O maior respeito pelos mortos é o silêncio!…

Há dias vi no telejornal da TVI, a grande reportagem que esta estação de televisão fez nas urgências de 15 hospitais portugueses, com recurso a um método jornalístico pouco ortodoxo, mas em todo o caso, muito frequente e também muito eficaz.

As imagens, neste tempo do império da imagem, exercem sobre as pessoas, uma influência poderosa, que fica difícil comentar ou contrariar.

Reagindo, porventura muito a quente, o Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde, Fernando Leal da Costa, fez o que nenhum político deve fazer, quer dizer, entrou em negação.

Confesso que não sei bem se foi iniciativa isolada, sem dar ouvidos aos seus assessores de comunicação, ou se pior do que o soneto, essa emenda lhe fora sugerida por esses especialistas.

Seja como for, a intervenção foi desastrosa, com Leal da Costa, a cair na infeliz tentação de contrariar o significado das imagens, e querendo substituir-se, na interpretação das mesmas, aos cidadãos telespectadores.

Entre outras infelizes afirmações, Leal da Costa, disse: – “…o que nós vimos foram pessoas bem instaladas…” Não satisfeito, ainda deliciou os fazedores de opinião, com tentativas de desqualificação dos testemunhos de médicos e enfermeiros, procurando colar as suas afirmações, a interesses político-partidários. Facto que, podendo ser verdade, não devia nesta circunstância, ser para ali chamado.

Como não gosto de criticar por criticar, sinto-me impelido a deixar aqui uma recomendação ao Sr. Secretário de Estado, não só para que repense o seu “staff” para a comunicação, como deve pensar igualmente em arrefecer os ânimos, esfriar a cabeça, e depois então sim, afinar um comentário ou uma reacção mais inteligente, pautada pela temperança e sensatez, que nunca deve faltar a um político, sobretudo se for um governante.

Se eu estivesse no lugar dele, diria que aquela reportagem estava realmente bem-feita.

Diria que é um trabalho televisivo, que apesar da sua subjectividade, considerando a narrativa verbal construída pelos seus autores, que sublinha a força das imagens, cujo alinhamento procura explorar, ao melhor estilo tabloide, o sensacionalismo, a especulação e o impacto mediático, baseado no choque emocional que provoca nas pessoas.

Acrescentaria ainda que essa dimensão estética que a reportagem adquire, está bem patente no fundo musical que a serve permanentemente, adicionando-lhe uma densidade dramática que completa o clima emocional à sua recepção por parte da audiência. Clima emocional, que queiramos ou não, condiciona, quer dizer, influencia eficazmente, a leitura racional e o juízo do telespectador, que é dirigido pelo discurso, em voz “off”, do primeiro ao último minuto.

A reportagem, sendo uma peça jornalística muito bem realizada, introduz o assunto, desenvolve o seu pré-conceito autoral e procura concluir por nós, telespectadores, servindo-nos uma opinião já formatada sobre os factos que nos foram exibidos. Factos que pese embora a sua parcialidade, porque não retrataram outras facetas da mesma realidade, permanecem contudo irrefutáveis.

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Tenho dúvidas, tenho mesmo muitas dúvidas, sobre esta tendência de um certo jornalismo actual que segue uma linha editorial, baseada em guiões de montagem e edição de forte pendor estético, cujo resultado, a meu ver, se traduz não raras vezes, numa espécie de objetos de comunicação, do belo horrível…

Em Democracia, a Liberdade de informação é absolutamente imprescindível, e a obrigação de quem tem esse dever e missão, é levar a verdade aos cidadãos. Mas a verdade do real, creio eu, dispensa qualquer ingrediente da ficção.

Como não gosto que me tentem condicionar na minha capacidade cívica de fazer pela minha própria cabeça os juízos éticos, morais e políticos sobre a realidade, não gosto que tentem capturar um espaço que é minha propriedade. Refiro-me, é claro, à minha Liberdade de opinião, razão pela qual, prefiro ajuizar sobre o que vejo, ouço e leio, livre de formatações estéticas, impregnadas de um sentido prévio, seja ele qual for…

Quanto a Leal da Costa, devia ter-se lembrado que morreram pessoas em macas de hospital, nos corredores das urgências, em circunstâncias que a todos nós cidadãos portugueses, nos envergonham, apesar de a nossa única responsabilidade, ser a obrigação de nos indignarmos com tamanha negligência e incúria, e exigir que se apurem responsabilidades e haja consequências. Consequências que penalizem quem falhou. Mas que se traduzam principalmente em mudanças concretas, para que não se volte a morrer ao abandono nos hospitais portugueses.

Como seria tão melhor que o Sr. Secretário de Estado se tivesse remetido ao silêncio, curvando-se em sinal de respeito e em memória dos que pereceram…

A vida das pessoas não é política, mas a política, se for séria e assertiva, pode salvar a vida às pessoas…

 

Victor Dias

1 responder
  1. Agostinho Rocha
    Agostinho Rocha says:

    Quando um jornalista faz reportagem, escreve sobre casos reais e não por interesses obscuros, deve de ser aplaudido o seu trabalho.
    Quanto ao diro ou pseudo secretario de estado deve quanto antes marcar consulta no Magalhaes Lemos.
    Deste calibre é dificil de encontrar, mas lá continua cantando e rindo, coitado de um doente que caia nas mãos do Leal, é melhor ir acompanhado do cangalheiro.

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