Opinião Victor Dias: O professor Borges

Já se percebeu, há tempo suficiente que o professor Borges é o grande mentor deste Governo e, pelos vistos, também parece ser o único.

A reverência com que o Ministro Relvas nos remete, constantemente, para as doutas opiniões e verdades absolutas que o professor Borges profere, revelam duas coisas, por um lado significam a preocupante dependência ideológica de um académico que apenas tem a legitimidade dos seus diplomas, o que do ponto de vista político, a meu ver, é francamente curto. Por outro lado, deixam completamente a descoberto, a confrangedora fragilidade intelectual dos nossos governantes.

Confesso que ainda não consegui perceber como é que pessoas inteligentes e altamente habilitadas, como Nuno Crato, Assunção Cristas, Paulo Portas e mais uns dois ou três, conseguem conviver com tamanha incapacidade de produzir, de forma autónoma e independente, um pensamento político consistente que dê um rumo seguro ao país. Não creio que estas pessoas se sintam muito bem, nem gostem que as confundam com a insipiência intelectual e ideológica da maioria dos membros do Governo. Acreditemos que o fazem por imperativo de consciência nacional.

Pese embora o meu optimismo militante, mesmo nas circunstâncias mais difíceis da vida, isso não significa que eu perca o pé da realidade. Isto para dizer que tenho plena consciência que esta crise veio para durar e que o caminho para a sua resolução, ainda não começou verdadeiramente a ser trilhado. Será certamente um caminho de sofrimento, de imensos sacrifícios e de mudanças definitivas, sobretudo no que diz respeito ao nosso modo de vida.

Foi tendo essa consciência que os portugueses, acalentando a Esperança de que o PSD de Passos Coelho pudesse dar a volta e iniciar esse caminho, essa mudança de vida, lhe entregaram pelo voto, o poder político. Isto aconteceu porque a velocidade a que nos precipitávamos para o abismo, despertou no povo o mais puro instinto de sobrevivência, desejando ver-se livre, tão rápido quanto possível, da irresponsabilidade, da megalomania, da mentira e do mais surrealista desgoverno que Portugal alguma vez conheceu.

Pedro Passos Coelho, com a legitimidade que o povo lhe conferiu, foi chamado a concertar uma maioria parlamentar e formar um Governo estável, instaurando, num primeiro momento, um clima de Esperança e alguma confiança, sem ilusões ou surrealismos mirabolantes.

Entretanto, o nosso futuro tem sido aquilo que se tem visto e todos sabemos… Mas enfim, o Governo tem uma legitimidade democrática formal que é inegável e só nos resta aguentar até às próximas eleições, ou então, num cenário que não está de todo fora das probabilidades, que ele caia antes do fim do mandato. Tragédia que ninguém, com um pingo de bom senso deseja. Mas se isso acontecer, não nos poderemos queixar, é o preço a pagar pela Democracia. Um preço muito alto, mas incontornável.

Um dos problemas mais graves deste Governo, é do meu ponto de vista, o do seu mentor ideológico, o tal professor Borges.

O professor Borges fala aos portugueses do alto da sua pose catedrática, como se nós fôssemos todos muito burros, ao ponto de se irritar e usar uma linguagem, quanto a mim, imprópria de quem já foi reitor de uma universidade, empregado de um banco que foi à falência e levou a economia mundial para as ruas da amargura e, não esqueçamos, também passou pelo FMI, entre outros cargos de alto gabarito. Segundo se diz por aí, em certos “mentideiros”, a sua saída de todo o lado por onde passou, nem sempre foi pela mesma porta por onde entrou, ou seja, nem sempre saiu pelo pé dele, ao que parece, algumas vezes teve honras de convidado. Mas como diz alguém – “…isso agora não interessa nada”.

No final da semana passada, o professor Borges passou-se e insultou os empresários portugueses que não tiveram a inteligência de compreender o alcance do “TSUnámi” que varreu a vida política no dia em que a selecção jogou. O professor, visivelmente irritado, chamou com todas as letras, a esses empresários – “completamente ignorantes”…Não se contentou com o termo ignorantes, preferindo carregar na máxima graduação da sua adjectivação, para afastar todas as possibilidades dúvida e, assim, evitar de ter de sair novamente a terreiro, para reinterpretar as suas próprias palavras, como agora está na moda. Afinfou-lhes com um “completamente ignorantes” e ficou-se a rir…deles, dos empresários portugueses e de todos quantos com eles, trabalhando, financiam, com os seus impostos, o Estado que lhe paga principescamente, para verberar estes insultos.

É claro que as reacções não se fizeram esperar. O professor apanhou palmatoadas de todo o lado, desde as muito bem dadas pelo patrão dos patrões, o Presidente da CIP, António Saraiva, aos passistas militantes, como Mira Amaral e, pasme-se, Ângelo Correia que teve a coragem de sair a terreiro dizer que Passos Coelho tinha de tomar posição sobre este desmando do professor.

Já quando ouvi a reacção de Alexandre Soares dos Santos, dono do Pingo Doce, sorri de amarelo e percebi que entre os empresários completamente ignorantes que estavam na cabeça do professor Borges, estavam com toda a certeza, os Azevedo, particularmente o novo líder do grupo, Paulo Azevedo, empresário que teve uma das mais sensatas e razoáveis tomadas de posição sobre o furacão TSU.

Escusado será de vos lembrar que o professor Borges também é mentor do grupo Jerónimo Martins, entrando sem querer, ou talvez não, naquela velha querela que é própria de quem compete e disputa o mesmo mercado. O professor, sendo um fundamentalista do neo-liberalismo, entrou direitinho que nem um fuso, numa picardia concorrencial que apenas diz respeito às duas insígnias versus duas famílias.

Caro professor Borges, o “stôr” ficou muito mal nesta fotografia e, como alguém dizia, se perder o tacho que tem, para tratar do desmantelamento do Estado e a perninha que faz na Jerónimo Martins, o melhor é seguir o conselho do Pedro e emigrar. Olhe que ele é bom pai e bom cidadão e só dá bons conselhos no “facebook”…

Fico sem saber se esta irritação toda que já contaminou uma boa parte do Governo, não esconde uma estratégia de afastamento dos empresários portugueses das apetecíveis privatizações das parcas jóias da coroa que ainda nos resta desbaratar.

Com esta arrogância académica de quem não passava os nossos empresários do 1º ano de uma faculdade onde o homem fosse reitor ou professor, o diálogo e as pontes de contacto entre o professor Borges e os nossos empresários, atingiu uma temperatura de tal modo glaciar que vai ser difícil operar o degelo, quando forem anunciados os critérios para as privatizações que este comissário (não político) está a arquitectar, quiçá, usando régua, esquadro e compasso, para que as medidas desse projecto assentem bem, muito bem, em quem lhe encomendou o fato.

Enquanto cidadão gostei de ouvir alguns empresários portugueses falar, com bastante sensibilidade social, dos inconvenientes e riscos sérios de um abaixamento severo nos salários das pessoas, dando razões concretas para as suas fundadas preocupações, como muito bem explicou Paulo Azevedo, líder do grupo SONAE.

Foram essas palavras sensatas e objectivas de Paulo Azevedo que, provavelmente, mais irritaram o professor Borges que certamente ficou preocupado com as dificuldades em convencer os chineses em investir nas privatizações que o Governo quer levar a cabo, sem garantias de que os portugueses vão deixar de ser cigarras para se tornarem, como Pequim gosta, formiguinhas com salários de miséria.

Como diz o nosso povo, sabe largo este professor Borges…mas a nós já não nos atira com areia para os olhos. E segundo se consta, há no seio do Governo e dos dois partidos que o sustentam, muita gente a quem ele não convence.

Ah!.. É verdade!?…Não me lembro de ter votado neste senhor professor Borges, nem sequer de ter visto o nome dele nas listas de candidatos de nenhum partido…

A sua legitimidade política nem sequer é formal, é completamente nula…

A sua arrogância é imprópria de um professor catedrático, ainda que esteja completamente convencido da exclusividade da sua razão. Talvez o professor Borges não saiba, mas a boa educação é o depósito base de toda a Pedagogia e sem isso, todas as lições são inúteis, ridículas e completamente contraproducentes. Pode crer, são mesmo completamente…

Victor Dias