Opinião Victor Dias: Sua excelência: a frustração…

A vida de todos nós, se for uma vida normal, o que quer que isso possa significar para cada um, é feita de momentos de alegria e de tristeza, de sucesso e de fracasso, de exaltação e de frustração.

Lembro-me que na minha infância, para aprender a andar, razoavelmente, de bicicleta, tive de cair muitas vezes e esmurrar os joelhos, as palmas das mãos e até a cabeça. E recordo que um vizinho meu, a quem nunca faltou quase nada, nunca esmurrou as mãos, nem os joelhos, nem a cabeça, mas também nunca conseguiu aprender a andar de bicicleta. E sabem porquê? É isso mesmo que estão a pensar, porque nunca alapou o “rabo” num selim… Tinha medo de falhar e de cair. Coisa que me aconteceu, dezenas ou talvez centenas de vezes, para que eu experimentasse o sabor da recuperação de um fracasso.

Vivemos hoje num tempo em que o discurso é “…tens de ser muito bom!… …ou melhor… excelente…”.

Compreendo muito bem a angústia dos pais, face à voracidade da concorrência que nos atira para uma competição, não raras vezes, desumana e desprovida de afecto ou contemplações, porque a competição é realmente implacável.

Pressão

Já ouvi muitos pais passarem para os filhos, uma pressão e uma ansiedade que os deixa tensos e muito apreensivos, estados de alma que não deviam afligir as crianças e os jovens, porque essas idades são mais propícias à esperança e à confiança.

É curioso que alguns desses progenitores, quando falam do seu passado, fazem-no com saudade e cedendo normalmente à tentação de dourar a pílula, quer dizer, dar uma visão romântica do que foi a sua infância e juventude, inflacionando aquilo que de bom guardam. Os fracassos e as frustrações, bem como a forma como lidaram com elas e as ultrapassaram, disso quase nunca falam. Mas deviam, porque é pedagógico e ajudaria os filhos, que já ficavam de sobreaviso.

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Também não entendo, como é possível pintar o presente em tons tão cinzentões e advertir os mais novos, para um futuro negro. É preciso ter cuidado e dar espaço à esperança, preparando-os para uma vida que, certamente, não vai ser sempre um mar de rosas, mas que lhes há-de reservar também, muitos momentos de alegria.

Li uma vez numa entrevista, um grande Maestro afirmar que um dia, quando chegou ao seu posto para dirigir uma das melhores orquestras do Mundo, a pessoa responsável pela colocação das partituras nas estantes dos músicos, se tinha enganado ao fazer a selecção e tinha trocado as peças. Claro está que as coisas não correram tão bem como era hábito, mas mesmo assim, quer os músicos, como o Maestro, não pediram a cabeça do funcionário e levaram em linha de conta que o homem tinha atrás de si, uma vida de trabalho, em que a sua função tinha sido, regularmente, cumprida com sucesso, e isso não podia, pura e simplesmente, permitir que fosse lançado borda fora, por um dia menos bom.

Quem não se recorda do que aconteceu recentemente à pianista Maria João Pires, num concerto em Londres?

Não saber lidar com os fracassos da vida e não conseguir dominar a frustração, antes que ela tome conta de nós, é dramático e revela, por parte dos adultos, pais e educadores, uma enorme falta de sensatez, equilíbrio emocional e temperança.

Nas nossas relações familiares, laborais e sociais, é fundamental sabermos relativizar as coisas. Não darmos tanta importância a uma má disposição, a um desempenho menos conseguido ou a uma desatenção momentânea. É óbvio que devemos dar atenção a tudo isso e falar olhos nos olhos, com as pessoas, para que se possa melhorar continuamente a vida, mas se de quando em vez, não fizermos vista grossa e tivermos a paciência necessária, para desculpar e esperar o momento certo, para nos entendermos, o mais certo, é pormo-nos a jeito, para vivermos em tensão, em conflito e angústia constante.

Para mim que sou crente, entendo que o grande desígnio da vida é o amor e a felicidade, o que, a meu ver, nem sempre casa muito bem com essa perseguição obecessiva da excelência e do sucesso permanente.

Caridade

Às vezes, dou por mim a meditar no sentido da Caridade, e o que me vem ao espírito são aquelas pessoas, a quem esta ideologia da excelência e do sucesso trocou as voltas, apanhando-as desprevenidas e, sobretudo, incapazes de lidar com o fracasso, mergulhando facilmente na depressão, quantas delas à beira de desistirem. É aí, que um ombro amigo, que uma palavra assertiva, pode fazer a diferença, levando as pessoas a enfrentar as adversidades e perceber que o sucesso sempre, não é um sonho, do qual se pode acordar a qualquer momento, mas uma ilusão que nos pode revelar uma realidade cruel e dramática. Para quem está a passar por situações destas, a ajuda material é importante, mas a Caridade, está principalmente no aconchego da palavra e no afecto fraternal que lhe pudermos dar.

Os conflitos, as convulsões e as guerras, são fracassos da Paz e da fraternidade entre os homens. No entanto, a História revela-nos que têm sido os líderes sensatos, tolerantes e equilibrados que têm ajudado os povos, a levantar-se, erguer a cabeça, realizar a reconciliação e seguir o caminho da Paz, ultrapassando o fracasso, sem ressentimento, sem culpa, e com esperança de que as gerações vindouras, não se deixem tolher pelo fundamentalismo radical que se fixa em valores errados.

A realização plena que desejo para as pessoas que mais amo neste Mundo, as minhas filhas, não é a excelência ou o sucesso a todo o custo, mas sim, sua excelência: a felicidade…

Victor Dias