Opinião Victor Dias: “O Dilema Vocacional”

Assisti recentemente a um debate intergeracional subordinado ao tema das vocações, no qual, como seria expectável, se puderam expressar diferentes entendimentos sobre a mesma problemática. Foi um exercício muito enriquecedor, a meu ver, mormente para os mais jovens que ali colocaram as suas dúvidas e exprimiram o seu pensamento, de forma livre e com total abertura de espírito.
Desde logo, a questão central que se reveste da maior importância e é uma das grandes dificuldades dos jovens adolescentes que se vêm confrontados com a necessidade de perceber com a clareza necessária, as suas aptidões e apetências naturais, para fazer escolhas e tomar rumos de vida escolar e académica. Rumos que serão conducentes a uma inclusão profissional no mundo do trabalho. Esta problemática não foi de fácil esclarecimento. De todo o modo, o debate foi dinâmico, muito participado e, do meu ponto de vista, francamente positivo.

Uma brevíssima história de vida

Uma vez uma criança perguntou a um amigo dos seus pais o que ele era, ao que ele respondeu, sou médico. A criança retorquiu, isso é o que tu fazes, mas eu perguntei-te o que tu és?…
Na verdade a pergunta, embora saída da boca de uma inocente criança, trazia um conhecimento anterior da pessoa que além de médico, era pianista e compositor. Importa sublinhar que o jovem médico, aos quinze anos de idade, tinha confrontado os seus pais, com a vontade de abraçar a sua vocação artística.
Os pais, prudentemente, levaram-no a compreender que a ilusão de apenas cumprir o seu sonho, tinha um risco muito elevado, e face à realidade cultural, social e económica do nosso país, poderia vir a tornar-se num pesadelo e redundar numa tremenda desilusão.

Hoje, esse homem é um médico-cirurgião conceituado e profissionalmente realizado, pai de quatro filhos, membro de uma família estável e feliz e um compositor cuja obra se tem afirmado com muita categoria, no panorama da Música dita erudita, além de ser o líder de um ensemble de câmara constituído exclusivamente por médicos músicos – “Medici ensemble”, onde toca piano regularmente, acompanhando os colegas, em interpretações de obras suas.
Estes pais não impuseram nada ao seu filho, tão pouco o impediram de realizar o seu sonho artístico, mas não se demitiram de cumprir a sua missão de educar no amor, na compreensão e, mormente, na abertura dos seus horizontes.

Ajudaram-no a definir uma orientação, com respeito pela liberdade própria e vontade íntima, levando o seu filho a reflectir ponderadamente sobre tudo o que estava em causa nesse momento crucial da sua vida, em que se impunha fazer escolhas e seguir um caminho que permitisse conciliar a vocação e o talento musical.
Estava em causa o talento artístico e a extraordinária sensibilidade musical que não se podia perder, mas também estava no outro prato da balança, contar com a apetência e aptidão profissional que se viria a revelar esteio para a sustentabilidade do seu projecto de vida e, actualmente, da sua própria família.

O maior desafio da adolescência

Sabemos que para muitos jovens e para as suas famílias, essa fase do seu crescimento e afirmação, traz consigo esse dilema difícil de resolver que a todos angustia.
Considero que os pais devem acalentar a capacidade de sonhar dos seus filhos, mas isso requer uma enorme temperança e sensatez, sob pena de os deixar enveredar por caminhos que, mais tarde ou mais cedo, podem levar à frustração, ao desânimo, à depressão e, não raras vezes, a uma desistência dramática do projecto de vida.

Aflige-me que as pessoas se focalizem demasiado numa só dimensão da vida dos seus filhos, preocupando-se desmesuradamente com aquilo que eles vão fazer para ganhar a vida, para se poderem tornar definitivamente autónomos e independentes dos pais. É claro que isso é extraordinariamente importante, mas esse pilar social e económico da vida, não é, por si só, fonte de felicidade. Por outro lado, perante um mercado de trabalho, cada vez mais volátil e dinâmico, quem pode garantir que a profissão que se abraça é para a vida? Quem nos pode assegurar que teremos trabalho para sempre, apenas num só ramo de actividade ou sector económico? Não teremos de preparar os nossos filhos para admitirem a possibilidade de terem de ser flexíveis e adaptar-se, sempre que necessário, à dinâmica da Lei da oferta e da procura, no mercado de trabalho?

A vocação da Humanidade

Na realidade, a verdadeira vocação da Humanidade é ser feliz. Realizar a felicidade requer de cada pessoa concreta, um projecto de vida multidimensional, em que a profissão é apenas uma das dimensões.
A família, a profissão, a maternidade ou a paternidade, a solidariedade humana e social concretizada através do voluntariado, o serviço cívico prestado com generosidade, pelo bem comum e pela causa pública, constituem dimensões complementares da vocação da pessoa para a felicidade.
O homem é, na sua natureza e circunstâncias culturais, sociais, políticas e religiosas, um ser relacional que realiza o seu projecto de felicidade, por via da integração no seu quotidiano, de todas as suas dimensões e relações.

A vocação do Cristão

Para mim que sou Cristão Católico, creio na felicidade como uma experiência espiritual que decorre, justamente, da integração da minha condição humana multidimensional, e da consciência de que só repartindo a minha vida por aqueles a quem amo e fazendo, todos os dias, não só aquilo que gosto, mas sobretudo, o que tenho de fazer para que outros também se realizem e sejam felizes.
A vocação, numa perspectiva holística e transcendental, convoca-nos para o cumprimento de uma missão, na correspondência e entrega ao chamamento de Deus. À luz desta minha crença, a vocação requer um autoconhecimento pessoal e interior que, nem sempre o jovem adolescente, consegue realizar sozinho, por isso se revela tão importante, quiçá mesmo imprescindível, a ajuda daqueles que, neste Mundo, mais o amam, os seus pais.

Neste sentido mais profundo da vocação, é fundamental que o jovem consiga alcançar, com o apoio dos pais e educadores, o discernimento sobre a dimensão social e colectiva que ela implica, quando for chamado a por ao serviço dos outros, os seus dons, talentos e capacidades.
A resposta ao chamamento vocacional de Deus, pode realizar-se trilhando diferentes caminhos, a vocação consagrada ou a vocação dos leigos.

Uma síntese possível

Em suma, penso que é, de certo modo, arriscado reduzir a questão da percepção vocacional, à esfera do sonho, ou seja, deixar que o jovem adolescente, se convença que as suas escolhas, pertencem ao mundo da fantasia ou da ficção.
A realidade, principalmente aquela que vivemos hoje e se vislumbra para um futuro a médio prazo, não se compadece com visões idílicas ou suavizantes, bem pelo contrário, exige de nós pais, a responsabilidade de ajudar os nossos filhos a compreender que levar por diante um sonho que comporta riscos, porventura, intoleráveis e de consequências imprevisíveis, além de se poder tornar numa obsessão pouco saudável, pode conduzi-los para becos sem saída e frustrações insanáveis que inviabilizem o seu projecto de serem felizes.
Há imensas pessoas que não estão a fazer profissionalmente o que gostavam, contudo, não deixam de gostar do que fazem, e como têm uma vida espiritual, familiar e social muito rica, isso não os impede de serem felizes, porque aprenderam a relativizar as coisas, consoante a dimensão que elas ocupam nas suas vidas.

Convém não confundir a vocação que a cada ser humano é dada a descobrir e reconhecer ao longo de toda a vida, com a necessidade de, num certo momento da sua juventude, ter de fazer escolhas profissionais.
A descoberta interior da vocação, implica a totalidade da pessoa, do seu rumo de vida permanente, da sua esperança, confiança e força espiritual, e de tudo aquilo que construirá a sua felicidade, enquanto que a outra escolha, sendo importante, apenas vai preencher uma parte da vida da pessoa.
O sonho tem de receber da realidade, os sinais concretos que nos permitem torná-los possíveis, assim saibamos interpretá-los com a clareza de espírito a que isso obriga, como o fez Fernando Pessoa – “…Deus quer, o homem sonha, a obra nasce…”.
Não será esta a reflexão que deve ser proposta aos jovens?…

Victor Dias

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