Desconforto ou incómodo?

Com as primárias do PS, o caso que envolve o Primeiro-Ministro, Pedro Passos Coelho, ficou suspenso numa interrupção mediática, que com toda a certeza, segue dentro de momentos.

Agora, com António Costa já eleito e indigitado como candidato do PS para Primeiro-Ministro, o PSD tem um problema entre mãos, cuja solução, não é nada fácil, e vai certamente agitar as hostes do maior partido da coligação.

Muita gente no seio do PSD, mais do que desconfortável, com as ineficazes explicações que Passos Coelho deu no Parlamento, a respeito dos factos que vieram a público, está incomodada, seriamente incomodada, com a grave perda de credibilidade do chefe do Governo, e eventual, candidato do PSD, à revalidação do mandato.

Nestes últimos dias, tudo tem corrido mal a Passos Coelho, desde o caso “Tecnoforma”, à própria vitória de Costa, para não falar das dificuldades que o Governo tem encontrado nas escolas, nos tribunais, nos hospitais e nas reuniões semi-secretas, para tentar negociar com os parceiros sociais, acordos que ajudem a preparar o futuro, do próprio Governo, é claro.

O curso e o discurso

Sucede ao discurso durão, quase messiânico do Primeiro-Ministro, que chegou repleto de autoconfiança e de ímpeto moralizador, uma linguagem inadequada, e que em nada ajuda à credibilidade de um governante, mormente, quando esse governante, é o chefe do Governo.

Utilizar a linguagem da salsicharia, para aludir ao seu pensamento sobre educação, ou recorrer à linguagem de “cabaret”, para afirmar que não está disponível para o “Strip Tease” das suas contas bancárias, é no mínimo, demonstrativo do seu nível intelectual, e não condiz com a sua leonina entrada, quando chegou ao poder, proclamando que tinha chegado a hora da integridade, da transparência e da verdade, “doa a quem doer”…

Votei sempre no PSD, e como tal, também sou responsável pela eleição de Pedro Passos coelho. E por essa razão, devo confessar que me dói, enquanto social-democrata convicto, ouvir nas ruas e nos lugares de ilustração, o recrudescer da alcunha de “playboy”, colada à figura de Passos Coelho.

Independentemente das minhas divergências de opinião, não deixarei nunca de nutrir pelas pessoas que nos governam, em Lisboa ou no poder local, prestando um relevante serviço ao país, às comunidades locais e ao bem comum, um enorme respeito e consideração. Por uma questão de princípio, nunca embarco nesses julgamentos populistas, que são próprios da política do reviralho. Mas é precisamente por isso, que lamento tanto, que Passos Coelho se tenha posto a jeito, e se tenha exposto, a si, e ao partido, a um “fogo cruzado”, que vai deixar marcas profundas.

salsicha

O peso político da linguagem

Nas sociedades contemporâneas, principalmente ao nível da política, a linguagem tem uma enormíssima relevância, sobretudo quanto às implicações que acarretam, a propósito das percepções das opiniões públicas, sobre o carácter dos políticos.

Os recentes acontecimentos, envolvendo Passos Coelho, vão contaminar o combate político, e condicionar o espaço de manobra do líder do PSD, que dificilmente conseguirá impedir que a oposição, e em particular o PS, centre a sua acção, numa exploração sem limites e sem quartel, das fragilidades adquiridas com este lamentável caso.

O PS e o seu novo líder, sabem bem, que tem pouco por onde fugir, à austeridade, aos impostos, aos cortes e à imposição aos portugueses, de um modo de vida mais frugal.

E sabendo bem dessa inevitabilidade, as suspeitas que pairam sobre o líder do PSD, caíram que nem ginjas, para municiar a “artilharia pesada” do PS, que não vai poupar Passos Coelho, a investidas frequentes, bem coordenadas e cirurgicamente agendadas.

Basicamente, a oposição fará o que lhe compete, mas sem ter de se preocupar tanto, com o debate político, puro e duro, focado em propostas concretas e programas de governo. Dificilmente vai descolar deste assunto, enquanto houver chão que dê uvas.

É muito natural, que na área política do Governo, e muito em particular no PSD, mais do que desconforto com a situação, comece a alastrar o incómodo, e se ergam vozes, no sentido de questionar o rumo do partido, e sobre quem deve protagonizar o programa político, que vai ser submetido a sufrágio nas legislativas de 2015?

Creio que seria útil, quer em termos de mobilização interna de todo o PSD, mas também, ao nível do envolvimento e galvanização da sociedade portuguesa, que o partido, adoptasse uma metodologia de escolha do candidato a Primeiro-Ministro, baseada no modelo das primárias.

Quem sabe, se não seria uma excelente solução, para contrariar os actuais ventos, que para Passos Coelho, e em consequência dele próprio, também para o PSD, não estão de feição.

Como o próprio líder do PSD não se cansou de lembrar aos portugueses, temos de mudar de vida. E chegou a hora do PSD seguir os conselhos do Primeiro-Ministro…

 

Victor Dias