Opinião Victor Dias: A linguagem do medo

Desde que este Governo liderado por Passos Coelho iniciou funções, em vez da linguagem da verdade e da esperança, como o candidato a Primeiro Ministro nos havia prometido, o que nos tem sido servido todos os dias, é o discurso do terror e do medo.

A chantagem do Ministro Gaspar que vai virando o disco a tocar o mesmo, tem como objectivo, tentar convencer as pessoas de que não há alternativas ou pior do que isso, de que a única alternativa é o caos e a banca rota. Ironia das ironias, é que aquilo a que assistimos é precisamente um deslizar permanente para o cenário que os nossos governantes dizem que querem evitar.

Por este caminho, e a falhar em toda a linha, aquilo a que assistimos é realmente uma precipitação para o abismo colectivo. Então não é verdade que todas as previsões e medidas nelas fundamentadas têm sido contrariadas pela realidade dos números. Números que não mentem e comprovam, com factos, a ineficiência das políticas e a gritante incompetência de Gaspar.

Os alertas têm chegado de todo o lado, da oposição, interna e externa, de vários fóruns especializados e dignos de crédito e até mesmo dos nossos credores que integram a troica.

Ministro Álvaro

Cheio de boas intenções, o Ministro Álvaro, bem tentou lançar um programa de “ressuscitação” da Economia, com manobras de reanimação e medidas de emergência, para tentar salvar alguma coisa. Mas foi Sol de pouca dura, pois o seu colega Gaspar, não demorou em derramar sobre esse programa, mais uma terrível nuvem negra, confirmando o que todos julgamos saber, que o pobre académico vindo do lado das Cataratas do Niagara, não risca nada no Governo.

Com a Economia do país a esbarrar constantemente contra as paredes e muros que o Governo lhe vai erguendo, com um discurso político marcado pela chantagem e pelo terror, para instalar o medo, facto que em si mesmo, é um dos mais devastadores ataques à Democracia, seguimos todos, numa resignação de bradar aos céus, fazendo lembrar os escravos Hebreus, em “O Nabucco” de G. Verdi. Deve ser em homenagem ao popular compositor de Ópera cujo bicentenário de nascimento se comemora este ano.

A pior de todas as impreparações e inexperiência de vida, de luta pelo que se tem, enquanto fruto do trabalho e do esforço, revela-se nesta obsessão cega pelo discurso do medo, do terror e da chantagem que ao matar a esperança, vai matando Portugal. Pessoas paralisadas pelo medo são tolhidas pelo pânico, e não é desse modo que pensam e produzem mais e melhor, como é necessário.

Todos queremos um Governo que nos fale verdade, que nos peça sacrifícios em nome de um futuro melhor para os nossos filhos e netos, que nos assegure Justiça Social e equidade no sofrimento, porque todos temos consciência dos roubos que foram feitos ao orçamento do Estado e nos quais o povo não participou, mas que tem agora de pagar com língua de palmo e cortes na carne.

Não podemos aceitar que nos queiram tolher a vida com o medo de existir.

Vivemos tempos muito difíceis e todos temos consciência da necessidade de nos sacrificarmos e sofrer com o reajustamento. Um reajustamento a uma vida mais realista, em que os recursos comuns, sobretudo os públicos, sejam geridos e gastos com parcimónia, seriedade e clareza de processos. Um reajustamento em que o sofrimento seja repartido com equidade e Justiça, para que todos sintamos que vai valer a pena e que os sacrifícios nos hão-de levar a um país melhor, mais justo, mais equilibrado e mais solidário. A isto pode chamar-se esperança. E isto é o que o Governo de Passos Coelho não está a conseguir, bem pelo contrário, os resultados da sua governação são o que temos visto e em matéria de esperança e confiança, têm sido sempre revistos em baixa. Em baixa de auto-estima, de auto-confiança e de depressão social sufocante.

Um PSD prisioneiro

Pelo medo e com a chantagem, não se motiva um povo e nada se consegue construir com ele e para ele.

Estou cada vez mais convencido que este não é o caminho e tenho pena que o PSD esteja prisioneiro desta gente, cujos erros crassos vai ter de pagar nas várias eleições que se avizinham.

Passos Coelho pode estar-se nas tintas para as eleições e até percebo que queira que elas se “lixem”. Eu também prefiro que o Governo se ocupe do país e não esteja preocupado com eleições. Acontece porém que Passos Coelho é o líder do PSD e com este discurso está a comprometer seriamente o futuro do seu partido, mas muito pior do que isso, é que pode prejudicar o trabalho de imensos militantes autarcas que mereciam ser reeleitos, em reconhecimento do seu bom desempenho ao longo dos mandatos. Muitos deles estão preocupados, descontentes e até revoltados, mas têm dificuldade em enfrentar um estilo demasiado unanimista que não é próprio de regimes democráticos e tão pouco de um partido social-democrata que teve um líder como Sá Carneiro.

Se as coisas não mudarem, vai ser muito difícil mobilizar as hostes partidárias locais, para lançar uma dinâmica eleitoral, suficientemente positiva, que permita esbater os eventuais fenómenos de protesto e afirmação do descontentamento generalizado que se instalou na sociedade portuguesa.

Autarcas

Aos autarcas do PSD e do CDS-PP, não resta outra estratégia, a não ser, a de procurar devolver a esperança, a confiança e sacudir da roupa tudo quanto faça lembrar os seus partidos. Vão ter de soar as estopinhas e puxar pelo ânimo das suas hostes e do seu povo, para provar que são diferentes do Governo, que acreditam nas suas gentes e que não só não perderam a esperança, como lhes querem dar esperança. Esse é o seu único caminho se, porventura, querem vencer as próximas autárquicas.

Os candidatos às autarquias que tiverem o selo destes dois partidos, vão ter de ter agendas pessoais e locais próprias, vão ter de estabelecer relações de muita proximidade e utilizar um discurso que do ponto de vista da psicologia política, faça esquecer o clima de medo, de chantagem e de pânico que este Governo tem promovido, mormente junto de duas camadas da população com necessidades, anseios e expectativas diferentes em muitos aspectos, mas que convergem na essência das relações afectivas. Refiro-me obviamente, aos mais jovens, cujo desemprego é preocupante e aos idosos, que estão muito alarmados com as “patifarias” que o Sr. Gaspar lhes quer fazer, esquecendo-se que eles são a almofada social que, apesar dos pesares, vai segurando a indignação e revolta dos jovens portugueses. Esse senhor, pode até saber muito de finanças, de teorias e de modelos académicos, mas de política mesmo, é uma nulidade semelhante às nulidades das suas previsões e resultados.

Victor Dias