Será possível exercer a Liberdade sem responsabilidade?

A tinta tem corrido sem cessar, por estes conturbados dias, a propósito da Liberdade.

Liberdade que é, sem sombra de dúvida, o bem mais “sagrado” que a Humanidade tem vindo a conquistar, ao longo dos séculos.

O exercício pleno da Liberdade, impõe, a cada um de nós, e antes de mais, um agudo sentido da responsabilidade.

Exercer a Liberdade com responsabilidade, é compreender os limites que a nossa consciência nos impele a respeitar.

A sabedoria popular, na sua imensa sensatez, fruto de décadas ou séculos de maturação empírica, sempre afirmou que quem semeia ventos, tarde ou cedo, colhe tempestades. Sendo que os ventos podem ser semeados por uns quantos, poucos muito poucos, e as tempestades, quando chegam, não procuram quem semeou os ventos, e varrem tudo e todos que encontrarem pelo caminho.

Curvo-me sem reservas, com o devido respeito, que é todo, diante a memória das vítimas do terrorismo e do fanatismo radical, condenando veementemente o horror e a barbárie.

Nada, mas absolutamente nada, justifica ou legitima actos terroristas, independentemente das causas ou convicções que possam ser invocadas, na tentativa de lhes conferir validade, ou de granjear compreensão.

liberdade

Deixando claro que não podemos prescindir da defesa incondicional da Liberdade, importa no entanto, que não nos deixemos, em circunstância alguma, confundir com os extremos. Não podemos exercer a Liberdade de expressão, com um ímpeto radical e extremo, que nos impeça de olhar e ver, se estamos a ultrapassar todos os limites. Os limites que, uma vez transpostos, podem suscitar ódios, violência, terror e barbárie.

Não sou Juiz, não tenho tal vocação ou formação, e assim sendo, não pretendo julgar nada nem ninguém. Apenas quero questionar-me, se é legítimo, em nome da Liberdade, levada a um extremo sem limites, expor, milhões de crianças e cidadãos adultos, que sabem exercer a Liberdade com responsabilidade, ao risco de uma ameaça terrorista, que se adensou, e é hoje, cada vez mais global.

Há um sentimento, que percorre hoje, silenciosamente a mente e o espírito, de milhões de europeus e ocidentais, que temem verdadeiramente um choque de civilizações, refiro-me ao temor de uma terceira guerra mundial. Uma guerra que não pretende disputar territórios geopolíticos, com fronteiras físicas, mas cujo território é imaterial e da ordem do simbólico.

Foi nesse território imaterial, da ordem do simbólico religioso, que os caricaturistas franceses foram expressar a sua Liberdade, ignorando a sua responsabilidade, acabando por cair na tentação, de se deixarem confundir com quem, afinal, queriam provocar, e provocaram…

Será que a História os lembrará como mártires da Liberdade?…

Ninguém sabe dar essa resposta. Mas o que todos sabemos hoje, é que se perderam vidas inutilmente, e que a Paz mundial, se encontra verdadeiramente ameaçada.

Victor Dias