Opinião Victor Dias: Salazar – o mito…

Começo por fazer uma declaração de princípios, afirmando com toda a clareza e para afastar qualquer equívoco ou leitura enviesada que não sou salazarista, nem “ista” de coisa nenhuma.

Considero Salazar um ditador com uma personalidade muito própria, portuguesa com certeza, um pouco serôdio, provinciano e bastante mais “light” do que os seus contemporâneos, alguns sim, verdadeiros sanguinários e facínoras, à beira de quem, Salazar era um simples aprendiz de feiticeiro. Pensem por exemplo em Franco, Mussolini, Staline ou Hitler…

Quando estamos perto de atingir aquele tempo de distanciamento necessário, aproximadamente meio século, para fazer uma leitura desapaixonada, crítica e tão objectiva quanto possível, dos factos históricos, para que seja possível ensaiar uma síntese de uma época, por mais simplista que possa ser, vemo-nos atormentados por uma plêiade de governantes que não nos permitem ter a serenidade necessária para essa leitura.

Face a uma análise geral dos anos de poder protagonizados por Salazar, ficamos surpreendentemente condicionados por acontecimentos, factos e personalidades do actual regime democrático que, queiramos ou não, nos remetem para uma inevitável confrontação, pautada por uma grelha de análise que compara virtudes, vícios e defeitos do ditador e dos actuais titulares dos órgãos de soberania e de poder.

bandeira portugal

Se é verdade que Salazar não teve nunca a legitimidade do voto livre e democrático porque foram os militares do 28 de Maio que fizeram dele Ministro das Finanças e depois Presidente do Conselho de Ministros, cargo a que se agarrou, na convicção de que exercia uma missão cujos desígnios patrióticos, ele se arrogava como intérprete único e iluminado, proclamando aos quatro ventos, a divisa: – “Deus, Pátria e Família”, não será, porventura, menos verdade que, outros, também estão a adensar o mito do grande português. O fenómeno é merecedor de adequado e aprofundado estudo, mormente, por parte de investigadores da Ciência Política e da Psicossociologia.

Ironia do Devir da História e voltamos a ter Salazar elevado a mito nacional, não tanto pelos seus feitos políticos, mas sobretudo porque os seus pecados de ditador, tirano e déspota se vão reduzindo aos olhos do povo, enquanto os vícios, defeitos e malefícios da corrupção crónica dos eleitos em Liberdade e plena Democracia, se agigantam a cada dia que passa.

Como comecei por afirmar, não sou salazarista e reprovo sem tibiezas a ditadura do Estado Novo. No entanto, começo também a adoptar cada vez mais, aquele prudente princípio de que não podemos julgar a História, os seus factos e figuras, à luz de uma Cultura que após várias décadas ou séculos passados, não é, necessariamente, a mesma. Nesta perspectiva, observo historicamente Salazar, enquadrando-o no seu tempo, nas circunstâncias culturais, políticas e sociais particulares que ditaram o seu modo de pensar, ver, estar e agir num Mundo que foi o seu.

Espírito de serviço

Sublinho também, categoricamente, que a opinião formada por mim, a respeito de Salazar, não dá cabimento a qualquer tentativa de branqueamento do lado negro do ditador. Mas também começo a firmar opinião de que todos os governantes, os que têm perfil de estadistas e os outros, escondem sempre um lado negro que, cedo ou tarde, acaba inevitavelmente por se revelar. Nem sequer preciso de citar nomes porque tenho a certeza que os leitores, neste exacto momento, já se recordaram de uma boa mão cheia de democratas que estiveram no poder e pedem meças a Salazar, no que respeita a faces ocultas e lados negros…

Apesar de todos os pesares, há um traço na personalidade de Salazar que nenhum, mas absolutamente nenhum político do Portugal livre e democrático consegue sequer igualar, refiro-me obviamente ao espírito de serviço à causa pública, marcado por uma honestidade irrepreensível que fez dele um estadista incapaz de usar para benefício próprio, um centavo que fosse do erário público. Para não falar do extremo cuidado que sempre teve em acautelar os supremos interesses da nação. Nunca como no seu consulado, o público foi tão claramente balizado e o privado tão rigorosamente circunscrito à sua esfera própria. Ele tinha uma claríssima noção de quais eram os verdadeiros interesses estratégicos de Portugal e sabendo da sua importância para a nossa independência e sobrevivência, defendia-os tenazmente, com uma determinação que, queiramos ou não, é ímpar no Portugal contemporâneo.

Coisas, para não usar o termo mais correcto, “negócios escuros e ruinosos”, como as parcerias público-privadas, desmantelamento de serviços públicos vitais e estratégicos, como as águas, as energias, a saúde e a educação, jamais seriam politicamente geridas por Salazar, como estão a sê-lo pelos democratas eleitos com o nosso desgraçado voto.

Será que vale a pena tentar encontrar outras explicações para a eleição de Salazar como o grande português que hoje ascende, de forma triunfal, à condição de mito?

Salazar é hoje o desejado pelo povo que por todo o lado suspira, na ânsia de um regresso “messiânico” que nos livre, como dizia há dias D. Januário Torgal Ferreira, “desta gente”…

Algo de profundamente errado se está a passar neste ‘reino’ de Portugal para que o povo tenha estes desabafos de alma que são preocupantes sinais do desnorte que estamos a viver.

Liberdade, a democracia, o Direito e a Justiça

Deus me dê sempre o discernimento necessário para nunca confundir as coisas, sobretudo nunca desistir de querer a Liberdade, a democracia, o Direito e a Justiça, como valores fundamentais e estruturantes de uma sociedade civilizada que significa para mim, mais justa, mais fraterna e mais solidária.

Lamentavelmente, o que está a acontecer é precisamente um afastamento desse ideal com que sempre sonhei e o pior sinal disso mesmo, é que esta gente está a fazer de Salazar um mito da nossa história recente. Só ainda não consegui compreender se isso está acontecer por mérito de Salazar, ou por demérito dos democratas…Ao contrário de um certo estadista, muitas vezes me engano e estou cada vez com mais dúvidas, mas seriamente preocupado com o futuro de Portugal.

Victor Dias

4 respostas
  1. Primeira Mao
    Primeira Mao says:

    Caro Sr. Jonas,
    O Primeira Mão respeita a liberdade de opinião e, de resto, a opinião do autor surge devidamente fundamentada e explicada.
    Obrigado também pela sua opinião.

  2. João
    João says:

    Tem toda a razão o Sr. Victor Dias,em tudo aquilo que diz e eu também me sinto muito revoltado quando vejo estes governantes
    a destruirem aquilo que os governos da chamada ditadura do estado novo construiram.
    Costumo dizer: os fascitas construiram e os democratas estão a destruir, isto é aquilo a que chamam de democracia ?

  3. Asantix
    Asantix says:

    Bom dia,Victor Dias
    Leio o Primeira Mão, conheço bem as suas opiniões,uma de agrado outras nem tanto,todavia temos de ser inteligentes para as separar e aceitar.Reconhecido o facto de as não ter seguido todas,esta não poderia passar-me em claro.

    A minha idade não permite recordar o enorme Estadista que foi,Salazar,teria uns 4 anos na altura,porém ditos dos meus Pais,Avós e demais familiares,ele não foi um bom “gestor” da Liberdade,mas Nacional e internacionalmente foi um exímio defensor da sua Pátria,como, igualmente, a “chave” dos cofres Nacionais.
    De tudo o que me foi dado a saber,hoje, olho para a História,ouço os mais velhos,e, já Homem feito,analiso os “prós e contras”,sem chegar ao “cais” do Éden.

    Os velhos repetem, a cada dia que por eles passa, “o morto, a esta hora, deve de estar a dar voltas e mais voltas no seu, eterno, túmulo”. E muitos outros, arrependidos, dizeres se ouvem,porém sem remédio para a causa.

    Liberdade só a senti no meu primeiro dia de voto,apesar que, se diga por aí, Somos um Povo livre e de brandos costumes. Somos mesmo,mas também Somos vezeiros na maledicência do bem e protectores do mal. Somos insatisfeitos,aqui é já um mal do Homem,sem remédio na sua Natureza. Hoje, diariamente, questiono a Liberdade que tenho; trabalho e ganho para quem; voto em quem; E….fico por aqui.

    O seu artigo despertou a, repressiva fúria que há em mim, a razão que necessitava sentir,o juízo que à muito procurava. (…) Pensará,”só agora?!”,não Victor,não foi só agora,mas à muito que descobri o, “lamaçal”, que é a Nossa Pátria, decadente desaparecimento familiar e o Deus que protegeu o “morto”. Acontece que, à momentos no tempo,hoje foi o seu e o meu.

    A sua opinião valorou a minha entorpecida caminhada, eu reforcei o que antes tinha sentido.A dureza do exposto reduz o presente, elevando o passado,que na minha avaliação de uns e outros,só me apraz dizer,para onde caminhas tu ó negra Pátria…Autista dos brados do teu Povo…

    Continue…que eu também.
    Cumprimentos

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