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O Futuro da Europa Face às Dinâmicas Internacionais

No âmbito da Exposição internacional de fotojornalismo “World Press Photo”, que visitou a Maia pelo décimo terceiro ano consecutivo, decorreu no auditório do Fórum da Maia, no final da tarde do passado dia 15, a conferência “O Futuro da Europa face às dinâmicas Internacionais”.

Este evento, promovido pela Câmara Municipal da Maia e moderado pelo vereador das Relações Internacionais, Paulo Ramalho, contou com a presença de três conhecidos especialistas em questões internacionais: José Manuel Félix Ribeiro, colaborador da Fundação Calouste Gulbenkian e do Instituto de Defesa Nacional, Fernando Jorge Cardoso, professor universitário, coordenador da área de estudos do Instituto Marquês de Valle Flor e responsável pelo programa Africa do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais até 2012, e Duarte Marques, deputado da Assembleia da Republica e membro da comissão parlamentar dos assuntos europeus.

Relativamente à escolha do “Futuro da Europa“ para tema central da conferência “World Press Photo 2014”, Paulo Ramalho referiu que “os últimos doze meses foram muito marcados pelos conflitos no interior da Ucrânia entre movimentos pró- União Europeia e movimentos pró-Russos, e que originaram relações de grande tensão entre as autoridades Ucranianas e Russas, o que tudo deixou a União Europeia perante uma posição particularmente difícil e de alguma indefinição, para não dizer hesitação. Por outro lado, os países da União Europeia continuam, na generalidade, com crescimentos económicos muito reduzidos, em que a sustentabilidade do seu modelo de estado social está cada vez mais colocada em causa, e em que os movimentos de extrema-direita vão ganhando cada vez mais expressão, como se viu nas últimas eleições para o parlamento europeu. Sendo que a Alemanha, por sua vez, vai adquirindo também, cada vez mais preponderância dentro da União, quer política, quer económica, o que lhe confere um estatuto de liderança e capacidade de influência que está longe de ser pacífica entre os demais vinte e sete Estados membros, os quais se apresentam ainda, aliás, muito desiguais na capacidade de oferecer bem-estar aos seus nacionais. A que acresce, fruto da globalização, uma constante interdependência entre as principais economias internacionais, a que os países Europeus estão naturalmente também sujeitos, e em que a China desempenha hoje um papel de actor principal e muitas vezes decisivo, sem prejuízo dos Estados Unidos da América permanecerem, de forma absolutamente inquestionável, com o estatuto de maior potência do mundo, económica, politica e militar. Daí que tendo em consideração todas estas realidades, tenhamos optado por promover este ano, uma reflexão sobre o estado actual da Europa, e em conjunto com o Félix Ribeiro, o Fernando Jorge Cardoso e o Duarte Marques, três especialistas da arte, tentado também projectar algo mais acerca do futuro que se adivinha”.

Percorrendo a conferência, José Manuel Félix Ribeiro, começou por fazer uma análise das dinâmicas da globalização a partir da década de oitenta, destacando a “reciclagem dos excedentes correntes da Asia-Pacífico e das economias energéticas do Golfo Pérsico para a economia dos Estados Unidos da América, em contrapartida da abertura do mercado norte-americano às exportações asiáticas e às garantias de segurança prestadas pelos mesmos Estados Unidos aos estados da Asia oriental, com um registo histórico de antagonismos entre eles e a estados do Golfo Pérsico, em que a Asia-Pacífico se abastece de petróleo”, reclamando, ainda, terem existido duas grandes reciclagens de excedentes correntes na economia global, designadamente, “as economias excedentárias da Asia-Pacífico, com destaque para a China e Japão, que reciclaram os seus excedentes correntes na economia dos Estados Unidos da América, adquirindo vários tipos de activos financeiros e a economia Alemã, que reciclou os seus excedentes correntes na Europa do Sul”. Sendo que segundo este investigador da Gulbenkian, “a crise mundial, primeiro nos Estados Unidos da América, e depois na Zona Euro, está a colocar em causa a dinâmica que suportou até aos dias de hoje a globalização, levando a China e a Alemanha a questionarem ao mesmo tempo as reciclagens em que se envolveram”. Acrescentado ainda que actualmente, “os Estados Unidos não têm mais espaço para o crescimento das importações vindas da China e da Asia Pacífico, e a própria China não tem interesse em aumentar o excedente corrente para o reciclar em activos financeiros dos Estados Unidos”, e a própria “Alemanha não está disposta a reciclar excedentes para financiar a Europa do sul”. Félix Ribeiro terminou a sua intervenção, alertando para o facto da Zona Euro, após três anos de políticas de austeridade, possuir nesta altura, o maior excedente corrente da economia mundial, sublinhando que “enquanto a economia com a moeda internacional, ou seja o dólar, continua a liderar a realidade empresarial, em particular a tecnológica, e tem défices correntes, fornecendo liquidez à economia global, a Zona Euro, sob a liderança Alemã, com os seus excedentes e a sua estagnação, transformou-se no principal problema da economia global dos dias de hoje”.

conferencia futuro da europa maia dez 2014 world press photo

Não deixando de concordar em boa parte com a intervenção produzida por Félix Ribeiro, Fernando Jorge Cardoso, adiantou que uma reflexão mais profunda não poderá deixar de ter em atenção que “o futuro da Europa está também condicionado pelas dinâmicas de outros espaços, incluindo o Africano, onde, após cerca de trinta anos de empobrecimento generalizado, se processa um crescimento económico sustentado pela procura chinesa de matérias-primas e pelo financiamento para obras de infraestrutura”, alertando todavia, para o facto do modelo de crescimento chinês estar cada vez mais confrontado com “as consequências do aumento do consumo interno, com subidas do preço da mão-de-obra, diminuição da competitividade e impacto ambiental”, o que poderá significar num futuro próximo, “problemas sérios para a China, para África, e para o mundo”.

Por sua vez, o Deputado Duarte Marques, que participou nas manifestações pro-União Europeia, que decorreram em Dezembro de 2013 em Kiev, capital da Ucrânia, falou das experiencias que ali viveu, bem como da importância dos valores do projecto Europeu, tendo ainda manifestado a sua firme convicção numa aproximação crescente da Ucrânia à União Europeia, apesar da forte oposição da Rússia. “A participação nos protestos que ocorreram na praça Maydan marcou-me, espero que para sempre, fez-me sentir de facto a importância dos valores europeus, como jamais havia sentido. Estar junto de todas aquelas pessoas, ouvindo-os, simplesmente olhando para eles, para as suas tendas, para como se alimentavam, como rezavam, como se divertiam, levou-me ao fundo das raízes e valores do projecto europeu. É incrível, mas senti mais a Europa em Kiev do que muitas vezes a sinto em Bruxelas ou lisboa. O espirito solidário que ali vivi, a janela de liberdade que a Europa significa, mas a perspectiva de abertura da Ucrânia a um mundo democrático, justo e com um modelo social mais eficaz, resume bem a importância de pertencer à União Europeia”.