Opinião Victor Dias: “Bluff” o jogo mais perigoso da política

Todos nós sabemos bem que há muito “bluff” no discurso político. Digamos que “bluff” é uma forma ténue de encarar aquilo que, em muitos casos, não passa de mentira descarada, hipocrisia e cinismo.

As mais recentes notícias que nos chegam da península coreana, revelam para alguns, um discurso impregnado de “bluff”, para outros, uma estratégia geopolítica para a região, que tem “…por detrás dos arbustos, uma mão escondida…”, a mão de uma super potência que está claramente interessada nesta, para já, guerra de palavras e de nervos. Nervos esses que têm de ser de aço inoxidável.

Este é um caso de estudo, de estratégia geopolítica e militar, verdadeiramente único, atendendo à novidade dos contornos que o caracterizam.

O objecto central deste caso que importa estudar com a máxima atenção e mil cuidados, como quem manuseia organismos altamente letais, tendo de respeitar todas as regras de segurança máxima que se recomendam a um ambiente laboratorial, onde ao mais ínfimo descuido ou erro metodológico, o agente em análise, pode sair do nosso controlo, e disseminar-se de forma explosiva, com consequências imprevisíveis e, porventura, catastróficas, mudando de um momento para o outro, toda a lógica do sensível equilíbrio geopolítico e militar global.

pomba branca

Para além das informações militares e políticas que os Estados Unidos e outros países da Nato e da região, como a Coreia do Sul e o Japão, certamente detêm em seu poder, recolhidas pelos satélites espiões e pelos seus serviços secretos, informações sensíveis e qualificadas por peritos, cuja fiabilidade, mesmo assim, é sempre questionada, o que existe de muito concreto para esmiuçar, é o discurso inflamado de Pyongyang, e a incerteza quanto ao que vai na cabeça do mais recente líder da Coreia do Norte, o misterioso Kim Jong-un, cuja personalidade faria os melhores psicanalistas do Mundo, soar as estopinhas para perceber a sua tortuosa mente.

Um discurso fortemente agressivo, provocador quanto baste e cirurgicamente proferido, por vários meios e canais, tornando a sua análise crítica, um verdadeiro quebra-cabeças para os especialistas em guerra psicológica e discursiva, é para já, o que de mais concreto circula no espaço mediático, enquanto pelo ar vão passando os mísseis das experiências militares.

Aquilo que me preocupa, como cidadão ocidental, é o facto de perceber, com alguma lucidez que, nem os Estados Unidos, nem o Japão e a Coreia do Sul, têm informação fidedigna que lhes permita avaliar com um grau de probabilidade razoável, a extensão do “bluff” e o fundo de verdade que existe nas ameaças da Coreia do Norte.

É esta incerteza que impede os aliados na região, mormente os três países que referi, de organizar uma resposta coordenada e com uma eficácia calculada, para meter na ordem, internacional, aquele ponto do “eixo do mal”, como lhe chamou o Sr. George. W. Bush, no seu tempo, talvez mais bem informado sobre o carácter do líder norte coreano dessa época, certamente mais previsível e mais ciente de que não se deve, nem pode, brincar com o fogo.

A situação é muito, mas mesmo muito complexa, e começa a atingir um ponto de ebulição altamente difícil de conter. Digamos que está a chegar a um nível tão elevado que, qualquer faiscazinha, pode inflamar tudo e despoletar um conflito bélico que ninguém pode prever como se extinguirá e que rasto de destruição deixará atrás de si.

Não tenho dúvidas que no Pentágono e noutros centros de altos comandos militares, o discurso belicista de Pyongyang é dissecado meticulosamente, e cada palavra é desmontada e inspeccionada, como de um míssil de longo alcance se tratasse. Palavras que são, inequivocamente, utilizadas como as primeiras armas desta guerra, por isso se analisa a sua origem, o seu emissor, o seu trajecto, o alvo que pretende atingir, a mensagem que aporta na sua “ogiva” comunicacional e os efeitos que pretende alcançar. Quiçá, um dos efeitos mais esperados, seja mesmo a resposta, a quente, do seu receptor.

O que eu desejo, a minha esperança de todos os dias, é que os receptores dessas palavras armadilhadas, tenham sempre cabeça fria, nervos de aço e não percam o juízo, ou seja, respondam com as mesmas armas, com palavras, enfim, com “bluff”.

Por analogia, a lógica do poker pode aplicar-se aqui na perfeição, pois se alguém se lembra de pagar para ver, pode ter uma surpresa e aquilo que se pensava ser “bluff” ser mesmo jogo verdadeiro. E como sabemos, quando isso acontece, normalmente o preço a pagar para ver é muito alto.

Pode parecer um jogo de linguagem, mas na verdade este jogo tem “peças” de carne e osso, são os milhões e milhões de almas cujas vidas são jogadas pelo mais novo herdeiro da dinastia norte coreana, como se de uma brincadeira se tratasse.

Para mim, esta realidade, relativiza tudo quanto nós por cá vamos vivendo. A nossa crise não é “bluff”, mas viver em Paz, de facto, é um bem inestimável que até nos ajuda a enfrentar as dificuldades com mais ânimo e esperança.

Rezemos pela Paz no Mundo, porque tudo o resto, cá se há-de arranjar.

Victor Dias