Opinião Victor Dias: Ninguém mais suporta a política do umbigo

Se aquilo que o Governo diz for verdade, como de algum modo também subscreve o Presidente da República, Portugal está a chegar à praia, após uma deriva provocada pela maior tempestade económico-financeira da nossa História moderna.

Os sacrifícios que o homem do leme nos pediu foram verdadeiramente hercúleos, lembrando os idos quinhentistas, em que foi preciso dobrar o cabo das tormentas, até se alcançar a Boa Esperança.

Seria trágico, para toda a nação, que os partidos políticos do nosso sistema democrático, não fossem capazes de vislumbrar o que parece surgir já na linha do horizonte, quer dizer, a possibilidade de recuperar alguma da exígua independência nacional que ainda nos resta.

Claro está, que depois de termos desbaratado tudo quanto de mais valioso e produtivo nos restava, a missão de restabelecer alguma da nossa soberania, é cada vez mais uma missão impossível.

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Foi-se a energia, as telecomunicações, os correios, estão a caminho de se irem, também as águas e outros recursos naturais, não falando dos recursos humanos portugueses de alto perfil e altíssima qualificação académica e científica, cuja formação nos custou os olhos da cara.

Mas apesar de todos estes pesares, que não nos deixam, não nos podem deixar tranquilos, seria dramático, catastrófico mesmo, que por egoísmos partidários ou sectaristas, não fosse possível celebrar um acordo de regime, com uma validade mínima de duas legislaturas, que garanta uma convergência política estratégica, em matérias essenciais para o desenvolvimento do país.

Nenhum líder político, digno dessa condição, pode condicionar o futuro de Portugal e das gerações vindouras, colocando à frente do verdadeiro interesse nacional, a mesquinhez dos seus tacticismos eleitoralistas e dos seus golpes de asa e jogos de cintura que visam, ridiculamente, preservar o seu poder no seio dos partidos que lideram.

O julgamento do povo português e, posteriormente, o julgamento da História, serão implacáveis com os políticos que, nesta hora da verdade, não tiverem a perspectiva política, suficientemente ampla, para alcançar mais do que o cenário do curto ou médio prazo, lhes pode proporcionar diante os olhos.

A responsabilidade dos partidos

Todos os partidos do nosso sistema político têm, neste preciso e muito exigente momento, a maior responsabilidade que alguma vez pesou sobre os ombros dos seus dirigentes, na certeza porém que a maior das responsabilidades pende sobre aqueles que são poder e aos quais, também se exige, humildade democrática e autêntica abertura ao diálogo e à negociação concreta.

Se os nossos líderes políticos falharem, se não estiverem à altura da História, se não tiverem sentido de Estado e do dever, em suma, se forem incompetentes, e deixarem Portugal afundar ainda mais, na crise que tantas marcas e sofrimento tem provocado, será a própria Democracia que ruirá.

Ainda que a Democracia não sucumba formalmente, se por ironia do destino, formos empurrados para um novo resgate, tendo de sofrer a humilhação de voltar a estender a mão aos nossos credores internacionais, a quem teremos de entregar, já não os poucos anéis que nos restam, mas os próprios dedos, a confiança e credibilidade nos nossos líderes políticos actuais desabará irremediavelmente.

Mais uma vez afirmo que é preciso que haja juízo em Lisboa e que impere o bom senso, a honestidade intelectual e política, para que a Democracia em Portugal possa sobreviver às garras do oculto império da alta-finança que, sem que nos apercebamos, vai manipulando os fios de um complexo mecanismo, no qual alguns governos não passam de simples marionetas figurantes, limitando-se a papaguear o papel que se encontra no guião pré-definido pelos autores da trama.

Será que seremos capazes de fugir a tempo desta saga e agarrar nas nossas próprias mãos o destino de Portugal?

Quero crer que sim. Sobretudo se cada um de nós, enquanto cidadãos, formos responsáveis, procurando o esclarecimento da verdade, para exercer com exigência crítica e proactiva, a nossa cidadania.

Deixemos claro aos líderes políticos, especialmente aos que dirigem os partidos com assento na Assembleia da República que não lhes perdoaremos, se deixarem que Portugal caia no abismo…

Se os dirigentes políticos deixarem Portugal morrer na praia, de que nos servirá uma Democracia formal, se na prática, o poder for detido pelos credores, que continuarão a ter a faca e o queijo na mão, para pôr e dispor, a seu belo prazer?

A Liberdade e a Democracia são bens inestimáveis, mas que se fragilizam facilmente, se por um qualquer acaso, se erguerem sobre esses bens maiores, outros que estão na base da nossa sobrevivência. E como a História, repetidamente nos ensina, tem sido por aí que a Liberdade, a Democracia e a Soberania de muitos povos tem sido aprisionada, pela cobiça e ânsia de poder de gente sem escrúpulos que não olha a meios, para atingir os fins. E o tempo em que vivemos, é muito exposto a estas fragilidades e desequilíbrios que fazem perigar a independência e soberania dos povos.

Esta é a nossa última Esperança, não podemos prescindir dela, nem deixar que a insensibilidade e os egoísmos a lancem borda fora.

Temos de ser exigentes com os nossos líderes políticos, muito exigentes mesmo…

Victor Dias