Opinião Victor Dias: O fenómeno Sócrates

Caros leitores!…

Lembrar-se-ão, por certo, que nas minhas prosas, publicadas no Primeira Mão, já lá vão alguns anos, sempre chamei à atenção, para a importância do discurso político e de tudo quanto a sua produção e difusão envolve.

Esta semana, tivemos em Portugal, verdadeiros casos de estudo, dada a peculiaridade de cada um deles.

O primeiro, foi sem dúvida o anúncio da demissão de Miguel Relvas. Face à inevitabilidade da sua saída, após o envio, para o Ministério Público, do relatório da IGES, por parte do seu colega Nuno Crato que surgiu na SIC, visivelmente confortável com o abandono de Relvas.

A declaração de saída de Relvas, na forma e na substância, é um claro exemplo do que não deve ser uma comunicação de uma figura de Estado, se pretender deixar a porta aberta, para no futuro poder regressar ao exercício de cargos públicos relevantes. Relvas misturou questões pessoais com questões partidárias e arrastou assuntos de Estado, para uma espécie de primeiro ajuste de contas, não se sabe bem, se com o país, com o partido ou com os jornalistas, de quem, foi naturalmente um alvo a abater, desde que se meteu com a classe. Do ponto de vista político, mediático e até humano, foi confrangedor. Confesso que não gosto de ver ninguém expor-se daquela forma, chega a ser doloroso até para quem assiste. Fico sempre a pensar que não havia necessidade…

jose socrates rtp

O Tribunal

O segundo momento da semana, foi sem dúvida igualmente invulgar, o anúncio das 4 normas chumbadas do Tribunal Constitucional.

Não tenho qualquer competência técnico-jurídica para me pronunciar, com a propriedade que exijo a mim próprio, sobre a matéria declarada inconstitucional, mas já me sinto um pouco mais preparado, para me pronunciar sobre a encenação, o “timing”, os meios e canais utilizados para tornar público, o veredicto.

A gravidade das consequências políticas dessa comunicação, as circunstâncias de que se revestiu e a morosidade do Tribunal, requeriam claramente, no mínimo, algum recato e discrição, por forma a que esse órgão fiscalizador do cumprimento da Constituição, se afastasse, o mais possível, das lógicas do jogo político, preservando como lhe competia, a imagem de imparcialidade, isenção e independência que deve guardar. Lamentavelmente, como todos pudemos observar em directo, não foi isso que aconteceu, bem pelo contrário. Já não bastavam as guerras em directo, as detenções em directo, a morte em directo, agora temos também a Justiça Constitucional em directo, enfim é a contaminação da “mediocracia”.

No dia seguinte, tivemos o Conselho de Ministros, reunido durante 3 horas, após o que, o chefe do Governo, se dirigiu a Belém para informar o Presidente da República, das enormes dificuldades que teria em governar, daqui para a frente, por culpa do Palácio Raton.

Pouco depois, assim que Passos Coelho e Gaspar abandonaram Cavaco, este torna público, um comunicado, tranquilizando o país, pois acabara de perguntar ao Primeiro-Ministro, aonde é que ele pensava que ia? A julgar pela nota emanada da Presidência, Cavaco ter-lhe-á dito que ele podia ir aonde quisesse, desde que não abandonasse o Governo, pois no seu entender, dele, Presidente, todas as condições de legitimação democrática se mantinham, para que a estabilidade política não fosse beliscada. Assim, quer Passos Coelho quisesse ou não, Cavaco apontou-lhe o caminho de volta para o Palácio de S. Bento, sede do Governo.

No Domingo, antes dos noticiários da noite e dos veredictos dos seus comentadores residentes, Passos Coelho, veio às televisões, para dizer que faria tudo quanto o TC o obriga, mas derramou sobre esta instituição, e sobre todos quantos com ela concordam, o ónus de todas as culpas, pelos cortes, a torto e a direito, que a partir de agora, vai fazer na despesa pública, avisando desde já que quem vai sofrer mais com isso, são os funcionários públicos, os mais pobres, a saúde, a educação e o Estado Social.

Quase ao mesmo tempo que Marcelo, surge na televisão pública, paga com os nossos impostos, o Mestre, Sócrates, um comunicador nato, perante o qual, todos os outros não passam de simples aprendizes de feiticeiro.

De repente, até os mais avisados, esclarecidos e vacinados, ficam confusos, interrogando-se se aquele Sócrates é realmente o mesmo. O mesmo que duplicou a dívida do Estado, em apenas seis anos. O mesmo que negociou o memorando com a troika, o mesmo que nos trouxe até aqui, até ao beco em que Portugal se encontra.

Ao longo da semana, fui ouvindo alguns comentadores profissionais que antes o criticavam ferozmente, por vezes até obstinadamente, tecer alguns elogios e tirando-lhe o chapéu, considerando-o um político altamente competente.

Esta narrativa é inenarrável

Como é possível que um ex-chefe do Governo que só cessou funções há uns escassos dois anos, tenha a desfaçatez de vir para a televisão, fazer de conta que não teve nada a ver com isto e tentar alijar as suas incomensuráveis responsabilidades neste cartório de pré-banca rota.

O espaço que a televisão dos nossos impostos lhe atribuiu, devia chamar-se “branqueadora”, porque na verdade é o que começou a acontecer, desde o passado Domingo.

Sócrates vai infernizar a vida de Cavaco, de Passos Coelho e já fez dançar Seguro que nunca mais será Primeiro-ministro, pois a sua última chance, esgotou-se nesta crise de fim-de-semana. Se o Governo tivesse caído, como muitos esperavam, fazendo figas, aí sim, Seguro seria inevitavelmente o candidato do PS. Não tendo tal acontecido, o seu tempo passou, porque a partir de agora, o baile mandado no PS, vai seguir à voz de Sócrates, cujos indefectíveis já se organizam e mexem por todo o lado.

Desde o passado Domingo, o maior líder da oposição, o paladino que toda a esquerda esperava para a federar, chegou, disse e impôs a sua “narrativa”, quer dizer o seu discurso de “polichinelo” que lava mais branco que a lixívia pura. A partir de agora, aonde quer que vá, o que quer que diga ou faça, terá ligação directa aos amplificadores mediáticos que vêm nele, o principal líder da oposição, o único capaz de marcar a agenda política. Muito mais seguro que Seguro ou Costa. Só não se sabe, se veio para correr novamente para S. Bento ou para Belém, mas vamos ficar a saber, à medida que ele for dando os seus treinos “indoor”, quer dizer, no território do PS.

Mediocracia

Em Portugal, há já algum tempo que a Democracia vinha cedendo terreno à mediocracia e à médiocracia, coisas diferentes, mas conexas.

Acontece que quem vence, neste regime e registo político, é quem domina melhor os dotes comunicacionais, quem vende melhor o discurso. E aí, caros leitores, aí, não há pai para ele. Sócrates é Doutor, dá cartas e pede meças.

Essas qualidades discursivas estão-lhe na massa do sangue.

Quando o ouço, lembro-me sempre das minhas idas à feira de Santana, quando de mão dada com a minha mãe, lhe pedia para ficar sempre mais um bocadinho a ouvir uma feirante que, de cima do seu camião, com um megafone adaptado a mãos livres, conseguia a notável proeza de vender e esgotar rapidamente, cobertores da serra, no pino do Verão. Recordo vivamente, como as pessoas se atropelavam, com o Santo António na mão, antes que a pechincha se esgotasse. Uma pechincha que além daquela extrema utilidade estival acrescentava um canivete e mais meia dúzia de outras inutilidades.

O discurso daquela mulher funcionava como um hímen, atraía as pessoas para ela, sendo que algumas, gastavam logo ali, o que iriam precisar para comprar as frutas, os legumes e outros produtos de primeira necessidade que, em certos casos, ficavam depois a dever, às lavradeiras.

Confesso que eu admirava aquele espectáculo e não me importava de ficar ali todo o tempo, até que a minha mãe, me dava um esticão para me tirar dali, temendo que eu pudesse ser contagiado pela eficácia daquele discurso, exclamando quase sempre, é por isso que ela é a rainha das aldrabonas. Mas era uma aldrabona séria, porque no ímpeto do seu discurso, afirmava, não raras vezes: – “…vem cá meu povo, vem cá. Vós gostais de ser enganados e o meu destino é este…”, aquilo é que era uma narrativa de categoria.

Sócrates vem provar que a mais importante competência de um político bem sucedido, não é saber governar, ter ideias, projectos e programas assertivos para o país, mas sim comunicar com eficiência e eficácia.

Ele é de facto um mestre. Ele sabe que a substância, o conteúdo e a mensagem é importante, mas a sua maior preocupação centra-se nos efeitos. E ele sabe que para conseguir os efeitos que pretende, tem de ter acesso aos meios e canais certos, tem de dominar a linguagem, a tal narrativa, e de se por um pouco na cabeça dos seus receptores, para compreender o que eles querem ouvir, por forma a dizer-lhes exactamente isso e não outra coisa.

Olhando para a semana que passou, tenho de reconhecer que Sócrates, comparativamente a todos os outros actores do espaço mediático político, foi tremendamente o mais eficaz, o mais esmagador e que maiores estragos provocou ao ambiente político e social nacional, deixando ondas de choque que continuam a irradiar no espaço dos média.

Julgo que não me engano muito, se considerar que a Democracia, em Portugal, está a ceder, perigosamente, demasiado espaço à “médiocracia” e, consequentemente, à mediocracia.

Sócrates é único, é certo, mas não há como negar que na sociedade portuguesa, ele assume já a dimensão de um fenómeno na comunicação política. E isso é preocupante…

É tão mais preocupante, quanto a sua narrativa funciona para os ouvidos de muita gente, como uma doce melodia entoada por uma encantadora sereia, fazendo esquecer a realidade, a deriva e o perigo do desnorte. O que ele diz é, de facto, o que muitas, mas mesmo muitas pessoas querem ouvir, é Música para os seus ouvidos, mas essa narrativa continua marcada por um horizonte de ficção que não adere à dramática realidade.

Só me resta reconhecer que Sócrates é, mais do que um político, um “animal” de palco mediático que já virou um fenómeno digno de estudo e, claramente, um adversário temível…

Victor Dias