Opinião Victor Dias: Passos Coelho quer que se lixem: o Norte, as eleições autárquicas e a Maia…

Quando vi no telejornal de uma das televisões, o autarca da Maia, Bragança Fernandes, insurgir-se veementemente contra mais uma medida fortemente penalizadora e discriminatória, para a Maia e para o Norte, tive de repente a sensação de que estava perante um autarca da oposição à maioria, tal era a indignação e, diga-se em abono da verdade, irritação que demonstrava, face a mais um desrespeito pelas suas gentes.

Passos Coelho tem razão ao afirmar – “… que se lixem as eleições…” – porque de facto o homem é coerente, ele não atribui grande importância às eleições, nem sequer percebe quanto elas são a essência da legitimação do poder democrático. Por exemplo, do poder que os incautos portugueses lhe entregaram de bandeja, embora torçam bem a orelha.

O nosso Primeiro também se está nas tintas para o poder local, que porventura encara como esse bastião do baronato “caciquista” que se alia às populações e as leva para a rua, em manifestações e protestos de revolta contra o heróico Governo que tudo está a fazer para nos tirar desta situação e levar para qualquer lado, desde que seja do agrado dos “sacrossantos” mercados, de onde lhe provém toda a inspiração e força. Ora vejam lá se não é uma suprema ironia do destino, esta desfeita e propositada ignorância daqueles que ajudaram a eleger a actual maioria.

Poder local

É claro que o poder local, mesmo aquele que foi sucessivamente conquistado pelas hostes locais do PSD e arrecadou para o partido, as mais expressivas e arrebatadoras maiorias, como é o caso da Maia, não tem interesse nenhum para Passos e Relvas. Esses senhores das câmaras e das juntas são uns esbanjadores que só se preocupam com as pessoas, com questões sociais e de solidariedade, com a qualidade de vida e coisas assim, pequeninas e comezinhas, que não são grandes desígnios nacionais, como as privatizações das jóias da coroa e tudo aquilo que ainda dá lucro e é muito apetecível para o tal mercado.

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Era importante que a Associação Nacional de Municípios viesse esclarecer o povo, do peso real que tem a dívida dos municípios, toda junta, no cômputo geral da dívida do Estado. É que na verdade, as grandes gorduras não estão aí, as gorduras que o Governo ainda não conseguiu cortar, estão lá na Capital e bem ao alcance do olhar dos políticos da maioria. Eles é que fazem vista grossa.

Compreendo muito bem que o autarca da Maia se irrite e mande o Governo que, por acaso é do seu partido, às ortigas. Vejo nisso um sentimento de reciprocidade, é que Passos Coelho também quer que a Maia se lixe. Se assim não fosse, não nos tinha cercado com pórticos para nos obrigar a pagar portagens para entrarmos, com alguma qualidade de acessibilidade, nas nossas casas.

Não há outra saída

É curioso, é mesmo muito curioso e irónico que Passos Coelho tenha conseguido unir as hostes nortenhas, apesar mesmo das diferenças partidárias, numa frente comum contra o poder central. Se esse era o objectivo, pois bem, muitos parabéns, está a conseguir esse desiderato com toda a eficácia.

Calculo o que deve custar ao Presidente da Câmara da Maia ter de dar a cara e dizer das boas ao Primeiro-ministro, mas na verdade não lhe resta outra saída, tem mesmo de erguer a voz e cortar a direito. E estou convencido que isto é só o começo, a ver vamos o que para aí virá.

Sou social-democrata, sou Cristão e Humanista, por isso me insurjo total e frontalmente contra o que este Governo está a fazer ao meu país, ao meu povo, aos nossos jovens, idosos e a toda a população. Mas também lamento imenso o que Passos Coelho está a fazer ao PSD, pervertendo completamente a sua matriz ideológica e aniquilando definitivamente o seu carácter inter-social.

O drama maior é que ele está determinado em cumprir o seu plano neo-liberal tão depressa quanto possível, não vá Cavaco tecê-las ou o acaso provocar uma qualquer convulsão social e política e ele já não ter tempo de acabar de virar tudo do avesso, como se comprometeu com aqueles que lhe garantem o futuro, depois de S. Bento. Ou alguém tem dúvidas?…

Tenho algum receio quanto ao modo, quanto às circunstâncias e “timing” em que o Norte vai reagir contra o poder central, mas sobre isso não tenho dúvida nenhuma, que tarde ou cedo, vai acontecer se o poder político da Capital não parar de atentar contra os interesses da região e, sobretudo, se insistir nesta já crónica falta de respeito.

Ainda bem que Bragança Fernandes percebeu a quem pertence, porque na verdade, antes da família política há outros laços que falam bem mais alto. São esses laços que constituem o ADN dos autarcas, não são as lealdades ou os alinhamentos partidários de circunstância.

Se Passos Coelho continuar com esta arrogância, se prosseguir com esta falta de respeito pelas gentes do norte e se não corrigir os estragos que já fez, prevejo que o Presidente da Câmara da Maia vá ter de dar ainda mais “porrada” no Presidente do seu partido, mas como diz o outro, aquele que quer ir para o Porto: – “…é a vida, a gente tem de fazer escolhas…”, ou estamos com os nossos, ou estamos com os que querem que a gente se “lixe”…

Victor Dias