Opinião Victor Dias: Um Portugal sem rumo…

Esquecendo os protagonistas do lamaçal em que a vida do país, não só a vida política ou das figuras públicas, foi lançada, deparamo-nos actualmente com um cenário que só encontra “narrativa” semelhante, nessa obra-prima de Shakespeare, “A tempestade”.

É de facto, como se estivéssemos no olho de uma tempestade, sem comandante ao leme, sem tripulação, sem carta de navegar, enfim, sem rumo…

Como baratas tontas que rastejam no chão do navio, de um lado para o outro, quer dizer, da esquerda para a direita e vice-versa, os políticos, de todo o nosso sistema partidário, só conseguem enxergar pelo buraquinho do seu tacticismo atávico e eleitoralista, pensando nos ganhos imediatos, na esperança ávida de que o Presidente da República, nos empurre para eleições antecipadas, já ali, ao virar do Verão.

Enquanto toda esta gente medíocre, egoísta e irresponsável, vai procurando fazer as suas negociatas político-partidárias, os nossos credores que são quem verdadeiramente manda cá em casa, começam a perder a paciência e a pensar no que hão-de fazer aos donos desta prenda.

Hoje, mais do que nunca, uma das coisas que me irrita e revolta é a imbecilidade e a idiotice de alguns políticos com responsabilidades, nomeadamente governativas. Gente que se esquece, que as suas palavras, mesmo antes das suas decisões “criminosas”, têm consequências directas e imediatas, na vida de milhões e milhões de portugueses.

Políticos que não servem a democracia

É claro que tenho plena consciência de que este meu discurso não é o melhor para a Democracia, e tão pouco será digno de um Democrata que ama a Liberdade, como eu. Mas como posso eu calar este sentimento de repúdio e de indignação, diante uma gente que não tem qualquer qualificação para governar. Não tem, como diz a minha filha mais nova, categoria… Bem que ela tem razão, para se poder ser membro de um Governo, entre muitas outras coisas, é imprescindível ter categoria. E esta gente não tem nada, quanto mais categoria.

Não é a Democracia que não serve como regime político. Estes políticos é que não servem à Democracia.

busola

Não sei se os caros leitores deram conta, ou deram suficientemente conta disso, mas a verdade é que, enquanto os líderes partidários e as suas delegações discutem como é possível partir e repartir os cacos do ridículo poder e soberania que ainda nos restam, a nossa situação económica e financeira e, mormente, a nossa credibilidade internacional, não param de se degradar, ao mesmo tempo que o desemprego aumenta assustadoramente e a qualidade de vida dos portugueses afunda, para os piores níveis das últimas décadas.

É preciso promover um discurso de moderação, de confiança e de esperança que consiga reconquistar os portugueses para a reconstrução e salvação nacional. Todos, uns mais outros menos, teremos consciência dessa necessidade e sabemos que o caminho é por aí. Mas poucos, muito poucos, acreditarão que será com esta gente que está a liderar os partidos, desde o BE ao CDS-PP, passando pelo PC e, obviamente, pelo centrão que inclui PS e PSD.

Já não vejo lura de onde saia coelho de jeito…

É inacreditável que face à situação de emergência, o Presidente permita que os partidos percam semanas a dialogar e a negociar entendimentos, enquanto o país fica suspenso, com um Governo desnorteado.

Aquilo que eu esperava de Cavaco Silva é que chamasse os responsáveis dos partidos a Belém, para lhes comunicar como teriam de fazer a partir desse momento. E não, esta forma de resolver as coisas à moda de Pilatos, lavando as suas mãos, enquanto espera tranquilamente que eles se entendam e lhe apresentem uma proposta de acordo político, segundo o modelo que lhes deu para estudarem. Como se isso fosse possível.

Entre o dia do discurso presidencial e o momento em que Pedro, Paulo e Tó Zé, chegarem a qualquer lado, a única coisa que vai acontecer é perda de tempo. E na Economia, tempo é dinheiro, logo quem perde tempo, perde dinheiro, muito dinheiro…

Será esta inútil perda de tempo que nos está a fazer perder muito dinheiro, que tanta falta faz à Economia nacional que vai tornar inevitável o segundo resgate. Processo que começou com a demissão de Gaspar, teve novo episódio com o pedido de Portas e continua agora com novos capítulos. Convém que não esqueçamos nunca e lembremos esses senhores, Gaspar e Portas que vão ficar para a História de Portugal, como os governantes mais irresponsáveis que alguma vez o nosso povo conheceu. Nada nem ninguém, por mais que tente, conseguirá apagar esse feito da história e dos seus currículos pessoais e políticos.

Não há borracha, não há esponja ou branqueador que remova essa mancha do seu passado. Razão pela qual, nem Gaspar e muito menos Portas, têm qualquer possibilidade de restauro da ética e moral necessária, para exercer, seja que cargo público for. Nenhum Governo que tenha no seu efectivo, qualquer um destes dois senhores, terá jamais, a credibilidade, a confiança e o respeito dos portugueses. Se Cavaco Silva não tiver a coragem de exigir esta dignidade ao Governo, caso ele apresente Portas como um dos ministros do seu elenco, deve ele próprio, Presidente, bater com a porta e ir-se embora.

Humilhação

O resgate da vergonha de um país cuja classe política foi incompetente, irresponsável e inconsequente, revelando-se totalmente incapaz de nos salvar de mais uma humilhação internacional.

Não sou apologista de uma cidadania inócua que se reduz apenas a uns processos na Justiça para impedir esta ou aquela candidatura, para denunciar este ou aquele caso de corrupção. Embora reconheça que esses cidadãos são, na sua maioria, bem intencionados, não vão resolver coisa nenhuma, nem mudar estruturalmente nada do que está errado. Vão chatear uns quantos candidatos, vão ajudar a abrir uns quantos processos no Ministério Público, e isso provavelmente dar-lhes-algum gozo, mas não abre caminho a uma desintoxicação da Democracia.

Considerando este envenenamento da nossa Democracia que carece de uma purificação urgente, só consigo ver uma forma de alcançar essa recuperação dos valores democráticos mais saudáveis, pela via de uma adesão maciça aos partidos e de uma tomada consciente e determinada das suas lideranças, com vista a uma mudança estrutural de base que também passa pela remodelação dos seus escopos estatutários, por forma a impedir a eternização nos cargos dirigentes. Participar activamente na vida partidária, e tomar a dianteira no debate e acção política, no seu interior, bem no seu coração, é sem dúvida, uma das mais eficazes formas de exercer a cidadania democrática e participativa. Quem lá está, nos partidos e ocupa as suas lideranças, aos mais diversos níveis, são cidadãos como nós. Se não concordamos, se não aprovamos o que pensam e o que fazem, cheguemo-nos à frente, e apresentemos outras soluções, sujeitando-nos ao sufrágio dos concidadãos que também lá estão, para que democraticamente escolham as soluções, os programas e as pessoas que melhor prometem defender os projectos em que acreditam. É para isso que servem os partidos e é por isso que devemos exercer uma militância activa, encarando-a como uma cidadania mais eficiente e mais consequente…

Se temos nos partidos as lideranças que temos, não poderemos culpar quem logrou chegar até lá. Aí, a responsabilidade é da militância passiva que encolhe os ombros e deixa correr o marfim. O resultado está à vista. Não temos no Governo gente competente e, para mal dos nossos pecados, também não vislumbramos na oposição, alternativas que nos descansem e nos inspirem confiança.

Qualquer que seja a ideologia de cada um, se queremos políticas diferentes e sobretudo se desejamos verdadeiramente uma nova classe de políticos, com categoria e competência, então, só nos resta mudar os partidos que temos, agindo directamente no seu âmago e tentar operar uma remodelação, de dentro para fora, abrindo-os mais à sociedade e à participação cívica.

A meu ver, não há outra volta a dar, para salvar a Democracia e o país…

E quando digo salvar, não falo da mesma coisa a que se refere Cavaco Silva, mas refiro-me a uma libertação de Portugal, desta pecha de políticos muito fraquinhos, mauzinhos mesmo, que não estão à altura dos nove séculos de história que já construímos…

Estou convicto que é isto mesmo que temos de fazer… tomar conta dos partidos e purificá-los…

Victor Dias