Uma coisa e outra…

Agora que as coisas já serenaram um pouco mais, gostava de partilhar uma reflexão de cidadania que me ocorreu, diante os acontecimentos relacionados com o Benfica, e que todos nós testemunhamos pelas televisões.

Não sou sociólogo, e como tal, não me atrevo a esgrimir nenhuma tentativa de explicação ou compreensão do fenómeno da violência de massas.

Creio que ninguém pode negar que o futebol sempre foi uma modalidade desportiva muito afoita à eclosão de episódios de violência.

Uma coisa

Convém então, que saibamos distinguir o que é do domínio do puro vandalismo, no âmbito do qual são praticados actos criminosos ou de perturbação grave da ordem pública, de outros acontecimentos que não podem ser vistos nesse prisma, pela simples razão, de que não são da mesma natureza.

Diante o vandalismo, esporádico ou organizado, só nos resta a veemente e inequívoca condenação.

E em todas as situações que configuram crime, mormente naquelas que colocam em risco a ordem e segurança públicas de pessoas e bens, não podemos esperar das autoridades, principalmente das forças policiais, outra coisa que não seja o cumprimento da Lei e da sua missão. Afinal, é para isso que pagamos impostos, contribuindo directamente para suportar uma despesa pública que garante a autoridade democrática do Estado.

Estou certo que não nos choca que a polícia actue com firmeza musculada e eficácia, em todas as situações que requerem uma resposta à altura, para fazer cumprir a Lei e manter a ordem pública. É o seu dever e não mais do que a sua obrigação institucional. E quando age neste quadro legal e de valores cívicos, merece o reconhecimento de toda a sociedade. Muito embora tenha a obrigação ética e moral, de se conter dentro dos limites legais, e nunca se exceder, para além do que é razoável e humanamente aceitável.

Outra coisa

Outra coisa é um graduado de polícia, no uso abusivo, imoral, ética e deontologicamente reprovável, submeter sem dó nem piedade, um cidadão desarmado e indefeso, a uma cena de humilhantes sevícias.

Este condenável abuso de poder, em que um comandante de polícia, espancou um pai, diante os seus filhos, de 9 e 13 anos, sobrando-lhe ainda ânimo para agredir o avô das crianças, nada tem a ver com a natureza dos acontecimentos que ocorreram nos bares e armazém do estádio do Vitória de Guimarães, ou com aqueles, igualmente lamentáveis, episódios de violência que tiveram lugar em Lisboa.

Nos últimos dias fui vendo e ouvindo, como certamente os leitores também, alguns responsáveis das forças de segurança e do Governo, proferir sobre este caso muito particular, palavras ambíguas, num discurso redondo e mole, escudado numa investigação que está em curso, a cargo de uma entidade que é parte interessada no processo, quer dizer, condicionada na sua independência e imparcialidade.

Não sou Juiz, e como não sou, recuso-me a julgar a matéria de facto que na verdade não conheço, com o grau de aproximação que a Justiça requer.

Mas mesmo concedendo o benefício da dúvida ao polícia, e desconhecendo o teor das palavras do pai de família, a verdade é que se o Sr. Comandante se sentisse ofendido e ferido na sua dignidade de representante da autoridade, dispunha naquele preciso momento, de meios humanos, mais do que suficientes, para dar voz de prisão e deter o homem, submetendo-o porventura até, à humilhação de o algemar perante os filhos e o pai.

Enquanto cidadão, desejo que a Polícia de Segurança Pública, uma instituição que se pauta por um elevado grau de urbanidade e civismo, seja dignificada e prestigiada pelas suas cúpulas e pelos governantes.

Convém que os dirigentes nacionais da PSP e os governantes percebam, que os cidadãos não são mentecaptos ou desprovidos de razão e sentimentos. E convém principalmente que não tentem esconder o Sol com a peneira ou varrer os problemas para debaixo do tapete.

Creio, mas creio com funda convicção que a PSP teria saído reforçada na sua dignidade e prestígio, se o discurso oficial sobre aquele caso lamentável, tivesse sido marcado por uma condenação firme e inequívoca daquela forma de actuação, pepertrada por um elemento em concreto.

E reparem que apenas defendo a condenação inequívoca daquela forma de agir, porque considero que julgar pessoas, seja quem for, sem lhes proporcionar o direito de defesa, diante um Juiz de Direito, não é próprio de um Estado Democrático e de uma sociedade civilizada.

Se o discurso tivesse sido esse, a autoridade legal, ética, moral e cívica da nossa polícia, sublinho da nossa polícia, teria saído, sem sombra de dúvida, muito mais reforçada, tornando claro aos olhos dos cidadãos que o trigo não se deixa confundir com o joio e que uma única má conduta, não pode manchar a imagem de toda uma instituição nacional que tem ao nosso serviço, milhares de concidadãos bem formados, equilibrados, sensatos e senhores de si próprios. Mulheres e homens que não se deixam descontrolar e agir por impulsos “selváticos”. Aquela pessoa não representa, não pode representar a imagem da PSP.

Por fim, reafirmo sem tibiezas, que quando vejo um agente da PSP no exercício da sua missão, reconheço a dignidade do seu trabalho, e encaro-o como um profissional que está ali para garantir a segurança pública, ou seja, para assegurar esse bem, a todos nós que somos público.

Eu não temo a polícia, não quero temer. Eu respeito as pessoas que trabalham na PSP, respeito a sua missão e o seu trabalho, como respeito a Lei. Mal iria um país onde as pessoas civilizadas, sensatas, cumpridoras das regras e da Lei, se sentissem ameaçadas precisamente por aqueles a quem confiam a sua segurança.

Julgo que todos temos razões para pensar que uma coisa não tem a ver com a outra…

E de facto não tem.

 

Victor Dias