Opinião Victor Dias: Isabel Jonet a banqueira dos pobres

A semana passada acabou por ficar marcada por mais um “sound byte” extraído de uma intervenção pública de Isabel Jonet. Uma intervenção que não foi fruto de nenhuma reflexão escrita, cuidada e atempada, mas apenas da necessidade de dar respostas a perguntas curtas e directas feitas pela jornalista que ali estava para fazer o seu trabalho.

Porque não gosto de me pronunciar sobre excertos cirúrgicos que são “criteriosamente” descontextualizados, obedeci à minha consciência e fui ao “YouTube” para ver e ouvir na íntegra, as palavras que suscitaram tanta polémica.

lavar dentes

Como certamente já aconteceu a muitos leitores, de novo descobri a utilidade de algumas matérias que aprendi na faculdade, nomeadamente tudo quanto se refere à problemática da linguagem e da adequação da forma, face à substância do conteúdo e necessária eficácia da sua comunicação.

Após algumas repetições do filme, comecei a formar uma opinião mais justa sobre o sucedido e, na verdade, tenho de reconhecer que Isabel Jonet, não estaria nos seus melhores dias, do ponto de vista da comunicação oral, tendo sido um pouco infeliz, sobretudo na forma como abordou, aquilo que afinal não passa de uma constatação particular da realidade, por parte de alguém que tem uma experiência social muito rica.

É muito interessante perceber que toda a linguagem, mormente, a que é proferida por actores sociais de grande visibilidade mediática, ainda que os seus autores o não desejem, tem inevitavelmente uma interpretação ideológica e política. E Isabel Jonet, involuntariamente, pôs-se a jeito, para que toda uma panóplia de “bloguistas”, “ciber opinadores” e “internautas das redes sociais”, encontrassem nas suas perspectivas da realidade, uma das mais estimulantes oportunidades para acusar, julgar e condenar, porventura, sem apurar convenientemente os factos, produzir prova suficiente e ignorando as montanhas de atenuantes. Enfim, nada que nos possa surpreender, pois não é essa a mentalidade dominante e alimentada pelos média?…

Método de “rajada”

Talvez eu dissesse coisas semelhantes, mas de outra forma e acrescentando pequenos pormenores que enquadrassem o discurso num contexto mais abrangente. Contudo, não sei se seria capaz de dizer melhor, se estivesse a ser “bombardeado” com perguntas, naquele método de “rajada” que não nos deixa acabar uma resposta e já está a cortar o raciocínio, “disparando” outra e mais outra pergunta.

Também penso que passamos, de uma forma abrupta e que está a ser dolorosa, da sociedade da abundância para a sociedade da escassez. E é esta constatação que nos vai obrigar a alterar o nosso modo de vida. Vamos ter de ser mais eficientes na gestão dos escassos recursos.

Mesmo que tenhamos possibilidades de lavar os dentes deixando a torneira a correr, não o devemos fazer porque é imoral desperdiçar um bem que não é inesgotável e que precisa de ser poupado, no tempo de maior disponibilidade, para termos reservas em períodos de escassez.

Não vejo mal algum que ensinemos os nossos filhos a saber dar o justo valor aos bens que consomem, reconhecendo que a sua obtenção é fruto do esforço de alguém, seja dos pais ou mesmo deles próprios.

A experiência de vida dos nossos avós e pais, deu-lhes um senso de economia doméstica em que nada se perdia, tudo era aproveitado, numa atitude de profundo respeito pelo valor dos bens.

Qualidade de vida

Na minha casa, quer eu quer a minha esposa, embora já tivéssemos crescido tendo acesso a bens que os nossos pais não tiveram, fomos habituados a valorizar como ganhos evolutivos, tudo quanto eles nos deram e nos foi apresentado como novidade e conquista da melhoria da qualidade de vida.

É mais ou menos por aqui que eu interpreto o discurso de Isabel Jonet, embora entenda que se poderia acrescentar muita coisa que iria impedir que colassem o seu discurso ao poder e, em particular, ao discurso do Governo. Porque foi esse verdadeiramente o problema.Foi o facto de Isabel Jonet ter colocado a tónica essencialmente nas famílias e não ter tido uma palavra sobre a enorme pressão que sobre elas foi exercida, por quem lhes vendeu o sonho da sociedade de consumo e da enganadora abundância para sempre.

Não se pode pensar que as famílias viveram acima das possibilidades, por sua irresponsabilidade ou falta de cultura económica.

A verdade, é que as famílias portuguesas foram literalmente “empurradas” por uma propaganda extremamente agressiva que a banca fez incidir sobre elas, nos anos 80 e 90, abrindo os cordões à bolsa, para emprestar a torto e a direito, para compra de casa, de automóvel, de mobiliário, de férias paradisíacas e toda a sorte de bens de consumo.

Se bem se lembram os leitores, os sucessivos governos até apoiaram essa política comercial dos bancos, com bonificações aos juros e incentivos fiscais ao crédito à habitação e, participaram proactivamente no aliciamento dos casais jovens, naquele tempo em que ser jovem era o que estava a dar…

Irresponsabilidade

O regabofe do endevidamento teve até os maiores exemplos de irresponsabilidade, vindos precisamente de governos e de poderes que dispunham de quadros técnicos altamente especializados nas áreas económicas que os habilitavam a ser mais prudentes e cautelosos. Mas a verdade é que estamos agora debaixo de um humilhante ajustamento, quer dizer empréstimo, tendo de aceitar todas as imposições externas dos nossos credores.

Foi nessas duas décadas e nos primeiros anos deste século que a economia ocidental, Europa e Portugal incluídos, se deixou aprisionar pelos esquemas gananciosos dos agentes da alta finança internacional, subvertendo toda a lógica que se ensina nas faculdades e escolas de economia. É aí que os futuros economistas aprendem a pensar e lhes tentam inculcar que esta Ciência está ao serviço do desenvolvimento humano, para apresentar soluções de melhor e mais eficiente produção e distribuição de riqueza. Que eu saiba, e não sou economista, ninguém estuda essa Ciência para se deixar enredar numa teia financeira que hipoteque várias gerações vindouras. Estou convicto de que o problema mais grave da globalização é o facto de o Mundo, não estar a ser gerido segundo um modelo económico de desenvolvimento humano, mas de se ter deixado subjugar por um esquema multinacional de circulação de capital, ou seja, quem verdadeiramente governa neste momento o Mundo, é a especulação financeira. Ora, isto é a perversão total da ordem política e económica internacional. E é tão verdade que até os governos das nações perderam a sua soberania, independência e capacidade de decidir sobre o futuro dos seus povos, quanto mais as pobres famílias.

Posto isto, julgo que neste cartório, não há ninguém que possa atirar pedras para os telhados de vidro dos outros, porque os seus são do mesmo material, tão ou mais frágil.

É por isto que eu pergunto ao senhor Ulrich se ele aguenta o peso que o seu banco tem na consciência? A quantas famílias emprestaram dinheiro, para além do que permitia ou recomendava a sua taxa de esforço?… Pois é, é que os objectivos de conquista do mercado de crédito levaram a que fossem cometidas muitas tropelias.

É preciso ter cuidado com o que se diz e como se diz… Só quem não tem consciência das suas responsabilidades na situação a que chegamos pode dizer levianamente: -“…mais austeridade… ai aguenta, aguenta…”.É imoral Sr. Ulrich!…

De todo o modo, a minha condição de crente, não me permite julgar quem quer que seja, principalmente julgar as pessoas pelas palavras, e muito menos fazê-lo de forma parcial e capciosa. Não é esse o meu timbre.

Lamento e acho muito perigoso e irresponsável que pessoas com acesso a meios de comunicação poderosos, venham a terreiro por em causa a honorabilidade e o mérito de uma Mulher que é proprietária de um currículo que nos merece o devido respeito, que para mim é todo.

Isabel Jonet é a Presidente do Banco Alimentar contra a fome, mas é antes de mais uma cidadã que tem vida própria e direito, como todos nós, a ter livre opinião e uma concepção própria sobre a vida e a sociedade.

O seu passado de voluntária ao serviço da instituição, é claramente revelador da sua atitude, ou seja, não há notícia que o seu pensamento tenha condicionado ou se tenha imposto, como orientação ideológica da actividade do banco alimentar, bem pelo contrário, a sua acção tem demonstrado, isso sim, uma competência e eficiência completamente irrefutáveis.

Lapsos

Não é justo, não é honesto que se agarre um momento de comunicação que, na verdade, não foi dos mais felizes, mas que não deve servir para defenestrar todo o património moral e ético de uma pessoa que é exemplo para todos nós.

Deitemos a mão na consciência e pensemos em todos aqueles actores públicos, desde os Presidentes da República, Primeiros-Ministros, governantes em geral, líderes políticos, hierarcas religiosos, dirigentes desportivos e outras pessoas com altas responsabilidades que ao longo das suas carreiras já tiveram momentos menos felizes, dizendo o que não deviam, não queriam ou tiveram mesmo “lapsos linguae”.

O mais grave, neste julgamento apressado e sumário feito na praça pública, é que a condenação do carácter desta pessoa pode sentenciar perigosamente a desmobilização de muitos voluntários cujo trabalho e generosidade solidária é imprescindível ao cumprimento da missão do banco.

Essa legião de pessoas sensíveis e generosas, ao deixarem-se influenciar por mais um “fait divers” que serve na perfeição a desesperada sede que certos sectores da sociedade demonstram, por encontrar alguém, seja lá quem for, para “linchar” em público, podem por em risco uma obra que é motivo de orgulho para todos nós portugueses. Temos de compreender que o contexto político e social em que estas afirmações são produzidas por Isabel Jonet, é de uma extrema crispação e contestação transversal, facto que amplificou inesperadamente as suas palavras, catapultando-as para a ribalta mediática. No entanto, estou plenamente convencido que se ela tivesse incluído na sua análise, uma crítica ainda que dissimulada ao governo, ou ao Primeiro-Ministro, o que até poderia fazer um certo sentido, as coisas talvez já não tivessem tido o rumo que levaram.

Banco

Pensemos pela nossa cabeça e não nos deixemos contaminar por detalhes de linguagem ou por processos de intenção lançados na opinião pública, por agentes incendiários que estão permanentemente à espreita, ávidos de uma gafe alheia, para derramar gasolina e fazer arder na fogueira da nova inquisição mediática, servida por redes sociais, onde os murais se enchem de acusações e laudos condenatórios, lavrados em petições electrónicas, quase sempre anónimos ou escondidos por detrás de falsas identidades, que na maioria das vezes não podem ser confirmadas.

Sejamos sérios, coerentes e consequentes e saibamos olhar para tudo isto, como os sinais dos nossos tempos.

Eu, continuarei sempre apoiar incondicionalmente, todas as acções concretas lideradas por Isabel Jonet, seja no Banco Alimentar contra a fome, ou noutras iniciativas por ela conduzidas, simplesmente por que, para além do que ela possa dizer em público, confio na sua pessoa e como cidadão reconheço a grandeza e generosidade do seu trabalho voluntário que não é de hoje, é de há mais de vinte anos.

Para mim, Isabel Jonet é a banqueira dos pobres.

Victor Dias