Opinião Victor Dias: A independência dos independentes…

A proliferação de movimentos de cidadãos independentes que se apresentam, para disputar o poder nas próximas eleições autárquicas, é sem dúvida, um sinal muito positivo que revela bem a maturidade da nossa Democracia, ao nível do poder local.

O mesmo não se poderá dizer, no que toca ao poder que tem as suas sedes em Lisboa e que não abre mão da sua quase exclusividade partidária, obstaculizando por todos os meios ao seu alcance, o acesso de cidadãos independentes, às eleições legislativas.

Entendo com plena convicção que o aparecimento de listas de pendor independente, candidatando-se às câmaras, assembleias municipais e de freguesia, é um fenómeno político democraticamente saudável.

Devemos encarar este fenómeno com toda a normalidade, enquadrando-o numa cultura democrática que deve fundar-se num quadro de valores, em que o respeito pela livre opinião, pela tolerância e pelo direito à livre escolha, têm de ser factores estruturantes do debate e “combate” políticos.

Confesso que me agradaria bastante mais que houvesse candidaturas independentes cujas listas integrassem apenas pessoas que, por motivações cívicas e vontade genuína de dar o seu contributo para o bem comum, se alistassem neste “combate”, podendo afirmar, sem dúvidas ou equívocos, a sua real independência e desapego ao poder. Quer dizer, pessoas que não passaram a ser independentes, porque a Lei lhes impôs limitações incontornáveis, levando-as a dar o “grito do Ipiranga”, e desvincular-se dos partidos que fizeram deles autarcas.

Tal como eu, certamente muitos dos nossos leitores, já deram uma vista de olhos por algumas candidaturas dessas e chegaram à mesmíssima conclusão, ou seja, encontraram muita gente que já foi candidata noutras eleições, sob a sigla de partidos políticos.

No plano das convicções ideológicas e dos valores éticos e políticos, creio que não é possível preservar uma coerência credível, agindo como se a militância seguisse dentro de momentos, por mais desculpas que se peçam aos eleitores, por esta interrupção.

Os leitores que têm a paciência e, não raras vezes, a bondade de ler as minhas prosas, sabem muito bem que nunca me coibi de criticar o partido em que milito, assumindo com toda a clareza as minhas posições políticas, tantas vezes ao arrepio da praxis da sua direcção, mas nunca reneguei a minha condição de social-democrata convicto.

Manda a sensatez, a temperança e, sobretudo, a boa consciência que nunca esqueçamos quem nos ajudou a crescer, quem nos deu a mão e a quem devemos estar gratos. Não por reverência, por lealdade ou seguidismo subserviente, porque isso não é dignificante, mas apenas por fidelidade aos valores e princípios, com que devemos nortear a nossa vida.

Por tudo isto, caros leitores, não será legítimo questionar certos candidatos, se a sua independência só diz respeito ao seu passado político e público, oportunamente metido na gaveta?… Ou se é apenas fruto das circunstâncias actuais e no futuro se verá?…

Espero que esta oportunidade de maturação da nossa Democracia, não seja uma oportunidade perdida, graças à independência de alguns independentes. Independentes, alguns talvez, mas poucos, mesmo muito poucos…

Que pena!…

Victor Dias