Opinião Victor Dias: Autárquicas a mexer

Já corre o ano 2013 e o calendário eleitoral começa a marcar as agendas dos políticos, particularmente as dos autarcas.

Como diz a canção, toda a gente sabe que a vida para os autarcas do PSD e do CDS não vai ser nada fácil, face à pancada que poderão apanhar, nas malhas do voto de protesto e, muito pior do que isso, do voto de revolta. Essa será uma situação, provavelmente, muito agravada pela enorme abstenção que se adivinha.

No balanço entre a pouca motivação para ir votar e a “raiva” de quem há-de ir às urnas para descarregar a sua ira, a coisa não deve ser muito favorável ao maior partido do Governo que ainda é também a maior força política autárquica.

Aos candidatos que vão carregar consigo a sigla do PSD ou do CDS, está reservada uma missão quase impossível. Uma missão já de si árdua, quer pela falta de meios para fazer alguma coisa de visível que possam mostrar como bandeira eleitoral, como pelas dificuldades importadas, traduzidas em intervenções desastrosas de Miguel Relvas que quando abre a boca, o PSD perde logo uns milhares de votos e umas dezenas ou mais de militantes. Veja-se o que aconteceu com o apoio despropositado e, completamente, fora do contexto temporal, que o “rapaz” quis dar ao putativo candidato do PSD a Lisboa, lançando Fernando Seara para a torradeira de nomes improváveis, quando até se perfilava como um candidato com potencial. Ao que sei, e estou razoavelmente bem informado, há uma imensa maioria no seio do PSD e até no próprio Governo, que deseja ardentemente ver-se livre deste camarada Relvas cujos estragos na imagem do partido e do executivo, se revelam cada vez mais irreparáveis.

Vote

Teimosia

Continuo teimosamente a acreditar na Democracia como o menos mau dos regimes políticos, mantendo alguma esperança nas suas mais emblemáticas virtudes, por isso mesmo entendo que o poder local, autárquico, não deve estar sujeito às lógicas partidárias nacionais.

Os valores, os anseios, as expectativas e as necessidades que as pessoas precisam de ver satisfeitas e acauteladas pelo poder autárquico, são em certos aspectos inconciliáveis e até opostos, aos que o poder central tem de considerar. Por isso mesmo, não me parece que os candidatos ao poder local tenham de estar sujeitos a lealdades e alinhamentos estratégicos de partidos sediados em Lisboa.

No entanto que fique bem claro que aquilo que acabo de defender, não é de todo aplicável à matéria dos princípios e dos valores fundamentais que cada partido inculca no seu ideário. O primado da Lei, do Direito Democrático, da separação dos poderes e todo um conjunto de princípios políticos doutrinários devem estruturar o pensamento de quem nos governa a nível local.

Será, a meu ver, na demonstração desta habilidade política, desta capacidade de integrar e conjugar os valores fundamentais do pensamento político e de manter o distanciamento necessário com o poder macrocéfalo que centraliza os recursos e distribui apenas as carências e os sacrifícios pelas regiões e pelo poder local que os futuros candidatos autárquicos que levarem consigo o fardo da sigla da actual maioria, conseguirão atenuar os danos colaterais e combater o efeito anti-Relvas/Gaspar/Passos Coelho.

Imaginação

Há poucos dias, numa conversa que tive com o Dr. Silva Peneda, ele dizia-me que os técnicos europeus, por mais qualificados e competentes que sejam, são tudo menos imaginativos e criativos. E tem toda a razão o Dr. Silva Peneda, pois é justamente por isso que o fazer político não pode estar, ou melhor não pode estar somente, entregue a pessoas cuja estrutura de pensamento é demasiadamente executiva e muito baseada em modelos técnicos e académicos que, invariavelmente, conduzem a uma redutora visão da realidade, pouco sensível ou permeável à dimensão social da política. É claro que o ideal seria termos políticos que reunissem o melhor destes dois mundos, o da competência técnica e o da sensibilidade social. Mas isso?…É verdade, lembrei-me agora que Vítor Gaspar era um desses euro-técnicos!…

Pode até parecer perverso, mas o melhor que podia acontecer aos autarcas do PSD e do CDS era que o Governo sucumbisse às mais do que certas chumbadas do Tribunal Constitucional. Enfim, estamos num tempo em que somos forçados a pensar numa lógica das escolhas em que do mal sempre o menos, o que não deixa de ser dramático.

Apesar do frio e das baixas temperaturas que se têm feito sentir, a temperatura da política local está a começar a aquecer, embora desta vez, com os partidos da maioria a mandarem de quando em vez, uns baldes de água gelada que deixam os seus líderes locais a tremer de choque “térmico”…

Não é segredo para ninguém que sou Social-democrata convicto, embora tremendamente crítico dos actuais dirigentes nacionais do meu partido, a quem não reconheço competência, nem visão política capaz para serem governantes. É por esta razão e pelo amor que tenho à terra que me viu nascer que nas próximas eleições autárquicas o meu partido é, unicamente, a Maia e é nesse combate que vou estar, activa e empenhadamente para que o nosso futuro local não seja contaminado por um sentimento que nos pode tolher a racionalidade, a revolta.

Victor Dias