Opinião: O estado da política na Maia

Numa minha prosa anterior tive já ocasião de lembrar que este é um ano eleitoral autárquico, facto que mexe com imensos neurónios, num fervilhar de ideias que, não raras vezes, deixa alguns estrategas muito baralhados, sem saberem muito bem o que fazer, ou para onde cair.

A História, embora pareça, nunca se repete, mas como diz um amigo meu, com uma certa piada, rima muitas vezes. E, na verdade, é o que vai acontecendo, vão aparecendo por aí umas rimas que tresandam a “déjà vu”, mas com novos contornos.

Descontando os “fait divers” que vão animar o nosso ano político, será porventura bem mais interessante lançar um olhar sobre a situação e condições políticas das forças partidárias que terão possibilidades de disputar o poder local na Maia.

Comecemos pelo PSD, um partido completamente hipotecado a Bragança Fernandes que detêm nas suas mãos, a esmagadora maioria do capital político eleitoral, adquirido nas últimas autárquicas, nas quais logrou estabelecer no Executivo Municipal a histórica relação de forças que contrapõe 8 mandatos da maioria que governa a Câmara Municipal, contra 3 da oposição. Este facto é demolidor para qualquer tentativa de tomada do poder que possa ocorrer por dentro do PSD da Maia.

Além dos seus efeitos psicológicos que são altamente condicionadores, neutralizando todas as hipóteses de confronto político interno, o que não é necessariamente bom, a verdade é que os factos têm uma força muito difícil de conter.

Face a esta realidade, o PSD da Maia tem o seu problema de legitimação do candidato que vai encabeçar a sua lista à Câmara da Maia, naturalmente resolvido.

Trunfos e derrotas

A outra face da moeda, é que não tem quaisquer possibilidades de impor o que quer que seja a Bragança Fernandes, posto que, como será muito fácil de compreender, a sigla PSD não é, nestes tempos que correm, uma mais-valia para o candidato. O contrário sim, é uma verdade absoluta, se o PSD não levasse Bragança Fernandes como cabeça de lista, arriscar-se-ia à maior derrota de sempre na Maia. Estou convicto de que só com este candidato, se poderá contrariar o voto de protesto e o desinteresse pela política que grassa na nossa sociedade, sendo que este desinteresse se vai traduzir, com maior ou menor intensidade, na abstenção. Vai ser este o maior combate político de Bragança Fernandes, o de tornar claro que a Maia não é Lisboa e que ficar em casa não resolve nada.

Ao PSD da Maia basta ter juízo e tento em alguns militantes com responsabilidades assumidas, para que compreendam como é importante não pensarem, pelo menos para estas eleições, no seu projecto de poder pessoal, por forma a não beliscarem a imagem do candidato.

Bragança Fernandes, a meu ver, encontra-se já em período de reflexão e, embora não tenha saído a terreiro para guisalhar aos quatro ventos que é candidato, todos sabemos que o será, consciente da responsabilidade que lhe cabe e que não lhe permite, sair da cena política, num tempo em que o combate, para o PSD vai ser muito, mesmo muito, duro.

Será precisamente a dureza do combate político que se avizinha, o maior desafio de Bragança Fernandes, cujas escolhas vão ter de ser extremamente criteriosas. Escolhas pessoais muito exigentes que não poderão ignorar os factores políticos de âmbito nacional e o seu peso, nas variáveis eleitorais autárquicas. Terreno onde a oposição se prepara para apostar forte.

Coligação?

No tabuleiro do xadrez político-partidário da Maia, há ainda uma peça chamada CDS/PP, cujo posicionamento local vai depender, e muito, da relação de facto que existe no seio da maioria parlamentar que sustenta o Governo, uma relação que nunca foi, nem será um casamento feliz. É claro que também vai depender bastante da vontade de Bragança Fernandes e da estrutura local do CDS/PP, em articulação com os órgãos regionais deste partido.

Seja como for, os grandes trunfos estão na mão do actual Presidente da Câmara e líder do PSD da Maia, o que não deixa de ser simultaneamente uma enorme vantagem, mas que acarreta uma grande responsabilidade e risco político. E o risco é a sua inevitável saída de cena, caso as coisas não lhe corram de feição, o que dificilmente acontecerá, bastando que Bragança Fernandes continue a pensar, como sempre o fez, primeiro nas pessoas e na Maia e só depois, muito depois, no resto, ou seja, na cena política partidária.

Bragança Fernandes não precisa de grandes conselheiros políticos, e talvez não precise muito mais do que manter-se igual a si mesmo, quer dizer, ser afável nas relações humanas, continuar a preocupar-se com as pessoas e com as suas condições de vida e manter-se disponível, como sempre o fez, para acolher e atender quem o procura, numa acção de proximidade social que é, nos dias que correm, pouco comum. Esta é a marca pessoal de um político que embora tenha já uma grande experiência de liderança, não apresenta ainda nenhum tique dos que caracterizam os políticos carreiristas.

E o PS?

Por seu lado, o PS também já mexe e não perdeu tempo em anunciar o seu candidato à Câmara, estando no terreno a procurar mobilizar as suas hostes locais. Para já, não se pode ainda formar qualquer opinião sobre o seu candidato, pois o que se sabe, é claramente insuficiente para que possamos formular uma análise minimamente credível e bem fundamentada.

Como afirmam os politólogos, quem está na oposição não é propriamente candidato à vitória, corre é mais atrás do prejuízo, porque o que normalmente acontece é que quem está no poder, é que pode perder eleições.

Convém no entanto ter em atenção que o PS vai, certamente, explorar como lhe compete todos os factores exógenos que possam ser utilizados no combate político concelhio, o que constituirá motivo de grande interesse para a análise e comentário.

Em jeito de conclusão, não posso deixar de lembrar que, tal como se tem verificado sempre, nestes períodos de pré-campanha eleitoral, o que desconta são os erros políticos, de estratégia e de comunicação. Avisados desta fatalidade, resta aos protagonistas locais, pensar e agir com a máxima assertividade e evitar cometer erros, mesmo aqueles que, embora aparentem pouca relevância, se tornam por vezes clamorosos.

Victor Dias