Opinião Victor Dias: CDS-PP no fio da navalha…

Recentemente, tive ocasião de analisar um vasto conjunto de dados estatísticos que me proporcionaram uma reflexão, no mínimo, muito curiosa.

Pude trabalhar alguns números resultantes dos vários processos eleitorais, desde 1976 até 2009, numa metodologia de refinamento que me permitiu deduzir certas conclusões, mais ou menos, óbvias.

Em 1976, o CDS era um partido com uma significativa expressão eleitoral e com uma apreciável implantação autárquica, facto que veio a repercutir-se no número de câmaras municipais que chegou a deter.

Essa implantação basista permitiu que o partido se afirmasse, na sociedade portuguesa, como uma verdadeira alternativa de direita. Por outro lado, apesar de ter contado com nomes de primeiríssima água, nas suas estruturas de liderança, a sua implantação local, não lhes dava espaço de manobra para veleidades e jogos de cintura, com as nuances acrobáticas que o seu actual líder pode hoje esgrimir, porque nesses tempos as bases, locais e regionais, faziam-se respeitar e impunham o seu peso concreto.

Um partido diferente

Comparando o CDS de 1976 e o CDS-PP das autárquicas de 2009, percebe-se facilmente que o partido não é o mesmo, pois praticamente desapareceu do mapa autárquico. É claro que isto não significa que não tenha conseguido eleger militantes seus, noutras listas, mas a verdade é que a sua imagem se esbateu, e isso, é igualmente claro quanto às consequências que teve.

Esta realidade, que tem variadíssimas causas que dariam certamente para um bom caso de estudo, afigura as dificuldades com que o partido se depara hoje, a nível local, em todo o território nacional.

paulo-portas

O caso do Porto é, porventura, o mais emblemático, revelando a curtíssima margem de manobra, de Álvaro Castello Branco, depois de uma coligação que até funcionou bem, do ponto de vista do interesse da cidade, mas que praticamente apagou o CDS-PP do mapa portuense. A prová-lo está a estratégia eleitoral autárquica para 2013, ou a falta dela, face à impossibilidade de continuar a aliança com Rui Rio, pelas razões conhecidas. Rio era assim como uma espécie de abono de família para o CDS-PP do Porto, numa coligação que, diga-se em abono da verdade, era mais entre pessoas do que entre partidos. Basta ler o que Rui Rio expressou a respeito de Castello Branco e o que este disse e diz, a respeito do seu colega autarca.

O resultado de Rui Moreira

O risco da estratégia no Porto é enorme, e caso Menezes consiga ir a jogo então será incomensurável. A sorte de Castello Branco, pode estar na interpretação do, “de” e do “da”, que a Justiça, há-de sentenciar por fim.

Se Rui Moreira tiver um bom resultado eleitoral, o CDS-PP não poderá cantar vitória, porque essa será da cidadania e do próprio candidato, mas se o homem arcar com uma derrota humilhante, aí meus amigos, o CDS-PP será solidário e receberá o rótulo de derrotado, por mais que a porca torça o rabo. Mas pior do que isso, é que levará muito tempo até se reerguer das cinzas.

Enquanto isto, Paulo Portas vai fazendo o seu jogo de sombras e as suas encenações com Passos Coelho, deixando antever ao país que o equilíbrio no seio da coligação é muito ténue e está preso por um fio, o fio da navalha. Um fio que se for esticado por Portas, ao ponto de fazer cair o Governo, o vai colocar no gume das facas longas que no interior do CDS-PP também existem.

Se esse grande precussor da Ciência Política viesse de novo ao Mundo, iria certamente rasgar a sua obra-prima “O Príncipe”, e talvez escrevesse um espesso tratado, quiçá, intitulado “Os transformistas”.

Por quanto tempo o CDS-PP continuará a aguentar a sua sobrevivência, dependendo da inteligência, da astúcia e do contorcionismo do seu líder? Quando chegará o momento de regressar às bases e tentar recuperar o capital de implantação local e autárquico que outrora lhe deu a dimensão de terceira força política nacional?

Juro que não tenho nenhuma resposta acabada para estas perguntas, mas suspeito que isso só vá acontecer, quando o partido do centro direita, fizer reaparecer nos boletins de voto das autárquicas, de forma isolada e bem clara, a sua sigla.

Quem discordar do que escrevo, o que é legítimo e democrático, que consulte os dados disponíveis no Instituto Nacional de Estatística, procurando fazer uma leitura atenta dos números, analisando-os comparativamente, para os ligar aos factos políticos que constituem a história do partido, e talvez mude de opinião. É que os números, por vezes, são como a prova do algodão, não enganam e demonstram por a+b=CDS no fio da navalha…

Victor Dias