Opinião Victor Dias: A hora dos democratas europeus

As últimas eleições europeias demonstraram, pela força dos números, que a demissão dos cidadãos europeus, apáticos e indiferentes à governação da coisa pública comum, abre caminho aos activistas fanáticos e extremistas, que até agora andaram pelas margens da política e dos centros nevrálgicos do poder.

As campainhas de alerta já tinham soado, agitadas pelas inúmeras sondagens que iam antecipando esse cenário.

No rescaldo da noite eleitoral portuguesa, mais do que a dupla ilusão, de um partido que ganhou uma mão cheia de nada, e uma coligação que tenta todos os malabarismos para fazer crer que a tareia não doeu assim tanto, assistiu-se ao triunfo do discurso populista anti quase tudo, que facturou forte e feio, no terreno do descontentamento social.

Entretanto, ecoam por toda a Europa, as sirenes que noutras décadas e noutros séculos, avisavam do perigo eminente. O perigo da ascensão, precisamente do populismo que só grassa entre os desprotegidos, incautos e despojados de emprego, de acesso à distribuição de riqueza e afastados da justiça social. Um terreno fértil para semear o radicalismo avesso à Democracia.

Se observarmos o que se passa, um pouco por todo o terceiro Mundo, sobretudo em sociedades em que as desigualdades sociais são gritantes, temos a prova provada, de que é muito mais fácil, nesses caldos de cultura, propagandear um poder autoritário, despótico, e ditatorial, que desrespeita constantemente os direitos humanos, que esmaga qualquer tentativa de oposição e é implacável com quem defende a Liberdade e a Democracia.

Parlamento-Europeu

O que verdadeiramente distingue a velha Europa é a civilização, é sobretudo este conceito de cidadania participativa, responsável e democrática, que se encaminhava para a construção de uma comunidade integradora das diversas culturas, em que a força da sua união era a Liberdade e a Democracia. Uma civilização que, nalguns países, mais de 80% dos eleitores desprezou, permitindo que as minorias se agigantassem. Minorias obedientes e disciplinadas que seguem para as urnas, como quem vai para o sindicato do voto, esfregando as mãos de contentamento e rindo-se de uma maioria que prefere ficar em casa, ou ir à praia, enquanto o seu futuro vai passando para as mãos dos líderes dessas forças marginais.

Muito gostaria de perscrutar a consciência dessa imensa massa anónima que não foi votar, para saber o que pensa, sobre a amálgama política em que se está a transformar o Parlamento Europeu, pejado de deputados que não querem lá estar, e que odeiam a ideia de uma Europa em União. Não deixa de ser caricato e de certa forma até perverso que gente que quer destruir a construção da comunidade europeia, tenha por direito próprio, toda a legitimidade para o tentar fazer, colocando-se no seu seio, como um Cavalo de Tróia.

Creio que chegou o dia D, o tempo dos cidadãos democratas deixarem de encolher os ombros e de remeter-se a uma apatia que terá como desfecho fatal, caso não se inverta rapidamente este caminho, uma abertura escancarada das alas á progressão dos orgulhos nacionalistas, dos egoísmos etnocêntricos e de uma tomada do poder, sem retorno, daqueles que se servem da Democracia para conquistar legitimidade democrática.

Não tenhamos nós também ilusões, até porque essas forças não escondem de ninguém, porque está clarinho como água nos seus ideários e programas, que uma vez chegados ao poder, tratarão de suspender ou banir a Democracia da política. E depois, lá voltaremos outra vez à mesma “História”, de termos de reconquistar tudo, com sangue, suor e lágrimas, como sempre aconteceu, quando a Humanidade teve de lutar pela sua Liberdade.

Esta minha visão, não é tremendista ou apocalíptica, é isso sim, uma constatação realista, baseada nas confirmadas rimas da História, cujos factos se apresentam como o algodão, depois de passado por cima dos móveis, quer dizer, só enganam quem quer ser enganado…

Chegou a hora dos democratas europeus, tomarem nas mãos, as rédeas do curso da História da Europa, num tempo que urge e se vai esgotando a olhos vistos…

 

Victor Dias