Opinião Victor Dias: “… A César o que é de César…”


A separação entre o Estado e a Religião é, a meu ver, um facto que tem, na sua essência, razão de ser e inúmeros aspetos positivos, embora também apresente certas desvantagens. Em Portugal, a separação entre a política e as opções confessionais das pessoas já teve momentos de tudo, sendo que os mais conturbados se fizeram sentir no consulado do Marquês de Pombal e mais tarde, no eclodir do regime republicano.

Tenho refletido profundamente sobre certos temas de pendor marcadamente ético e moral que reclamam fundamentalmente, no que implicam de juízo pessoal, valores e princípios cuja matriz de base não dispensa a crença religiosa de cada pessoa, e como tal, se apresentam inexoravelmente como questões de Fé, mormente, para quem crê e vive a sua dimensão religiosa. É lógico e razoável que para quem não crê e não se considera uma pessoa de Fé, as questões a que pretendo aludir, sejam apenas do foro político e ideológico.

Feita esta minha primeira declaração de princípio, não consigo entender como é possível para os católicos, separar das suas crenças e convicções confessionais, matérias políticas que implicam a obediência, livre e consciente, a mandamentos e orientações doutrinárias inequívocas que requerem um posicionamento e uma ação coerente e consequente, quando confrontados com propostas políticas que colidem e, não raras vezes, até desrespeitam a nossa consciência, história e tradição.

O receio de sermos apelidados e confundidos com o fanatismo e fundamentalismo que grassa em certas paragens do Mundo atual e que é intencionalmente guizalhado nos média ocidentais, até à exaustão, por forma a que a opinião pública internacional se convença que a religião, qualquer que ela seja, é a raiz de todos os conflitos e problemas da Humanidade, está a tolher com um medo paralisante, imensos Cristãos e, claro, de entre eles, inúmeros católicos.

O caso português

Estou cada vez mais convicto de que Portugal se fez uma nação cuja história já conta quase nove séculos, precisamente porque na sua génese houve um cimento que uniu e deu consistência ao querer, ao devir e ao sentimento de identidade e pertença a valores comuns supremos. Se assim não fosse, como teria sido possível resistir durante tantos séculos, à cobiça externa, à intriga política, às lutas de poder e às crises económicas e sociais que nos devastaram por mais do que uma vez, e de cujas ruínas e destroços fomos capazes de nos reerguer? Nesta matéria, não posso estar mais de acordo com a tese defendida pelo nosso Bispo, D. Manuel clemente, quanto ao estudo que tem feito, sobre a incidência e reincidência de certas evidências que nos fazem meditar, sobre as verdadeiras razões, pelas quais Portugal se fez e se manteve, uma nação unida e estável, na sua cultura, nas suas fronteiras e, maioritariamente, na sua fidelidade a Deus.

Não vejo como é possível separar do sistema de valores, crenças e vivências confessionais concretas, as opções e medidas políticas que convocam precisamente tudo isso.
Do ponto de vista político, ainda me considero um social-democrata, mas refuto liminarmente todas as ideias políticas que esbarram com a minha consciência. Uma consciência alicerçada justamente na minha educação Cristã Católica.

Concretizando

Até hoje não entendo, nem aceito, como se pode promulgar leis que atentam contra a consciência ética e moral de quem as subscreve. Não foi o que aconteceu com a Lei que abriu caminho ao “casamento” entre homossexuais? Não é o que tem acontecido com a promulgação de todas as leis que atentam contra a família, que desincentivam a natalidade, que facilitam o divórcio e combatem o casamento, facilitando as uniões sem compromisso?

Percebo que os políticos ateus, agnósticos ou obrigados a servir causas esotéricas não se importem com a estabilidade e paz social, mostrando sem pudor que estão empenhados em combater tenazmente certos valores, desmantelando células e estruturas da sociedade que são um empecilho à prossecução dos seus objetivos económicos e, consequentemente, políticos. Penso que já ninguém tem ilusões sobre as verdadeiras motivações que inspiram os donos do Mundo e os seus administradores, entenda-se os governantes das nações cujo poder está cada vez mais limitado ao cumprimento de cadernos de encargos sufocantes, regidos por programas políticos impostos que de democráticos, já nada têm.

Mas não será legítimo perguntar, e os Cristãos? Os Cristãos que também são militantes de partidos democráticos, como eu conheço vários no Partido Socialista, no Partido Social Democrata e no CDS-PP, como conciliam a Fé e a ideologia político-partidária face a matérias tão sensíveis como, por exemplo, o testamento vital, a eutanásia, a adoção de crianças por “casais” homossexuais, as barrigas de aluguer, a maternidade “independente”?…

Onde estiveram os Cristãos a pronunciar-se sobre a extinção de feriados como o “Corpo de Deus”, para não falar no 15 de Agosto, cujo significado simbólico para os portugueses foi completamente anulado.
Agora correm para aí uns rumores, sim porque tudo começa quase sempre por uns rumores, de que Passos Coelho, começa a pensar em por em causa outros feriados religiosos. Pelos vistos já lhe terá passado pela cabeça, deixar celebrar a última ceia, “crucificar” o Senhor, fazer o seu enterro e festejar a Páscoa, tudo em apenas dois dias, sábado de Aleluia e Domingo de Páscoa…

Estejamos vigilantes e muito atentos, pois não me admiraria nada que, um destes dias, a troco de uma troika qualquer, o nosso primeiro ministro ou o seu apaniguado Relvas, se lembrem de lançar por aí rumores de que o Dia de Todos os Santos ou mesmo o Dia de Natal, podem ser celebrados também ao Domingo, enfim, temos de estar preparados para tudo.

É bom que ele fique desde já a saber que vai ter de contar com a nossa total e veemente oposição. É bom que ele perceba que já basta o que basta e que mesmo para os social-democratas, como eu, a paciência se esgotou.

À política e a Passos Coelho o que lhes pertence, mas não deixemos nunca de exercer a Liberdade que a nossa consciência nos impele a exercer!…

Victor Dias