Opinião Victor Dias: Educar pelo afecto

Na minha infância era comum ver crianças serem maltratadas pelos seus cuidadores. Desde logo, no seio da família, pais, avós e outros membros mais chegados, inculcavam uma dialética de sentido único, que parecia só conhecer a divisa: – “Quem dá pão dá criação… o pão numa mão e o pau na outra…”.

Essa lógica repressiva, de que a escola pública era máximo expoente, era fruto de um sistema político ditatorial, autocrático e opressivo, que impunha este código educativo, como metodologia de educação das crianças, jovens e até adultos, certamente com a finalidade de quebrar qualquer ideia ou ousadia, a quem sequer sonhasse questionar ou pôr em causa, os poderes do regime, ordenados pelo pensamento único de Salazar: – “.Deus, Pátria e família”.

Creio que do ponto de vista ideológico, a única coisa que me leva a discordar, ao nível da forma, é a ordem em que aparece a família, neste alinhamento político confessional. Muito embora, me oponha frontalmente, no que respeita à substância, à abusiva instrumentalização do Santo Nome de Deus, na minha funda convicção de Cristão Católico, nem a Salazar, nem a nenhum outro político, assiste o direito de invocar o Criador, com tais propósitos tão capciosos.

Contudo, o problema é bem mais profundo. E na verdade, o regime ditatorial e a sua filosofia repressiva de educação, deixou marcas terríveis, que não se apagarão tão cedo.

Marcas

Conheço muitas pessoas que foram educadas, ou talvez pior do que isso, “formatadas”, nesta lógica repressiva de educação, que até hoje, sofrem com as marcas psicológicas e até espirituais, desse sistema que, em certos casos, deixou mesmo marcas indeléveis, até no mais íntimo da sua alma. Muitas delas revelam-se totalmente incapazes de se relacionar com filhos e netos, sem que essa “formatação” psicológica irrompa e contamine o seu discurso relacional. E o mais dramático, é que essas pessoas acabam sempre por se dar conta disso mesmo, e sofrer, sofrer de novo, com essas sequelas traumáticas de infância, de um passado infeliz que as persegue e atormenta, pela vida fora.

Quando converso com pessoas desse tempo, e tento perceber, com todo o cuidado, como aprenderam a linguagem dos afectos, do carinho e da ternura, tão importante e até imprescindível para que tenhamos uma infância feliz, acabo muitas vezes por concluir, que nunca experimentaram o consolo de se terem sentado ao colo do pai, de ser abraçadas e acariciadas pela mãe, de se lembrarem com toda a clareza, dos beijos e dos afagos dos seus progenitores, avós ou mesmo irmãos mais velhos.

Apesar de ter entrado para a escola, ainda em pleno Estado Novo, recordo com alegria e felicidade, o modo afectuoso como o meu pai me fazia festinhas na cabeça, me beijava quando chegava da escola, ou me sentava ao colo, enquanto via televisão. E isso apaga todos os puxões de orelhas e merecidos correctivos que me deu, porque me amava. O meu pai e a minha mãe, nunca mandaram dizer por ninguém que me amavam. Eles sempre expressaram esse amor incondicional, traduzindo-o em gestos concretos de afecto. Meu Deus, como isso foi tão importante para mim. Foi e é!…

Hoje, como pai, alicerço a educação que dou às minhas filhas, precisamente nessa forma de expressar o meu amor por elas, não poupando no carinho, na ternura e no afecto. E o que recebo, nessa linguagem humanista da educação, nesse diálogo que escusa as palavras, é extraordinário e faz-me sentir feliz.

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Castigos

Não julgo as pessoas que ainda persistem no erro de defender os castigos físicos, a repressão e a violência, como metodologia de educação de crianças e jovens. E não as julgo, porque a maioria delas foi educada assim, sem nunca conhecerem esse lado maravilhoso dos afectos que nos tornam pessoas felizes e emocionalmente mais equilibradas, sensatas e ponderadas, que não alinham facilmente em extremismos intolerantes, radicais e repressivos.

Mas se é verdade que não julgo essas pessoas, porque foram vítimas de um sistema, não posso no entanto, concordar com a sua persistência num erro clamoroso. Acredito que quem só sabe educar com recurso ao castigo físico, batendo ou punindo fisicamente uma criança, é incompetente e não está preparado para ser cuidador ou educador.

Para que não haja qualquer sombra de dúvida, tenho de afirmar aqui com toda a clareza, que este meu pensamento, sobre uma educação não violenta e fundada nos afectos, não significa de modo algum, que eu não acredite nas virtudes de uma educação dirigida, por pais e educadores, baseada em princípios e valores, com regras e normas de conduta social, absolutamente imprescindíveis, para que as crianças e o jovens, cresçam harmoniosamente, e se integrem na sociedade, adoptando atitudes e comportamentos saudáveis, isentos de desvios ou malefícios, para que se realizem e sejam efectivamente felizes.

Creio que a prova de tudo quanto aqui afirmo, é o facto de as crianças e jovens que se encontram à guarda de instituições, por ordem dos tribunais, terem em comum carências afectivas muito profundas e traumatizantes, que em larga medida explicam os seus comportamentos desviantes e os seus desequilíbrios psico-emocionais.

 

Victor Dias