Opinião Victor Dias: Praça da Alegria cheia de tristeza

Tudo quanto aconteceu ao programa “Praça da alegria” é, a meu ver, profundamente sintomático do que está a acontecer, de um modo escandaloso, à região norte.

Na verdade, apesar dos protestos da população, das imensas manifestações de solidariedade e de um clamoroso sentimento de perda, a nossa Praça lá foi, do Porto para Lisboa.

Os argumentos invocados por quem decidiu, eram frágeis e nada convincentes, embora alinhem com o sentido de democracia musculada, a roçar tiques de autoritarismo ditatorial que não são próprios de quem merece ter e estar no poder, não apenas porque, num momento dramático do país, recebeu o voto maciço de protesto, legitimando dessa forma o seu poder. Um poder que não foi entregue para isto…

Sou um cidadão que entende a cidadania democrática como uma dimensão da vida em sociedade que nos convoca para os deveres, mas que reclama direitos. E um desses direitos é ser respeitado, em face da integração dos anseios colectivos, na sua identidade cultural.

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Serviço Público

Este programa de serviço público que o Centro de Produção do Porto levou até nossas casas, durante mais de vinte anos, foi sem dúvida um modelo de produção de conteúdos que integrava numa manhã plena de alegria, boa disposição e matérias sempre interessantes, a essência de um povo, do seu modo de ser, ver e estar no Mundo e para o Mundo. Um programa que fazia a diferença no espectro televisivo de canal aberto, face a tudo o resto que era possível ver no mesmo horário.

O que deixamos que fizessem com a “Praça da alegria” foi que nos faltassem ao respeito, que nos desprezassem e se estivessem completamente nas tintas, para o que queremos, temos direito ou mesmo para o que somos.

Fecharam-nos uma janela para o Mundo e abriram um postiguinho, para nos calarem, mas estou certo, não será por muito tempo.

Toda a gente sabe que o objectivo é mesmo fechar a RTP no Monte da Virgem e despedir as pessoas, por isso, a “malta” de Lisboa tratou de arrastar para lá este precioso espaço, para justificar os empregos deles. Assim, quando tocar a despedir, quem se vai tramar são os trabalhadores do Porto. A isto só se pode chamar uma coisa muito feia que, por decoro, não posso dizer aqui…

Haja seriedade e respeito pela dignidade de quem trabalha e dos telespectadores nortenhos.

O ataque ao Norte não se resume a isto, bem pelo contrário, ele é bem mais fundo e infame. Veja-se o que está a acontecer com o racionamento de certos medicamentos para tratar doenças oncológicas cuja prescrição não é autorizada de Leiria para cima, como se queixaram recentemente médicos e doentes dos hospitais de Coimbra e Porto.

É caso para perguntar, onde estão os líderes fortes do Norte que se deixam vergar a semelhante discriminação e humilhação?

Rui Rio ainda mandou umas “bujardas” em alguns jornais e meios de comunicação social que passaram as suas declarações em horários de pouca audiência, pelo que a sua indignação, praticamente, foi inócua.

Já Filipe Menezes, mandou umas bocas e apressou-se a embandeirar em arco, quando Alberto da Ponte veio dizer que o canal 2 vinha inteiramente para o Porto, como se isso fosse alguma vitória, mas só se for de Pirro…

É por estas e por outras que considero a regionalização e consequente autonomia política do Norte, uma emergência, sob pena de Portugal sucumbir à macrocefalia centralizadora de Lisboa que suga tudo para lá e para o vale do Tejo.

Respeito

Se o Norte fosse já hoje uma região autónoma, política e administrativamente, outro galo cantaria e ninguém no poleiro em Lisboa se atreveria a atentar contra a nossa dignidade e honra.

Basta, basta de desprezo, de insulto à nossa identidade cultural e até à nossa inteligência.

A unidade nacional é um valor absoluto que defendo tenazmente, mas que será tanto mais consistente e duradouro, quanto mais as regiões se possam afirmar e desenvolver harmoniosamente, num equilíbrio de forças, de recursos e de gestão política e administrativa, mas não, nesta “caboyada” em que é tudo para os “xerifes” em Lisboa.

Nós, nortenhos, queremos é Justiça e respeito…

Este poder, independentemente da sua cor ou ideologia, não representa mais do que uma mão cheia de interesses instalados no seu núcleo mais central. Este poder tem um programa próprio que visa fundamentalmente concentrar sobre esse núcleo, os centros de decisão e os recursos, para desse modo, executar o seu plano e distribuir o pouco que é tempo de dizer basta e afirmar a nossa indignação com toda a veemência que nos for possível.

Victor Dias