Neologismos polissémicos e hiperbólicos

O título desta minha prosa é em si mesmo um exagero. Um exagero que se reduz a quase nada, quando comparado com novos usos que o discurso corrente vai dispondo no quotidiano da opinião pública e publicada.

Do futebol à política, passando pelos principais meios de comunicação, particularmente a televisão, está em curso, uma verdadeira corrida à polissemia e à hipérbole, numa procura desenfreada de termos que possam ser utilizados, para apimentar ou agigantar o impacto da expressão da narrativa política, desportiva ou jornalística.

Esta moda, de procurar e manipular todas as possibilidades de sentido das palavras, seja pelo seu potencial polissémico, ou pela sua riqueza semântica, muito levada para o domínio da interpretação metafórica, tem a meu ver alguns riscos associados.

E um dos principais riscos, é precisamente a perda de sentido, quer dizer, do seu sentido mais direto e concreto, que algumas palavras aportam consigo.

Uma dessas palavras, de entre muitos outros exemplos que aqui poderia trazer, é a palavra brutal.

Este termo – brutal – encontra-se hoje muito banalizado, sendo frequentemente utilizado para significar sensações e emoções anormalmente fortes, o que não deixa de ser adequado. Mas o problema coloca-se, quando nos deparamos com a utilização da palavra brutal, descontextualizada de uma qualquer situação, em que a questão da intensidade, se coloca para descrever um acontecimento, uma sensação ou emoção de bem-estar e de felicidade, em que o termo brutal, se afigura de todo, inapropriado.

Há dias, ouvia num qualquer canal de grande difusão, creio que num anúncio publicitário, uma jovem mulher afirmar que a sensação de amamentar o seu filho com o leite materno era brutal…

Confesso que uso daquela palavra, para descrever uma vivência que é sem dúvida extraordinária, adquire naquele contexto em concreto, um significado que não conjuga muito bem com a beleza e ternura da situação. É demasiado antagónico para ser apropriado a uma mensagem que de brutal nada tem, para reclamar o uso de semelhante palavra.

No futebol é ainda mais frequente, ouvir-se aos comentadores da bola, expressões desajustadas, como por exemplo, “fuzilou” o guarda-redes, disparou um “tiro fatal” à cara de fulano, avançou comos artilheiros de serviço, matou o jogo, etc…

Por seu lado, a política, para não ficar atrás, também recorre com regularidade a palavras como combate, confronto, assassinato político e até “bomba atómica” constitucional, entre muitos outros impropérios que conferem ao debate livre e democrático, uma dimensão linguística que nos remete para um ambiente de contraditório político, servido por um arsenal léxico belicista, completamente injustificado e contraproducente, considerando que deixa os líderes políticos descredibilizados e impedidos de se tornarem exemplo, comprovado numa conduta que se reclama de moderada, sensata e pedagógica, diante a sociedade civil e sobretudo perante as gerações mais jovens.

Será que a imaginação criativa de quem tem a responsabilidade de comunicar com o público, de quem faz opinião, se esgotou e já não é capaz de furar a couraça da indiferença dos cidadãos, dececionados com a qualidade da linguagem de quem ocupa o espaço mediático?

Uma couraça de indiferença provocada por uma certa saturação dos abusos sistemáticos de uma linguagem exagerada e sobretudo inapropriada ao conteúdo e à forma do discurso inerente a certas áreas da vida social.

A linguagem verbal não é inócua, bem pelo contrário, ela produz efeitos e tem consequências mentais e sociais que não podem ser negligenciadas. Razão que por si só, já é mais do que suficiente, para que o seu uso seja adequado e pautado pelas mais elementares regras da sensatez humana, com equilíbrio e correta adequação do seu significado.

palavra

E esta minha reflexão, assume ainda maior acuidade, quando os exageros e impropérios de linguagem, se tornam vulgares, num espaço de comunicação virtual, em redes ditas sociais, onde a brutalidade dos seus impactos, se repercute por vezes em danos irreparáveis.

Um dia destes, voltarei à colação, para me debruçar sobre este novo Mundo virtual, onde a Humanidade mergulha em insondáveis buracos negros.

 

Victor Dias