Falemos de coisas sérias

Penso que ninguém terá dúvidas sobre a importância que tem, para a saúde da vida política democrática, que os candidatos ao exercício de cargos públicos e os titulares em exercício de cargos dessa natureza, sejam cidadãos acima de qualquer suspeita, e que possam invocar sempre o seu exemplo de cidadania, como modelo a seguir.

Claro está, que esse desiderato é cada vez mais difícil de alcançar e sustentar. Basta fazer uma análise de conteúdos, aos jornais e revistas publicados nos últimos anos, e rapidamente chegaremos à conclusão, que não há em Portugal, praticamente nenhum político sem mácula.

Assim sendo, não me parece muito bonito, e muito menos ético, que alguém, de entre os detectados nessa análise de conteúdos, se atreva à desfaçatez de atirar pedras aos seus opositores, sabendo-se como todos nós sabemos, quão frágeis são os vidros dos seus telhados.

É já um lugar-comum, que a política é a arte das possibilidades.

Passos Coelho e António Costa

Ora, sendo o passado da esmagadora maioria dos políticos, quase sempre uma possibilidade de surpresas constrangedoras, e sempre muito incómodas para os apanhados nas malhas da “cusquice” ao seu passado, talvez seja melhor, quer dizer mais útil, esquecermos o seu histórico, e focarmo-nos em matérias mais objectivas, que nos permitam aferir a validade das suas propostas, e sobretudo, as garantias da sua competência política.

É um sapo que teremos de engolir, para não ficarmos sem classe política experiente. Caso contrário, resta-nos como opção, eleger gente anónima, séria e honesta, o que na verdade é um conforto para o espírito. Infelizmente, não podemos viver de ilusões, e temos de reconhecer que diante a imensa trama de interesses, não raras vezes contrários ao interesse nacional e ao bem comum, é preciso que quem nos governa, acrescente outras qualidades, à seriedade e honestidade, como por exemplo, a capacidade de ter jogo de cintura política, e sabedoria para os golpes de asa, que são necessários nos grandes fóruns de poder internacional, para não sermos engolidos ou enganados, pela astúcia dos nossos “parceiros” ou adversários. É triste ter de reconhecer isto, mas é a vida…

Se nós cidadãos nos deixarmos embalar pelo folclore pré-eleitoral que já começou, vamos chegar às eleições legislativas, sem conseguirmos discernir, com a lucidez que precisamos, o que distingue os partidos uns dos outros, e que programas de governo nos apresentam.

Os juízos de valor sobre as pessoas são inevitáveis, e contam, claro que contam, mas quando temos um espectro de lideranças partidárias, em que um passado pessoal e político sem mácula é quase uma impossibilidade, temos de ser objectivos e decidir sobre o que vai ter mais peso para nós, naquela velha lógica popular, em que a escolha é feita com base no princípio: – “…do mal o menos…”.

Termino com uma ideia que tenho vindo a consolidar sobre os médicos e enfermeiros.

Na verdade, houve um tempo em que era muito mais sensível a uma enfermeira simpática e dócil, meiga mesmo. Mas hoje, graças a algumas experiências, diria curiosas, para não dizer outra coisa, não me importo de prescindir desses atributos, em favor da competência, da eficiência e da eficácia. É isto que muitas vezes faz a diferença, toda a diferença, entre sofrer mais ou menos, e entre uma cura garantida e célere, em oposição ao prolongar de tratamentos que demoram a curar, e que por vezes não resolvem mesmo os nossos problemas, frustrando a nossa esperança.

E esse vai ser o meu critério de escolha eleitoral nas próximas legislativas.

Victor Dias