Opinião Victor Dias: O poder criativo da crítica construtiva

Nas sociedades ditas evoluídas prevalecem certos paradoxos para os quais é difícil encontrar compreensão lógica.

Nas democracias ocidentais, poder e oposição fazem parte, a meu ver, da mesma dialéctica. Uma dialéctica que é muitas vezes condicionada pela existência de maiorias. Os poderes sustentados em maiorias.

Oscilam muitas vezes, entre o exercício musculado do poder perante A SUA BASE ELEITORAL e um certo complexo mediático face às minorias que se movem com especial jogo de cintura junto dos fazedores de opinião publicada, conseguindo desse modo, fazer valer as suas reivindicações de um modo bem mais expedito e com menos custos sociais.

ideia

A minha cultura democrática, porventura ainda muito carecida de ensinamentos, leva-me no entanto a ter, já hoje, uma consciência cada vez mais clara sobre a imprescindibilidade da crítica construtiva.

Assimilei com a maior naturalidade possível que a crítica, enquanto expressão da vontade de participar no processo de aperfeiçoamento da pessoa humana, individual e colectivamente considerada, é um poderoso instrumento intelectual ao serviço da Humanidade.

As minhas dúvidas sobre a nossa capacidade de aceitação e compreensão sensível da crítica construtiva são, apesar de todos os progressos das últimas décadas, muitas e, por mais que isso me custe, alegadamente fundadas.

Vejamos o caso da escola. Ela é, ou devia ser, por excelência, um lugar onde a crítica construtiva devia fervilhar, como elemento essencial ao desenvolvimento da capacidade de pensar e reflectir criticamente sobre o Mundo, sobre as coisas, sobre o conhecimento e saberes acumulados, enfim, sobre a vida.

Crítica construtiva

Se analisarmos bem, todo o processo educativo, do ponto de vista da acção pedagógica do professor, é alicerçado na crítica construtiva, em razão da permanente atenção dele ao erro do aluno. É em face desse processo que o docente sinaliza o erro. Criticando, corrige, esclarece as dúvidas e sana os equívocos, ajudando o aluno a aperfeiçoar o seu conhecimento e práticas.

Mas será que o contrário, embora em circunstâncias diversas, é bem aceite pelo professor? Quantas vezes ouvimos falar de professores que acolheram, sem reservas mentais ou outras, as críticas, justas e construtivas, dos seus alunos?…

Arrisco-me a dizer que, independentemente, da validade ou razoabilidade da crítica que uma criança ou jovem possa fazer ao seu professor, quando apresentada com respeito, educação e expressão da sua inteligência, ela é desde logo, uma oportunidade de aprendizagem e de exposição ao contraditório. Por isso, no meu entendimento, não deve ser desvalorizada nem reprimida.

Acredito verdadeiramente no poder intrínseco da crítica, mormente, no que ela encerra de oportunidade de aperfeiçoamento, de melhoria contínua e de enriquecimento da nossa cultura, no que isso significa quanto à apreensão dos valores pelos quais regemos o nosso pensamento e relação com o Mundo.

Na família, na escola, nas comunidades em que nos integramos e nas instituições onde servimos, a nossa presença será tanto mais rica, quanto melhor for a nossa capacidade de intervir criticamente e de acolher, sem preconceitos ou complexos, as críticas que nos forem dirigidas e possam por em causa, o nosso posicionamento e acção no seu seio.

A cultura democrática e, muito em particular, a cultura da diversidade assenta nesse pilar estruturante do pensamento crítico.

Pontos de vista

É claro que a crítica construtiva não é, de modo algum, compatível com qualquer forma de imposição dos pontos de vista de quem a formula, bem pelo contrário, ela pode ser geradora de um diálogo fecundo, ajudando a reconhecer e respeitar as diferenças e, muitas vezes, as razões que estão por detrás de conceitos, princípios e valores inconciliáveis. Podendo, apesar disso, ajudar na mediação e aproximação de posições que, à partida, parecem irredutíveis.

Na Ciência, na Arte, na vida social e em todos os domínios, em que o pensamento reflexivo é a génese da sua evolução, a crítica construtiva é o oxigénio vital.

Na política, especialmente nos regimes democráticos, é urgente que se inculque nas novas gerações, esse modo de ser, estar e viver em relação social.

Claro está que, na minha perspectiva, o exercício regular da crítica construtiva requer uma observação rigorosa de vários pressupostos básicos, como por exemplo, a boa educação, um conhecimento mínimo sobre a matéria a criticar, disponibilidade para o contraditório e capacidade para acolher os argumentos opostos, ao ponto de, se for caso disso, reconhecer a inadequação, fragilidade ou despropósito das críticas que, numa dada circunstância, fizemos.

Autocrítica

A honestidade intelectual com que devemos pautar a nossa reflexão crítica, deve ser a mesma face à análise elaborada por outras pessoas, sobre o que pensamos, dizemos e fazemos, na consideração basilar de que não somos donos da verdade e, quando muito, somos simples intérpretes de uma ou outra visão particular, sempre passível de ser posta em causa. Esta é, aliás, uma predisposição que devemos cultivar em relação a nós próprios, confrontando a nossa consciência, em virtude da nossa maior ou menor capacidade de formular autocrítica, muito íntima, que nos leve a ponderar, com sensatez e inteligência, o cumprimento da nossa missão na vida, sem receios de nos pormos em causa a nós próprios. Acredito que só deste modo poderemos almejar à nossa evolução e aperfeiçoamento enquanto humanos, pacíficos e dignos da sua inteligência.

Em suma, quem critica tem de ter ainda maior humildade do que quem é criticado, por forma a que quem for destinatário da nossa análise e argumentos, se sinta inteiramente livre para refutar, sem qualquer tipo de condicionamento ou receio. Por tudo isto, a honestidade, a rectidão do carácter e a fidelidade aos princípios éticos da dignidade humana, têm de estar presentes na crítica, para que ela seja, efectivamente, construtiva e caminho de aperfeiçoamento e nunca de ruído, de desorientação ou destruição.

Mentes arejadas, espíritos abertos e bem formados são, por natureza, os mais receptivos à crítica. Penso que têm essa posição de princípio porque se sentem mais seguros de si mesmos e, como tal, nada têm a temer…

Victor Dias