Guilhermina Suggia e Eurico Thomaz de Lima lembrados na Feira do Livro da Maia

Numa iniciativa do Clube UNESCO da Maia, realizou-se na passada sexta-feira, no auditório da Feira do Livro da Maia, organizada pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal, evento integrado na programação oficial das Festas do Concelho em Honra de Nossa Senhora do Bom Despacho, uma conferência proferida por Victor Dias, crítico musical, programador artístico e Maestro dos Pequenos Cantores da Maia.

Na apresentação do conferencista, o presidente do Clube, Raul Cunha e Silva, salientou as qualidades artísticas do orador, dando particular relevo à sua capacidade de comunicação e ao seu poder de análise crítica, facto que lhe valeu ter sido convidado pelo Maestro António Victorino de Almeida, para escrever as notas destinadas ao “booklet” que acompanha o seu mais recente CD, com obras inéditas e originais, editado com o alto patrocínio da Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República.

Guilhermina Suggia

Guilhermina Suggia

Victor Dias começou por aludir ao ambiente familiar em que Guilhermina Suggia nasceu, estabelecendo algumas relações de nexo de causalidade, com vários exemplos de grandes vultos da História da Música, para cujo sucesso foi determinante a vivência cultural, artística e musical com que foram acolhidos desde o berço, citando expressamente o caso de Wolfgang Amadeus Mozart. Tal como o pai do génio de Salzburg, também o pai de Guilhermina, Augusto Suggia era músico e professor, tendo sido o seu primeiro mestre, acrescentou Victor Dias.

Após este primeiro enquadramento familiar, houve uma abordagem relativamente consistente sobre o meio cultural e sobre a vida artística e musical do Porto da primeira metade do século XX, com referências à família Moreira de Sá, concretamente ao grande músico e dinamizador artístico da capital nortenha que foi, Bernardo Valentim Moreira de Sá, também ele Mestre e amigo da violoncelista.

Por fim, o conferencista apresentou um trabalho de pesquisa de críticas musicais publicadas nos mais prestigiados jornais de referência das grandes capitais culturais por onde a artista pisou palcos, seleccionando os textos que melhor descreveram o estrondoso êxito de que se revestiram sempre os seus concertos em toda a Europa.

A grande surpresa foi a audição de um CD com gravações históricas de Guilhermina Suggia, editado em Londres, dando aos presentes que lotavam o auditório, a possibilidade de partilharem a audição de uma interpretação magistral do Concerto de Haydn, em Ré Maior, para violoncelo e orquestra, momento que foi calorosamente aplaudido pelo público, um público visivelmente emocionado com essa experiência rara.

A segunda parte foi inteiramente dedicada ao pianista, pedagogo e compositor Eurico Thomaz de Lima, de quem o palestrante juntou as pontas que o ligavam a Suggia.

Desde logo começou por sublinhar os aspectos comuns num e noutro caso, realçando o facto do pianista também ter nascido num ambiente familiar de muita Música, em virtude do seu pai, António Thomaz de Lima, ser professor de violino no Conservatório Nacional.

Outros fios condutores que ligavam os dois artistas radicam na personalidade de Viana da Motta, professor de Eurico, que o levou ao mais alto nível que se pode obter nos exames do Conservatório, aprovação com Distinção e Louvor, classificação com que saiu do seu exame final do curso de Piano. Viana da Motta foi também amigo de Guilhermina Suggia, com quem tocou por diversas vezes, encontro artístico que sucedeu igualmente com o então jovem pianista.

Do seu discípulo, Eurico Thomaz de Lima, disse José Viana da Motta: “[…] Possui qualidades artísticas excepcionais, fina musicalidade que lhe permite penetrar inteligentemente o sentido das obras que executa, perfeição técnica, excelente sonoridade, maleabilidade de interpretação e a maior probidade artística […]”.

Tal como fizera com Guilhermina, Victor Dias, invocou as qualidades humanas, musicais e artísticas de Eurico Thomaz de Lima, também ele um virtuoso, senhor de uma técnica pianística muito apurada que punha ao serviço da interpretação, numa rigorosa fidelidade ao texto originalmente escrito pelos compositores.

A vida na antiga Vila da Maia que tantos artistas atraiu, pela ruralidade do seu ambiente humano e social, servido por uma paisagem, nesses tempos, ainda pouco urbanizada, foi outro aspecto tratado na conferência, na perspectiva de que os artistas encontravam por estas paragens, a quietude e tranquilidade que contrastava com o bulício da urbe portuense.

A sessão terminou com a audição de várias obras do compositor Eurico Thomaz de Lima, extraídas do primeiro CD editado pela Câmara Municipal da Maia, na comemoração do Centenário do seu nascimento, em 2008 e do mais recente, gravado pela Antena 2.

É de assinalar a presença na primeira fila, do filho do compositor, Eurico Adolfo Thomaz de Lima.

No final da conferência foram muitos os presentes que quiseram cumprimentar e felicitar pessoalmente o orador, pela forma como conduziu o evento.