Opinião Victor Dias: Eu tenho dois governos!… – Que em nada são iguais!…

Um é Pedro e outro é Paulo e não conseguem disfarçar as diferenças políticas.

Há coisas que são tão sérias que só as podemos entender, quando assim não são tratadas, olhando para elas, como brincadeiras de “adolescentes”, como bem disse Marques Mendes.

Aquilo a que temos assistido nas últimas semanas, em matéria de comunicação política do Governo português, é verdadeiramente inacreditável e decepcionante.

Já nem me refiro ao dossier Angola, matéria em que os interesses sufocam, sem apelo nem agravo, os princípios e os valores.

Um país cujo Governo não se dá ao respeito, claro está, que não é respeitado. Mas só está a colher o que semeou.

Agora o assunto Economia e Finanças, é o verdadeiro calcanhar de Aquiles deste Governo e é aí que a porca torce o rabo.

Segundo resgate

Depois de Passos Coelho, irresponsavelmente, ter lançado as farpas, em plena campanha eleitoral, acenando aos eleitores com o papão de um eventual 2º resgate, lançando no espírito dos portugueses e nos “sacro-santos” mercados, mais confusão e apreensão, assistimos às comunicações de Paulo Portas, anunciando o pouco que havia de bom e esperançoso, numa clara demarcação do tom ameaçador e a roçar o “messeânico”, com que o Primeiro-Ministro tem pautado as suas intervenções. Portas conseguiu inclusive, nessa altura, quase convencer alguns de que estávamos a iniciar um novo ciclo, quiçá, de crescimento económico. Que diferença…

Pires de Lima

Julgo agora que as instruções que Cavaco Silva deu, a partir da Suécia, para que cá dentro calassem a “matraca”, se destinavam sobretudo aos agentes políticos com fortes responsabilidades, entre os quais se destacava Passos Coelho.

Por estes dias, voltamos a assistir a nova trapalhada, com Pires de Lima a falar em Londres, para uma plateia qualificada, num programa cautelar que, ao que parece não é, ou talvez não seja, um novo resgate.

Enquanto isso, em Lisboa, caía o Carmo e a Trindade, com os colegas de Governo a sair a terreiro, afirmando que não era bem assim e que ninguém em S. Bento estava a pensar em nenhum programa.

Para além disto, não nos podemos esquecer, daquela ceninha triste, do Vice-Primeiro Ministro a dizer que tinha honrado a palavra dele e que os pensionistas e reformados não seriam beliscados com o novo orçamento do Estado, enquanto ao seu lado, os dois “jarrões” com ar grave e sério, sem pestanejar, nem sequer abriram a boca. E não estou a falar de jarrões do Regimento de Lanceiros, falo tão só da Srª. Ministra de Estado e das Finanças e do Sr. Ministro da Segurança Social. E o Primeiro-Ministro o que estava a fazer?…

Para boi dormir

Num Governo de um país que perdeu a soberania e se encontra sequestrado pelos credores, sendo governado por um programa que não sufragou democraticamente, era imprescindível, vital mesmo, que o Executivo estivesse unido, coeso e falasse a uma só voz, agindo de forma coordenada e em absoluta sintonia política.

Infelizmente não é isso que está a acontecer, o que só aumenta a nossa preocupação e angústia.

Face a este triste espectáculo, de falta de diálogo no seio do Executivo, de ineficiente comunicação, o que a meu ver denuncia um problema bem mais profundo e, esse sim, dramático para Portugal, somos levados a concluir que entre ministros do mesmo Governo, há um risco ao meio que separa os do PSD, dos do CDS, porque falta um cimento essencial entre todos, o da confiança política que há muito já percebemos que se esfumou.

Pires de Lima, sendo um gestor competente, um orador cativante e hábil negociador partidário, demonstrou alguma ingenuidade política enquanto governante. Mas teve a dita de ser verdadeiro e comunicar, a partir da capital Inglesa, uma inevitabilidade que em S. Bento já todos conhecem, a do programa cautelar. Esta coisa de as pessoas dizerem que não querem isto ou aquilo, dos rapazes dizerem que nem reparam na rapariga e estão “estaladinhos” para namorar com ela, é uma conversa que já tem barbas. Estou convicto que já não há nada a fazer, e que o tal programa cautelar já está mesmo na forja. E não vale a pena virem para cima dos portugueses com conversa para “boi dormir”.

De uma coisa tenho quase a certeza, à cautela, Paulo Portas vai deixar que seja alguém do outro Governo a informar o país desse falhanço, talvez, Passos Coelho ou Maria Luís Albuquerque…

Victor Dias