Opinião Victor Dias: O peso político do carácter

Penso que não haverá grandes ilusões sobre que factores pesam, efectivamente, nas decisões derradeiras dos eleitores, no momento de votar. Para além do descontentamento circunstancial que quem governa tenta contrariar, antecipando com medidas eleitoralistas que procuram varrer da memória mais recente do eleitorado, as lembranças que podem comprometer o seu voto na continuidade, levando a uma natural vontade de mudança, há sempre um inevitável desgaste das figuras de primeira linha dos governos que acaba por influenciar negativamente alguns eleitores.

O jogo político faz-se, actualmente, muito com recurso à política emoção que trabalha os sentimentos do eleitorado, reservando o conteúdo político programático, hoje pouco mais do que pragmático, para uma escassa franja de eleitores, porventura, mais atentos, esclarecidos e, principalmente, mais desconfiados do oco “patois” das campanhas eleitorais.

Vote

Sabendo, como sabemos, que o debate político, em tempos de campanha e de antena, tresanda a propaganda salpicada de demagógico populismo que se esfuma no dia seguinte à noite televisiva eleitoral, acabamos por nos deter, num ou dois aspectos que consideramos cruciais para entregar a cruzinha a um partido, ou por alguma razão muito particular, quiçá, poupar a caneta e votar na candura do voto em branco. Voto que, na minha convicta perspectiva, vai ter uma tremenda adesão nas eleições mais próximas, conferindo ao voto em branco, uma expressão substancial e substantiva que terá as suas inevitáveis consequências políticas.

O carácter das pessoas

Julgo que há hoje, um critério que começa a, paulatinamente, generalizar-se na sociedade portuguesa. Esse critério, nas próximas eleições, nas várias que se vão avizinhando, será determinante para o juízo dos eleitores, talvez mesmo até para os menos exigentes. Será um juízo inevitável e implacavelmente condicionador dos resultados eleitorais, nada tendo a ver, com programas ou propostas políticas, mas não deixa, a meu ver, de ser um factor com um enorme peso político, refiro-me obviamente ao carácter das pessoas que se apresentarem a sufrágio.

Todos os candidatos, mormente aqueles que vão encabeçar listas e surgir em lugares passíveis de eleição, serão pré-escrutinados num refinado crivo que irá avaliar, sem equivalências, o carácter e a probidade moral e ética de cada um, independentemente das licenciaturas, mestrados, mba’s e doutoramentos que possam exibir no currículo.

Face à tremenda crise de falta de confiança nos políticos, que estamos a atravessar, os partidos não terão outra alternativa, a não ser, a apresentação de candidatos cuja credibilidade esteja alicerçada numa personalidade de irrepreensível carácter, sentido da honra e de uma honestidade a toda a prova. Não vai ser suficiente entremear as listas com dois ou três nomes cuja respeitabilidade é reconhecida unanimemente, para branquear os abridores de portas, facilitadores de influências e favorecimentos. Esse tempo está esgotado e os cidadãos não toleram mais isso. Hoje os cidadãos têm plena certeza que é bem mais difícil ser um senhor do que um doutor.

De pequenino…

O carácter das pessoas não é um não assunto, tão pouco uma questão menor que possa ser desvalorizada e negligenciada, por quem tem o poder de lhes confiar missões públicas de governação. Acredito que seja possível cometer erros de “casting”, mas não vejo mal nenhum em reconhecer os erros, aprender com eles e emendar, consequentemente, a mão, evitando que toda uma equipa seja contaminada por um julgamento público que, com toda a certeza, será injusto e totalmente imerecido para as pessoas proprietárias de um bom carácter.

Este exame de consciência que os eleitores mais exigentes vão fazer, vai certamente contribuir para engrossar os números do voto em branco que ameaça ganhar todas as eleições.

O exercício da política, em particular do poder, aliás de qualquer poder e não apenas do político, só é um serviço ao bem comum, se for exercido com integridade ética e moral, qualidade intrínseca das pessoas de carácter e bem formadas, sendo que esta qualidade de bem formadas não advém de nenhuma universidade, mas do berço e da família, em resultado concreto dos exemplos de honradez e honestidade recebido nessa escola, nos primeiros anos de vida.

Perante os péssimos exemplos que nos entram casa adentro, num triste e deprimente espectáculo noticioso que não augura nada de bom, atendendo à origem das notícias, vou consolidando a minha funda convicção que é no seio da família que a pessoa humana melhor se forma, educa e dignifica. É nessa matriz afectiva, cultural e social que desde o berço, se começa a moldar o carácter e a inculcar no coração e na consciência dos novos seres humanos, os verdadeiros valores da vida. Esta missão da família, completamente insubstituível e intransmissível, é dita com grande sabedoria e de forma muito singular, pelo nosso povo: -“De pequenino se torce o pepino…”.

Victor Dias