Opinião de Victor Dias: O baile mandado da coligação

O PSD e em particular o seu líder estão a passar por um momento de grande dificuldade.

Não bastavam já as notícias desanimadoras que comprovam o insucesso das políticas de austeridade, com vários indicadores económicos e financeiros a revelarem o afundamento da economia nacional e o empobrecimento alarmante da população, surgem agora evidências de um indisfarçável mau estar no seio da coligação governamental.

A coisa começou a azedar, deixando um trago muito amargo na boca dos dirigentes do CDS/PP, quando o guru do governo, António Borges, foi à TVI ditar a sentença da RTP, num tom muito pouco técnico e, bem pelo contrário, demasiadamente político, para quem não tem a legitimidade dos eleitos. É claro que todos nós percebemos muito bem porque razão foi o ministro Relvas dar uma voltinha até Timor e deixou no seu lugar, o professor do FMI e da Goldeman Sachs, cuja competência política lhe permite a desfaçatez de propor que os salários, inclusive o mínimo, sejam esmagados para que o país se torne mais competitivo. Nem sequer vou cair na tentação populista de lembrar os “escandalosos” honorários que cobra para repetir o palavreado que a troica nos vem dizer a cada avaliação.

tango

Paulo Portas, o político mais inteligente da coligação, foi mandando as suas farpas, primeiro através dos canais que deixou cá dentro, enquanto vai cumprindo o seu programa de projecção internacional da marca Portugal. Mas não deixou de aludir, já em solo português, ao seu posicionamento de sempre, face ao serviço público de rádio e televisão. Facto que levou Pedro Passos Coelho a proferir uma declaração, em solo inglês, para acalmar as águas, dizendo que todos os cenários estavam em aberto e que a decisão política será tomada a seu tempo e por quem de direito.

Nos últimos dias, voltou a azia e Jorge Moreira da Silva veio a terreiro explicar que uma das reformas mais aguardadas pelos portugueses, a da lei eleitoral autárquica e do poder local, ia ficar na gaveta porque o parceiro de coligação não tinha aberto mão de certos princípios que para ele, CDS/PP, eram inegociáveis. Por outras palavras, o que de facto aconteceu é que o partido de Paulo Portas, sabe gerir muito bem o, aparentemente diminuto, poder que tem nas mãos e não vai em cantigas, até porque tem consciência que é nas pequenas coisas que o pequeno partido se agiganta.

Findo quase ano e meio de governação, as figuras mais desgastadas deste executivo são, sem sombra de dúvida, as que foram nomeadas pelo PSD. Nem mesmo Assunção Cristas que tem a seu cargo um super ministério que lida com dossiers complicadíssimos e que, habitualmente, provocam um enorme desgaste dos titulares dessas pastas, tem tido a erosão de imagem que seria natural esperar.

Pedro Mota Soares é o ministro bonzinho que aparece a dar a cara, quando há umas migalhas para distribuir, quase sempre pelos mais desprotegidos da sorte e em situação de emergência social. Inteligentemente, quando é preciso anunciar medidas disciplinadoras e novas regras de fiscalização e controlo dos apoios do Estado, manda avançar o seu SE, Marco António Costa, fazer o papel de “mau” e arcar com o ónus da intolerância crónica que os portugueses já desenvolveram contra os políticos.

Neste baile mandado da coligação que nos governa, constituída pela troika, pelo PSD e pelo CDS/PP, o único parceiro que tem tido alguma margem de manobra é, a meu ver, o parceiro mais pequeno, mas o mais hábil politicamente.

Estou mesmo convencido que se, porventura, houvesse uma crise política, cenário que não é de todo improvável, o único partido que se apresentaria como parte da solução, puxando pelos seus galões, seria o CDS/PP, parceiro com quem o PSD tem andado, literalmente, ao colo, com um impressionante receio de que Paulo Portas se zangue a sério.

Aquela velha ideia de que quem provoca crises políticas é fortemente penalizado nas urnas, é chão que deu uvas, sobretudo quando os protagonistas sabem, como Portas tão bem sabe, preparar o terreno e gerir a comunicação com o povo, arte em que é mestre. Basta analisarmos a forma expedita e magistral como tem lidado com as notícias que a seu respeito têm vindo a lume.

Caros leitores, neste baile mandado, Passos Coelho dança como pode, mas tem sido Portas quem dá o mote e o tempo, nesta relação de poder partilhado, em que o maior partido, por diversas vezes tem “metido o rabinho entre as pernas”… Se houvesse uma crise política, o que seria catastrófico e totalmente irresponsável, seria bem mais fácil para o CDS/PP tentar lavar daí as suas mãos e sacudir quase todas as culpas para cima do capote do PSD.

A estabilidade política é, para nós portugueses, mais do que uma necessidade, é verdadeiramente uma inevitabilidade, sob pena do colapso total e da consequente banca rota. Este é um facto sobre o qual ninguém tem dúvidas, mas Portas tem absolutas certezas, o que explica porque não receia esticar tanto a corda…

Victor Dias