Alfaiataria Cavaco

É com imensa mágoa que me sinto impelido a criticar o Presidente da República. E é com mágoa, porque acreditava na sua habilidade política e numa sensatez superior, facto que me levou, não raras vezes, a subscrever algumas das suas intervenções. Mas tenho de me confessar profundamente desiludido, quer com a forma desajeitada de comunicar com o país, como pelos deslizes em que tende a confundir o inconfundível, não conseguindo disfarçar a sua dificuldade em separar o trigo do joio. Dificuldade que vem desde o caso BPN, passando pelo BES e outras trapalhadas que o têm deixado muito mal na fotografia presidencial.

Tenho pena, muita pena mesmo, que se aproxime do fim do seu mandato, afundando-se cada vez mais, em equívocos, contradições e erros de avaliação, que em nada enobrecem a sua prestação presidencial.

Desejo, em nome do respeito que a função me merece, que Cavaco Silva, neste ano que ainda lhe resta, saiba gerir melhor a sua imagem, seja contido e assertivo no discurso e na acção, e se ainda for possível, tente salvar um mandato que não está a correr nada bem.

Nunca fui um indefectível de nenhum “ismo”, e sobretudo nunca passei nenhum cheque em branco de confiança política ilimitada, nem a nenhuma personalidade, nem a nenhuma ideologia ou força partidária. A única lealdade ou fidelidade que mantenho é com a minha consciência. E é em nome dessa fidelidade, que não posso poupar o Presidente.

Independentemente das querelas que vão alimentando as edições dos telejornais e as primeiras páginas dos diários ou semanários, há ideias paternalistas que não ficam bem ao mais alto magistrado da nação, de quem espero uma postura equidistante, imparcial e acima da luta partidária. Mais importante do que o sentido de Estado, é o sentido da ética política republicana, que por estes dias vagueia pelas ruas da amargura.

Creio que ao PR não é dado o direito de sugerir o talho, fazer o corte, alinhavar e “ditar”, do alto do seu atelier, que fato presidencial deve ser escolhido pelos portugueses, para o próximo inquilino de Belém. Sendo que está a entrar na ponta final do seu último mandato, e como tal, quer ter uma palavrinha a dizer, quanto ao feitio do próximo presidenciável, o alfaiate apresenta o seu modelo, tentando impor a moda.

Um Presidente equivocado

Os eleitores portugueses não são mentecaptos. Podem até ser ingénuos, teimosos e “baldas”, mas mentecaptos, isso não. E percebem muito bem quem gostaria o actual Presidente de ver suceder-lhe em Belém. Talvez alguém que tem muita experiência a servir cafezinho em cimeiras internacionais, antes de acordos de coligação militar, para ir fazer estragos no médio oriente, e a seguir ir para a Comissão Europeia. Não será esse o fato?…

Se a experiência nos negócios estrangeiros e nas relações internacionais fosse uma vantagem, para exercer esse cargo supremo da República, então sou levado a concluir que Cavaco Silva não tem esses predicados políticos.

Se o actual PR tivesse o talho, as medidas e o feitio que vem agora dizer que é necessário e útil, na última cimeira dos PALOP, teria por certo conseguido fazer ver e sentir aos nossos parceiros de Língua Portuguesa, que somos pobrezinhos, mas sérios, honrados e democratas, e que em matéria de valores, princípios e direitos humanos, não podemos fazer vista grossa.

O Presidente não sabe que isto de ser político, de ser um político com sentido de Estado, não nos pode levar a assobiar para o lado, por causa de uma fotografia tirada com meia dúzia de amigos, onde não nos importamos de ficar com cara de pau.

Ficar, numa imagem de comunidade apenas justificada por interesses e negociatas de cleptocratas, ao lado de um facínora, e ter de aparecer na fotografia do concerto das nações livres e democráticas (União Europeia), com a cara manchada de vergonha, é submeter todos os portugueses a uma humilhação internacional que não mereciam. É isso mesmo que eu sinto.

De que nos interessa que o Presidente não tenha aplaudido um dos mais sanguinários ditadores africanos das últimas três décadas, para fazer o frete a Timor, e aos parceiros africanos? Não aplaudir e fazer cara de pau, é curto, muito curto!…

As “democracias” e os “estados de direito” que integram os PALOP passariam a ter muito mais respeito e cuidado com Portugal, se em vez de claudicarmos diante a força dos petrodólares e dos euros, tivéssemos assumido uma posição inequívoca de veto à entrada da Guiné Equatorial. Poderíamos eventualmente fazer vista grossa à questão da língua, mas nunca deveríamos aceitar um regime antidemocrático, ditatorial, que sonega os mais elementares direitos humanos e cívicos ao seu povo.

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Não podemos ignorar que Teodoro Obiang é um dos 10 ditadores mais ricos do Mundo, que governa com implacável opressão e cleptocracia, o mais recente país dos PALOP. Um país onde o filho do ditador, recebeu de presente do pai, um iate que custou o triplo do montante que a Guiné Equatorial gasta anualmente no orçamento para a saúde pública, facto que a meu ver, é mais do que suficiente para que sobre o regime político deste novo membro dos PALOP, possa concluir que estamos conversados.

Temo que Cavaco Silva fique para a História de Portugal, como o PR que, pela sua omissão, deu o “pontapé de saída” para o fim desta comunidade de língua portuguesa, que se encontra agora a marchar a passos largos para o desmoronamento. Um desmoronamento decorrente da sua perda de sentido ético, democrático e cultural.

Esta não é uma questão menor, bem pelo contrário, levanta questões de legitimidade ética, moral e de direito democrático.

Ora vejamos!

Com que fundamentos éticos, morais e de direito pode o estado português, criminalizar e condenar, a lavagem de dinheiro proveniente do tráfico de droga, de diamantes, de marfim, de madeiras exóticas cuja comercialização é proibida, de animais em vias de extinção e de armas?

Que princípios, que valores e que legitimidade pode invocar para impor censura moral contra as violações dos direitos humanos, dentro e fora de portas?

Alargando o significado do velho adágio romano, apetece dizer que à mulher de César não basta parecer ser séria, mas é preciso mesmo sê-lo!…

Creio que vamos ter de adoptar outro modelo ou outra moda, para o fato do próximo PR…

Silva Peneda

Por mim, já o escrevi aqui, e estou cada vez mais convencido, que Silva Peneda era uma excelente escolha. Prova disso mesmo, é a extraordinária entrevista que concedeu recentemente ao Diário de Notícias, em que afirma claramente o seu pensamento estratégico europeu, a sua visão sobre Portugal e os portugueses, diante a crise severa que se abateu sobre nós, e principalmente, deixa transparecer nas entrelinhas, que é um homem político com princípios e convicções sólidas, qualidades que vão rareando, como nos narram as notícias que fazem a espuma dos dias.

Para mim, não deixa de ser irónico, que embora a Alfaiataria Cavaco tenha “ditado” umas medidas a pensar noutro freguês, sem querer, talhou um fato que assenta que nem uma luva em Silva Peneda. Creio no entanto que mesmo que Silva Peneda quisesse vestir o fato presidencial, não daria jeitinho nenhum, usar o corte que Cavaco Silva talhou. A ironia é que esse corte, essas medidas e talho, são precisas, mas o problema é que a Alfaiataria se mudou para a rua da desconfiança, e já ninguém gasta, nem sequer recomenda, nada de lá…

 

Victor Dias