passa ao lado, para quê nos incomodarmos! Este é o retrato da “nossa” humanidade, “para te fazer feliz a ti, fico eu infeliz”! Qual dos dois é que vai ser feliz?   Certamente quem tem mais autoridade consegue fazer prevalecer a sua força.

Que lugar ocupa na humanidade? Esta pergunta pode parecer descabida mas conscientemente ou inconscientemente sabemos qual é o lugar que ocupamos. Existe uma hierarquia existencial, na base, muitos lugares de subjugados, mais acima alguns lugares de dominadores e no topo raríssimos lugares de samaritanos… É tão bom estar na “mó de cima”!… Dar um pouco de felicidade não é graça que preocupe o ser humano…

A felicidade é a satisfação e bem-estar consigo e com os outros, muito pouco se a compararmos com o tempo de sofrimento de uma vida terrena. Por vezes a felicidade se alcança com pequenas coisas, com pequenos gestos esquecidos da humanidade…

Que ninguém abra a boca a dizer que é humano, os atos valem mais que as palavras! Nascemos homens pensantes mas muitos pensam para dentro, para o umbigo deles atropelando os que se cruzam no caminho! A humanidade anda perdida e corrompida… Não é necessário procurar muitos exemplos na sociedade, basta olharmos para os que batem muito no peito a dizerem-se cristãos mas… na hora da verdade são fariseus do poder e de seus interesses!

Ter a felicidade de ser feliz não é um bem que chegue a todos…

Presentemente vivemos uma época festiva, o Carnaval, e embora seja de alegria acredito que ninguém leva a mal à verdade dita nesta pequena história de desencantar que nada encanta os que a vivem.

arminda.moura@gmail.com