Opinião Victor Dias: Haja juízo em Lisboa

Nutro por Mário Soares um certo respeito, considerando o papel que teve na consolidação da Democracia em Portugal, e naturalmente, também pelo facto de ter sido governante e Presidente da República, durante imenso tempo, quiçá, talvez até demasiado, numa perspectiva de alternativa democrática que lhe é tão cara.

Creio que um senador, estatuto que lhe assentaria bem, tem de ponderar e medir com muita temperança, as palavras que profere e, sobretudo, as suas eventuais consequências.

Como bem sabemos, hoje é cada vez mais raro, muito raro mesmo, encontrar alguém que não conteste o Governo e as suas políticas, ou que ponha em causa a forma como o Presidente da República tem desempenhado o seu papel de garante do cumprimento da Constituição. E esta dificuldade, encontra-se quer na oposição, que obviamente tem de fazer isto mesmo, como nos partidos que suportam o Executivo, para não falar já, na sua base de apoio eleitoral e social, que está, como é fácil de comprovar, muito depauperada, face à erosão que tem sofrido.

Mário Soares tem todo o direito de secar a iniciativa do PS e de expressar a sua indignação, livre e democraticamente, como aliás, sempre o fez. Embora não me esqueça, que um dia, com pouco respeito e até uma certa arrogância, tenha verberado a um polícia, para desaparecer da sua beira, e agora, se queira constituir num dos seus grandes defensores. Mas enfim, cada um é quem é…

MARIO SOARES

O que me arrepiou, no discurso de Soares, na aula magna, foi o tremendismo com que apontou a porta de saída ao Primeiro-Ministro e ao Presidente da República, advertindo-os que o deviam fazer quanto antes, porque podia estar eminente a agitação violenta nas ruas, sugerindo inclusive que poderiam não ter tempo de sair pelo seu pé.

Para além da gravidade deste flamejante discurso, em que Soares assume a interpretação de um papel que não é para o seu tipo de actor, o antigo Presidente da República, afirmou que teme por uma Ditadura que pode estar a caminho.

Aí, julgo que Soares tem razão, se formos à nossa História e recuarmos, por exemplo, ao início do século passado, facilmente se perceberá que foram discursos inflamados e personagens, como este que Mário Soares quis interpretar, que deram os ingredientes, para o caldo social e político que havia de levar à ditadura do Estado Novo.

Não percebo, não consigo encontrar nenhuma razoabilidade, numa postura que não é digna de um antigo Presidente da República. Quando o ouvi, nem estava a acreditar que aquele a quem chamam o pai da Democracia, quisesse destituir um Presidente, democraticamente eleito, por sufrágio directo e universal, numa escolha singular, que expressa com toda a claridade a vontade do Povo.

Sinto-me muito a-vontade para o fazer, porque também critico e me indigno, contra Cavaco Silva e Passos Coelho, que não têm estado bem, nada bem mesmo.

Compreendo, cada vez com mais admiração e profundo respeito, o pensamento, a sensatez, a coerência e acção consequente, desse grande senador que é o Professor Adriano Moreira. Personalidade altamente responsável que inteligentemente declinou o convite de Soares, para estar no palco da aula magna.

Não gostava de ligar as duas coisas, mas penso que não podemos deixar de pensar que uma coisa contaminou a outra. Refiro-me é claro, ao facto de os polícias e agentes de autoridade terem ido um pouco longe de mais na sua manifestação, e ao facto simultâneo, de Soares, certamente ligado e informado do que ia acontecendo, ter dado mais “gás” à inflamação do seu discurso.

Tive a nítida sensação que em Lisboa, as pessoas tinham perdido o juízo, e isso é o pior que pode acontecer a um país.

Não gostava nada que o “slogan” – “Soares é fixe”, um dia mudasse para “Soares é triste”.

Digo com toda a sinceridade, Mário Soares não merecia isso…

Victor Dias