Opinião Victor Dias: A Liberdade está a passar por aqui, e a Democracia?

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Não deixa de ser irónico que já em pleno clima de comemoração dos 40 anos, da chegada da Liberdade e Democracia, o exemplo de Cultura Democrática de certos órgãos de soberania, tresande a mofo do Estado Novo.

O meu ideal político, sempre foi, é e será, a social-democracia. Não esta que Passos Coelho apregoa e pratica, mas a social-democracia pela qual se bateu Francisco Sá Carneiro e a que praticava Olof Palme, personalidades de fundas convicções e férrea determinação na defesa desse ideário, mas de um “fair-play” e Cultura democrática que hoje não vislumbro, nem no panorama nacional, nem em certas instituições europeias.

A conferência que Durão, Cavaco e Passos promoveram na Fundação Gulbenkian, trocando entre eles galhardetes e piropos demogógicos, foi do meu ponto de vista, um triste espectáculo que em nada dignificou a Democracia.

Da forma como as coisas foram preparadas e levadas a cabo, a ser verdade o que veio a público, temos de dar razão aos dirigentes do Partido Socialista e das outras forças partidárias com assento no Parlamento, por não terem participado naquele número de circo político, e não se terem disposto a fazer papel de figurantes.

A Democracia não é isto. Não é assim que transmitimos aos nossos filhos e aos vindouros, uma verdadeira Cultura Democrática, em que a presença dos nossos adversários políticos, tem de ser encarada como indispensável, desejável e útil. Uma presença efectiva e proactiva e não apenas para europeu ver, ou para legitimar qualquer encenação, com fins pré-eleitorais.

Creio, mas creio profundamente, que uma sociedade genuinamente democrática só pode evoluir, se tiver massa crítica, se encarar verdadeiramente, o debate e o combate político, como acções que enriquecem o seu desenvolvimento humano e social.

Só há escolha quando há por onde escolher, e como tal, é imprescindível que a todos seja dada a possibilidade de revelar as suas ideias e projectos políticos para a sociedade onde se pretende disputar o poder.

Ninguém governa bem, se não tiver consciência que a sua acção é objecto do olhar crítico de quem se lhe opõe, exercendo o seu papel escrutinador permanente. É claro que isso, por vezes, obriga à negociação e gera tensões que nem sempre são fáceis de ultrapassar, mas que fazem parte da vida democrática, seja na política, como em qualquer instituição sujeita a uma governação plural.

Em matéria de pedagogia democrática, esse evento que resultou monocórdico, foi a meu ver, um tiro no pé que só serviu para inchar o ego dos que o protagonizaram, mas cujos efeitos ao nível da opinião pública, esclarecida e firme nas suas convicções democráticas, serão negativos para a imagem dos partidos que a ele se associaram.

Considero-me um democrata moderado, quer dizer, que não alinho em fanatismos ou radicalismos de qualquer espécie, que possam toldar-me o pensamento e a Liberdade de opinião.

Face a este meu posicionamento cívico, não gosto que ninguém seja excluído do debate de ideias, e muito menos tolero, qualquer tipo de visão atávica e redutora, do que deve ser a Democracia, numa sociedade que se quer livre, moderna e europeia.

Só não vou tecer mais nenhum comentário acerca de Durão Barroso, por mais uma desastrosa aparição pública em Portugal, porque não quero que se pense que tenho alguma coisa de pessoal contra a pessoa, até porque faço sempre um grande esforço, para não fulanizar, tanto quanto me é possível, as minhas divergências políticas.

Claro está que todos nós sabemos bem, que não é completamente possível, separar o carácter de uma pessoa, do que ela pensa, e de como ela age, em todas as dimensões da sua vida, por mais criativas e poderosas que sejam as técnicas e meios colocados ao serviço da sua imagem. E isto é tão verdade que, não raras vezes, é pela boca, que “morre” o político, traindo-se a si mesmo, para desespero do seu séquito de assessores de comunicação e imagem…

Foi também desconcertante, a actuação da Senhora Presidente da Assembleia da República, a propósito da trapalhada que foi o convite à associação 25 de Abril. Creio que seria muito importante lembrar a Drª. Assunção Esteves, que esta Associação cívica, congrega os capitães e militares que deram o corpo às balas, na madrugada de 24 para 25 de Abril de 1974. E isso, por si só, já era suficientemente credor de respeito e consideração, predicados que lhe escaparam, de todo. Quer ela goste ou não, foi graças a esses homens que ela ascendeu ao segundo cargo mais alto da República Portuguesa. De que será que terá tido medo? Ou é mesmo inabilidade política e institucional?

A Casa da Democracia, onde se recebem os polícias em protesto, subindo as escadarias e gritando bem alto, por reivindicações cuja legitimidade não questiono, tem uma Presidente que, afinal, usa critérios subjectivos. Convém que alguém esclareça a senhora que a Democracia é o regime do pluralismo e da igualdade de oportunidades, mas para todos…

Há muitos séculos que os romanos sabiam disto quando recomendavam a César que a sua mulher não parecesse apenas séria, mas que também o fosse… Ou o contrário, que é igualmente válido… Porque não basta ser coerente, é preciso ser consequente…

Liberdade vamos tendo, seria bom que Democracia também…

Victor Dias